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El Niño ameaça ecossistemas únicos de arquipélago na América e coloca espécies em risco

El Niño aquece o oceano, desestrutura a cadeia alimentar marinha e ameaça pingüinos. Chuvas intensas favorecem plantas invasoras. Entenda os impactos.

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El Niño ameaça ecossistemas únicos de arquipélago na América e coloca espécies em risco • Domínio público

Em um dos poucos refúgios tropicais onde pingüinos ainda habitam, uma alteração nas correntes oceânicas pode determinar a sobrevivência de colônias inteiras. O fenômeno climático conhecido como El Niño, quando atinge intensidade elevada, transforma o equilíbrio delicado do arquipélago das Galápagos através de dois mecanismos simultâneos: o aquecimento anormal das águas marinhas e o aumento dramático das precipitações.

Cientistas que atuam na conservação do arquipélago equatoriano alertam que esse ciclo climático pode comprometer tanto a fauna marinha quanto a vegetação endêmica. A ameaça não se limita a uma espécie isolada, mas atinge toda a rede de interdependências que sustenta um dos laboratórios naturais mais importantes para o estudo da evolução.

Como o aquecimento do oceano desestrutura a cadeia alimentar

O impacto do El Niño começa onde o olho humano não alcança. Quando a temperatura das águas do Pacífico equatorial sobe acima dos valores habituais, os organismos microscópicos que formam a base da alimentação marinha começam a desaparecer.

Segundo Washington Tapia, diretor da organização Biodiversa Ecuador, o plancton, as algas e os peixes de pequeno porte praticamente desaparecem durante episódios intensos. Essa redução na base da pirâmide alimentar provoca um efeito cascata que atinge todos os níveis superiores.

Sem esses organismos essenciais, as espécies que dependem deles enfrentam escassez crítica de alimento. Aves marinhas e mamíferos aquáticos não conseguem compensar essa falta apenas se deslocando, pois o fenômeno afeta extensas áreas oceânicas ao redor das ilhas.

Previsão de intensidade e o que significa para o arquipélago

A magnitude de um evento de El Niño se mede pela diferença entre a temperatura atual da água e os valores históricos médios. Quando essa anomalia ultrapassa 2℃, os especialistas classificam o fenômeno como muito intenso.

A mais recente projeção da Administração Nacional Oceánica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) indicava uma anomalia térmica em torno de 2,2℃. Para Franklin Ormaza, pesquisador da Escola Superior Politécnica do Litoral (ESPOL), esse registro sugere que as consequências no arquipélago podem ser significativas.

O calor elevado da água não representa apenas desconforto térmico para os animais. Ele altera fundamentalmente a produtividade dos ecossistemas marinhos, reduzindo a disponibilidade dos recursos que sustentam toda a biodiversidade local.

Quais espécies enfrentam maior ameaça

Os pingüinos de Galápagos aparecem no topo da lista de preocupação dos conservacionistas. Essas aves, que habitam uma das poucas regiões tropicais do planeta onde sua espécie consegue sobreviver, dependem diretamente da abundância de peixes pequenos.

Outras espécies marinhas também enfrentam riscos elevados. Os piqueros de patas azuis, os petreles, os cormoranes não voadores, os albatrozes e os lobos marinhos integram o grupo de animais sob vigilância especial durante ciclos de El Niño.

As colônias de coral podem sofrer danos pelo aquecimento prolongado das águas. A pesca de atum também enfrenta alterações na distribuição e na quantidade dos recursos disponíveis, afetando tanto os ecossistemas quanto as comunidades humanas que dependem dessa atividade.

O que acontece quando o alimento não alcança

A escassez de recursos alimentares desencadeia uma reação em cadeia nas populações animais. Quando a comida não é suficiente, as colônias interrompem seus ciclos reprodutivos como resposta imediata à crise.

Os indivíduos adultos começam a se dispersar em busca de áreas com maior disponibilidade de alimento. Parte desses animais não resiste e morre por inanição. Gustavo Jiménez, cientista da Fundação Charles Darwin, adverte que esse padrão pode afetar rapidamente populações já naturalmente limitadas pelas condições particulares do arquipélago.

Se o El Niño atingir a intensidade prevista, a população de vertebrados das ilhas pode cair ao menos 20% durante o ano. Essa estimativa de Jiménez engloba espécies cuja permanência depende de um equilíbrio estreito entre correntes oceânicas, produtividade marinha e condições climáticas de cada ilha.

O precedente histórico de 1998 e seus efeitos duradouros

O episódio de El Niño registrado em 1998 oferece uma referência concreta para compreender o alcance de um evento intenso. Aquele ciclo foi um dos mais poderosos já documentados e deixou marcas profundas na fauna das Galápagos.

A população de pingüinos do arquipélago, que contava com 1.300 indivíduos antes do fenômeno, foi reduzida a apenas 400 exemplares. Dados da Fundação Charles Darwin mostram que a espécie perdeu cerca de 70% de seus membros naquele período.

Essa redução drástica transformou os pingüinos em um dos principais indicadores da saúde ambiental do arquipélago. Sua abundância permite observar, de forma visível, processos que começam com organismos microscópicos. A variação em suas colônias não responde a um fator isolado, mas reflete a alteração completa de uma rede alimentar. As mudanças na quantidade de aves, mamíferos e peixes oferecem sinais sobre a profundidade do impacto do El Niño no conjunto do ecossistema marinho.

Ameaça terrestre: como as chuvas favorecem plantas invasoras

Em terra firme, o risco assume características diferentes. As precipitações intensas previstas durante o fenômeno podem modificar a paisagem das ilhas e acelerar o avanço de espécies vegetais introduzidas.

A cientista Heinke Jager, da Fundação Charles Darwin, alertou que os três últimos remanentes de florestas de Scalesia podem ficar expostos a risco de desaparecimento. Esses bosques constituem um dos ambientes vegetais mais singulares do arquipélago.

A Scalesia, gênero relacionado às margaridas, forma comunidades de altitude que oferecem abrigo e sustento a diversas espécies. A pressão sobre esses últimos remanentes se intensifica quando as chuvas aceleram o desenvolvimento de plantas trazidas de outras regiões.

Opuntias e o risco de perda de habitats costeiros

As opuntias, cactáceas que crescem próximas à costa, também se encontram ameaçadas. Essas plantas existem exclusivamente nas Galápagos e sustentam comunidades de insetos, aves e vegetação de menor porte.

A perda de suas populações teria efeitos que vão além do desaparecimento de uma espécie vegetal. Os vínculos que essas plantas mantêm com outros organismos são fundamentais para a manutenção de vários ecossistemas terrestres.

Jager explicou que as chuvas abundantes podem permitir que espécies invasoras, como as zarzamoras (amoras-silvestres), ocupem territórios de plantas nativas cujos ciclos reprodutivos são mais lentos. As invasoras conseguem ganhar terreno rapidamente quando aumentam as precipitações, uma pressão que se soma à fragilidade prévia dos habitats endêmicos.

Estratégias de conservação preparadas para o evento climático

Diante da possibilidade de impactos severos, organismos estatais, fundações e organizações não governamentais que atuam nas ilhas organizaram medidas preventivas de conservação. O plano contempla a erradicação de plantas invasoras, a recolha de sementes e a criação de viveiros.

O objetivo dessas ações é preservar material vegetal e limitar o avanço de espécies que competem por espaço, água e nutrientes. As medidas buscam proteger os remanentes de Scalesia e as populações de opuntias diante de um cenário climático que pode intensificar problemas já existentes.

Galápagos foi declarada Patrimonio Natural da Humanidade em 1978 devido às suas espécies animais e vegetais únicas. No território, o efeito de um oceano mais cálido e de precipitações mais intensas se monitora desde o plancton microscópico até as florestas de altitude. A resposta prevista inclui vigilância da fauna, proteção das plantas nativas e intervenções nos ecossistemas antes que o fenômeno alcance seu pico de intensidade.

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