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Farmar aura, six-seven e cringe: o que significam as gírias dos jovens de hoje

Descubra o que significam farmar aura, six-seven, cringe e outras expressões dos adolescentes nas redes sociais. Saiba como pais podem dialogar com filhos.

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Imagem ilustrativa/Canva

Quando dezenas de adolescentes se reuniram no Parque da Cidadania, em Teresina, Piauí, em junho de 2026, eles não sabiam que respondiam a um anúncio falso. O suposto campeonato de farmar aura não existia, mas a vontade de participar era real. O influenciador Stanley Rafael, de 25 anos, percebeu a oportunidade e improvisou a competição com 150 reais de prêmio, uma coluna e um microfone.

O episódio ilustra um fenômeno mais amplo: a forma como os jovens comunicam, brincam e constroem identidade mudou radicalmente com as redes sociais. Expressões como farmar aura, six-seven e cringe circulam entre adolescentes com significados próprios, enquanto emojis ganharam interpretações completamente diferentes das originais. Este guia explica o vocabulário da geração atual e oferece ferramentas para pais reduzirem a distância nas conversas quotidianas.

O que significa farmar aura e de onde veio a expressão

A palavra farmar vem dos videogames e significa repetir ações para acumular recursos ou experiência. Aura representa presença ou carisma. Antes da internet transformá-la num sistema de pontuação humorístico, o termo já era usado para falar da energia de alguém.

Segundo o Know Your Meme, um dos primeiros usos documentados da expressão foi no TikTok, em janeiro de 2024. Durante esse ano, aura points e farming aura espalharam-se pelas redes sociais. A ideia passou a ser usada para personagens, celebridades ou pessoas que pareciam criar deliberadamente uma imagem de grande presença.

Em 2025, a expressão ganhou força entre a juventude brasileira e alastrou-se por toda a América Latina. O conceito saiu do universo digital e transformou-se em competições presenciais onde adolescentes disputam carisma e aprovação do público.

Como funcionam as batalhas de aura nas ruas

As batalhas de aura traduzem-se em poses, movimentos, expressões e passos de dança repetidos num frente-a-frente que procura chamar a atenção do público. O passo do six-seven é o escolhido por muitos para começar as batalhas. O gesto consiste em levantar as duas mãos e alterná-las para cima e para baixo, como se estivesse a equilibrar duas coisas.

Há quem se mande para o chão, quem faça caretas, pinos, quem vá disfarçado. Ganha quem obtiver mais reações por parte da plateia que avalia a prestação de cada um através de aplausos e gritos. Os participantes competem para ver quem agrada mais o público, quem se revela mais carismático.

Na competição improvisada em Teresina, o prêmio acabou dividido entre um grupo de cinco participantes autointitulado Suvaco de Cobra. O segundo lugar ficou com o estudante Kauan Fernando, de 16 anos, que utilizou um chapéu feito com material dourado cintilante e exibiu poses de culturismo, modalidade pela qual é apaixonado.

Sigma, beta e outras expressões das competições

Quem vai conseguindo conquistar a plateia é chamado de sigma, expressão utilizada quando alguém faz algo considerado muito confiante e inesperado. Por outro lado, beta costuma ser usado como o oposto, para gozar com alguém que parece inseguro, que recua numa situação ou que fez algo considerado pouco fixe.

Depois do enorme sucesso do primeiro evento improvisado, Stanley Rafael anunciou uma segunda edição, desta vez organizada antecipadamente e com prémios maiores. A ideia também passou a incluir a recolha de alimentos para doação.

O campeonato mais importante para a história da trend aconteceu em julho de 2026, em São Paulo, organizado pelo criador de conteúdo brasileiro Victor Gabriel Tourinho Camargo, conhecido como Uvitinho, para assistir a 32 participantes. As batalhas espalharam-se depois pela Cidade do México, Quito, Buenos Aires, Espanha e França.

Por que os adolescentes procuram popularidade e prestígio

A psicóloga Catarina Lucas explica que querer farmar aura pode estar relacionado com a necessidade de ser aceite, admirado e valorizado pelos colegas. Durante a adolescência, a opinião do grupo ganha uma importância maior, porque é uma fase em que o jovem está a construir a sua identidade e a perceber qual é o seu lugar entre os outros.

Procurar popularidade ou prestígio pode ser uma forma de se sentir integrado e de aumentar a confiança em si próprio. É perfeitamente normal que um adolescente se preocupe com a forma como é visto pelos pares.

A preocupação torna-se problemática quando passa a dominar o cotidiano e o jovem sente que precisa constantemente da aprovação dos outros para se sentir bem consigo próprio. A aparência, a popularidade e a opinião dos amigos podem ganhar bastante importância nesta fase, sem que isso seja necessariamente negativo.

A necessidade de pertença é universal em todas as gerações

Tânia Correia, psicóloga com mestrado em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental focado na infância e adolescência, acredita que qualquer filme mais antigo em que apareçam jovens mostra a procura de popularidade, a tentativa de ser o rei e a rainha da escola, de obter prestígio seja pelas habilidades físicas, cognitivas ou artísticas.

Segundo a especialista, tal acontece porque esta é uma necessidade intrínseca ao período da adolescência. A chegada à adolescência traz a necessidade de experimentar diferentes papéis e de o adolescente se destacar nalgum deles. Em termos cognitivos, o adolescente passa pelo efeito de se sentir o herói da história, de acreditar que a sua narrativa está a ser escrita de forma a que descubra que é único, com habilidades únicas.

Quando a preocupação com a imagem se torna problema

As alterações corporais, combinadas com um maior interesse pelos atributos também físicos dos pares e a experimentação de papéis com novos estilos, irão por si só canalizar maior atenção para a imagem. Embora seja normal, importa destacar que há uma distinção entre haver preocupação pela imagem e a imagem definir todo o valor daquele adolescente.

É natural surgir maior curiosidade relativamente à imagem e como ajustá-la para comunicar aos pares o que se valoriza ou a que grupo se pertence. No entanto, quando esse cuidado se transforma em medo de ser rejeitado por não corresponder a determinado estilo ou, pior, a determinado número na roupa, estamos perante um cenário que merece atenção, alerta Tânia Correia.

Cringe, bro, ghost e NPC: expressões comuns entre jovens

A SaveFamily, empresa espanhola de smartwatches, elaborou o primeiro Dicionário para Pais com o objetivo de reduzir a distância entre gerações que muitas famílias experimentam nas conversas quotidianas. A publicação contextualiza cada termo e oferece uma equivalência em linguagem mais tradicional.

Algumas expressões presentes no dicionário são bro, que significa amigo ou colega; cringe, algo que dá vergonha alheia; NPC, utilizada para se referir a uma pessoa que age sem personalidade ou de forma automática; ghost, palavra utilizada para o ato de deixar de responder ou falar com uma pessoa de repente e sem justificação.

Outras incluem delulu, pessoa que vive demasiado dentro da sua própria fantasia; POV, expressão comum para introduzir uma situação (Point Of View, Ponto de Vista); flop, que significa fracasso total ou algo que simplesmente não funcionou; e random, algo sem sentido ou aleatório.

Por que os jovens sempre tiveram uma linguagem própria

Na verdade, os jovens sempre tiveram uma linguagem própria, assegura Tânia Correia. O que muda são as palavras, os códigos e, hoje, sobretudo, a velocidade a que estes se espalham. Em diferentes gerações encontramos expressões que faziam todo o sentido para quem era jovem naquele momento e que, aos ouvidos dos adultos, pareciam estranhas, inadequadas ou até incompreensíveis.

Há uma tendência muito humana para olharmos para a geração seguinte com as lentes da nossa própria geração. Na adolescência, a linguagem tem uma função muito importante de pertença. Criar e partilhar determinados códigos ajuda os jovens a reconhecerem-se entre pares, a sentirem que pertencem a um grupo.

Ao mesmo tempo, diferencia-os das crianças, de onde eles procuram emancipar-se, e dos adultos. No fundo, não se trata apenas de comunicar, mas de construir uma identidade, explica a psicóloga.

Como as redes sociais aceleram a mudança de expressões

Segundo Catarina Lucas, estas expressões também refletem mudanças na forma como os jovens se relacionam, sobretudo porque grande parte da comunicação acontece atualmente através das redes sociais e das mensagens.

As redes sociais aceleraram muito este processo, fazendo com que novas expressões surjam, se espalhem rapidamente e desapareçam quando deixam de estar associadas às tendências do momento. Uma trend pode surgir de repente e, em poucos dias, tornar-se conhecida em todo o mundo.

O novo significado dos emojis na comunicação jovem

Os emojis também mudaram de significado. Se antes um piscar de olhos era expresso com ponto e vírgula seguido de parêntese, hoje em dia a evolução do significado dos emojis deu passos em frente e criaram toda uma nova linguagem, refere a SaveFamily.

O emoji da caveira, por exemplo, é utilizado por muitos jovens para dizer que estão a morrer a rir. O emoji da chama significa incrível, hot ou fantástico. Os dois olhinhos abertos significa que a pessoa está a observar atentamente alguma coisa, mas também pode transmitir desconfiança, curiosidade ou interesse pelo que está a acontecer.

As redes sociais, as plataformas de vídeo, os videojogos e a criação constante de memes aceleraram o aparecimento de novas expressões que, em muitos casos, permanecem apenas alguns meses antes de serem substituídas por outras. Este fenómeno faz com que irmãos de idades diferentes utilizem códigos diferentes em muito pouco tempo.

Por que os emojis se tornaram essenciais para os jovens

Catarina Lucas esclarece que estes símbolos permitem transmitir emoções de forma rápida e visual, compensando algumas limitações da comunicação através de mensagens, onde não temos o tom de voz nem as expressões faciais da outra pessoa.

Um simples símbolo pode transmitir humor, carinho, ironia, surpresa ou até desconforto, tornando a mensagem mais fácil de interpretar. Para os jovens, que cresceram num ambiente digital, esta forma de comunicação tornou-se natural e faz hoje parte da sua maneira de expressar aquilo que sentem.

Tânia Correia acredita que esta geração mais tecnológica tem uma maior necessidade de rapidez, de síntese, até porque a concentração e a tolerância à frustração aparentam ser cada vez mais reduzidas em casos de crianças que usam tecnologia de forma recorrente. Usar símbolos e emojis como forma de expressão encurta o caminho e encaixa nesta forma de funcionamento.

Como pais podem aproximar-se da linguagem dos filhos

Estas novas formas de comunicação podem criar alguns mal-entendidos, sobretudo quando os pais desconhecem o significado das expressões ou dos emojis utilizados pelos filhos. No entanto, mais do que rejeitar esta linguagem, é importante mostrar curiosidade e perguntar o que determinada expressão significa, criando espaço para o diálogo, aconselha Catarina Lucas.

Os pais não precisam de falar como os adolescentes, mas compreender minimamente o seu código pode ajudá-los a aproximarem-se e a perceber melhor o mundo dos filhos. Mostrar interesse genuíno pela linguagem que os jovens utilizam demonstra respeito pela sua identidade em construção.

Tânia Correia recorda que este é um tema antigo, amplamente estudado, e que não é explicado pelas novas formas de comunicação que surgem em cada geração. É comum em terapia com pais de adolescentes percebermos que ao longo do desenvolvimento houve um maior foco em determinar regras, em prestar cuidados básicos, o que é essencial, mas ainda assim insuficiente em termos de construção de um vínculo saudável e duradouro.

A importância de criar um espaço seguro para comunicação

É importante que, desde cedo, os pais se habituem a falar das suas emoções com os filhos e que lhes vão dando espaço para que estes expressem as suas emoções enquanto crescem, sem desvalorizar, sem colocar em causa, apenas criando um espaço seguro em que escutam e validam o que a criança sente, assegura Tânia Correia.

Segundo a especialista, irá sempre existir um gap na forma como cada geração comunica, mas as emoções são universais e intemporais. Os jovens continuarão sempre a precisar deste porto seguro onde regressam para partilhar os seus desafios, as suas conquistas, os seus medos.

A construção deste vínculo desde a infância facilita a navegação pelas mudanças de linguagem e comportamento que surgem na adolescência. O essencial não é dominar todas as gírias, mas manter abertos os canais de diálogo.

Quando uma brincadeira se torna fonte de pressão

Uma tendência divertida deixa de ser apenas uma brincadeira e começa a ser uma fonte de pressão quando o jovem sente que precisa de participar para ser aceite, ter atenção ou evitar ficar de fora do grupo, frisa Catarina Lucas.

Quando começa a fazer coisas com que não se sente confortável, apenas para acompanhar os outros ou conseguir aprovação nas redes sociais, podemos estar perante uma fonte de pressão. É importante que o jovem consiga distinguir aquilo que realmente quer fazer daquilo que sente que tem de fazer para agradar ou ser aceite pelos outros.

Os pais e professores devem estar atentos a mudanças persistentes no comportamento ou no estado emocional, como isolamento, tristeza, ansiedade, irritabilidade ou perda de interesse por atividades de que o jovem gostava.

Sinais de alerta que merecem atenção dos pais

Também é importante observar uma preocupação excessiva com a aparência, com a popularidade ou com a opinião dos outros, bem como alterações no sono, no rendimento escolar ou nas relações, exemplifica Catarina Lucas.

Mais do que um comportamento isolado, aquilo que deve preocupar é uma mudança significativa que provoque sofrimento e que interfira no dia a dia do jovem. A pressão por popularidade torna-se problemática quando domina a vida do adolescente e afeta o seu bem-estar.

Compreender as expressões, emojis e tendências dos jovens não significa aprovar tudo sem critério, mas criar pontes de comunicação que permitam identificar quando uma moda inofensiva se transforma em pressão prejudicial.

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