Fundada em 1733, esta cidade paranaense recebeu Dom Pedro II e virou local de refúgio
Descubra Morretes, município histórico no litoral do Paraná que combina patrimônio colonial preservado, gastronomia centenária e ritmo tranquilo a apenas 69 km da capital

Casarões coloniais de três séculos ainda de pé, um rio com nome indígena cortando o centro e o aroma de barreado cozinhando por vinte horas em panelas de ferro vedadas. Morretes, no litoral paranaense, carrega história viva desde 1733 e virou destino de moradia para quem procura proximidade da capital sem abrir mão da calma do interior.
A cidade une vida social próxima entre os moradores, comércio concentrado em poucas ruas e calçadão à beira do Rio Nhundiaquara. O nome do rio vem do tupi: nhundia (peixe) e quara (empoçado), reforçando a herança indígena anterior à colonização portuguesa. Com pouco mais de 16 mil habitantes, Morretes equilibra tradição centenária e cotidiano tranquilo a aproximadamente 69 km de Curitiba.
A origem de Morretes e o nome que veio da paisagem
A fundação do município tem registro oficial. O ouvidor Rafael Pires Pardinho determinou em 1721 que a Câmara Municipal de Paranaguá medisse e demarcasse 300 braças em quadra para localizar a futura povoação. A medição aconteceu em 31 de outubro de 1733, no ponto onde residia o rendeiro do porto João de Almeida, primeiro morador da região.
O nome veio dos próprios morros. A cidade está cercada por elevações suaves chamadas "morretes", em referência aos montes de pequena altura que formam o cenário natural. O povoamento foi lento no começo. O impulso veio em meados do século XVIII, quando o casal Antônio Rodrigues de Carvalho e Maria Gomes Setúbal recebeu autorização papal para erguer uma capela, concluída em 1769.
Antes da colonização portuguesa, o território era ocupado pelos indígenas carijós até o século XVI. A ocupação europeia começou a partir de 1646, com a descoberta de jazidas de ouro que atraíram mineradores vindos de São Paulo. A elevação a município veio em 1841, com o desmembramento de Antonina.
A visita de Dom Pedro II e marcos históricos preservados
A importância histórica atravessou o Império. A Rua das Flores, no calçadão, foi o local onde Dom Pedro II se hospedou durante visita à região. Ali também funcionou o primeiro telégrafo da cidade, e o endereço virou marco de encontro dos turistas que chegam pelo trem.
Morretes teve o primeiro Theatro do Estado. O prédio, construído no início do século XIX, foi destruído por incêndio em 1930, no mesmo local onde funcionava o primeiro cinema. O espaço foi reconstruído e restaurado no início dos anos 2000, hoje abrigando o Theatro Municipal.
A estação ferroviária de 1885 é outro marco preservado. É por ali que chegam os passageiros do trem da Serra Verde Express, que parte diariamente de Curitiba e percorre uma das ferrovias mais cênicas do país, com pontes, túneis e viadutos encravados na rocha.
Barreado e cachaça morretiana, patrimônios imateriais do Paraná
A gastronomia carrega três séculos de mistura cultural. O barreado e a cachaça morretiana foram tombados como patrimônios imateriais do Paraná pela importância que carregam para a cidade e para o estado.
O barreado tem origem açoriana e três séculos de tradição. É produzido com carnes bovinas de segunda como patinho, paleta e maminha, cozidas por cerca de vinte horas em panela de ferro vedada com folha de bananeira e goma de farinha de mandioca. A mistura leva toucinho, cebola, alho, cominho, louro e pimenta-do-reino, servida sobre farinha com arroz e banana-da-terra fatiada.
A cachaça artesanal tem tradição igualmente antiga. Já em 1733, ano da fundação, havia produção de aguardente no povoado. A atividade ganhou escala industrial em 1877, com a instalação de um engenho central na Colônia Nova Itália. Na década de 1950, o município chegou a ter cerca de 60 alambiques em funcionamento simultâneo.
Por que Morretes atrai quem busca ritmo mais lento
O ritmo tranquilo é o principal atrativo. Com pouco mais de 16 mil habitantes, a cidade combina vida social próxima entre os moradores, comércio concentrado em poucas ruas e calçadão às margens do Rio Nhundiaquara.
A proximidade com a capital pesa na escolha. Morretes fica a cerca de 69 km de Curitiba e é acessível pela Estrada da Graciosa ou pela BR-277, com trajeto de aproximadamente uma hora e meia de carro. O acesso ferroviário pela Serra Verde Express traz uma alternativa cênica que atrai visitantes durante a semana e movimenta a economia local sem descaracterizar o cotidiano.
O custo de moradia acompanha a proposta. As opções vão de casas antigas no centro histórico a propriedades cercadas por áreas verdes nos arredores. A economia local se sustenta pela agricultura, com produção de gengibre, hortifrutigranjeiros e agroindústria familiar, complementada pelo turismo gastronômico que ganhou força a partir de 1989.
Principais atrações e pontos históricos para visitar
O passeio se organiza a pé no centro colonial e por trilhas ou estradas cênicas no entorno. A maior parte das atrações principais fica em raio curto e pode ser combinada em roteiros de fim de semana.
- Rua das Flores: calçadão histórico onde Dom Pedro II se hospedou, com casarões coloniais transformados em ateliês e restaurantes.
- Igreja Matriz Nossa Senhora do Porto: construção colonial iniciada em 1769, marco fundador do centro histórico.
- Igreja de São Benedito: erguida pela Confraria de São Benedito, fundada em 1760, uma das mais antigas do litoral paranaense.
- Estação Ferroviária: prédio de 1885, ponto de chegada do trem da Serra Verde Express, que faz o percurso desde Curitiba.
- Estrada da Graciosa: rodovia cênica de calçamento original, com curvas fechadas, mirantes e cachoeiras em plena Mata Atlântica.
- Pico do Marumbi: parque estadual com trilhas em meio à floresta preservada, uma das mais desafiadoras do sul do país.
- Theatro Municipal: sucessor do primeiro Theatro do Estado, restaurado no início dos anos 2000.
O que comer em Morretes além do barreado tradicional
A gastronomia acompanha a herança indígena carijó, açoriana e italiana. Os pratos do cotidiano preservam séculos de tradição familiar.
- Barreado: prato símbolo, cozido por vinte horas em panela vedada, servido com arroz, farinha e banana-da-terra.
- Cachaça Morretiana: tombada como patrimônio imaterial do Paraná, produzida em alambiques familiares desde o século XVIII.
- Bala de banana: doce típico feito com banana da serra, vendido em quase toda esquina do centro histórico.
- Frutos do mar: ostras, camarões e peixes vindos diariamente de Paranaguá, servidos nos restaurantes tradicionais.
Clima e melhor época para conhecer a cidade
A cidade tem clima tropical úmido, com chuvas abundantes o ano inteiro e temperaturas amenas graças à altitude e à proximidade da Serra do Mar. A Mata Atlântica preservada mantém o ar úmido mesmo nos meses mais secos.
As temperaturas são estáveis ao longo do ano, com variações moderadas entre as estações. A umidade constante faz parte da experiência de estar cercado pela floresta.
Como chegar a Morretes saindo de Curitiba
Morretes fica a 69 km de Curitiba, com acesso pela BR-277 ou pela Estrada da Graciosa (PR-410). O trajeto rodoviário leva cerca de uma hora e meia de carro.
O trem da Serra Verde Express parte da capital paranaense e cruza a Serra do Mar em uma viagem cênica de três a quatro horas. O Aeroporto Internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais, é o mais próximo com voos comerciais nacionais e internacionais.
O que torna Morretes única no litoral paranaense
Poucos municípios brasileiros oferecem centro histórico tombado, gastronomia protegida como patrimônio imaterial, uma das maiores extensões preservadas de Mata Atlântica do país e proximidade de uma capital estadual em raio tão curto.
Morretes soube conciliar turismo, tradição e ritmo lento sem perder identidade. A cidade virou refúgio de quem procura silêncio a uma hora e meia de Curitiba, preservando três séculos de história sem abrir mão da vida cotidiana tranquila que atrai novos moradores.
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