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Dói na alma: o comportamento desolador de mães animais após a perda de seus bebês

Saiba se animais são capazes de sentir luto quando perdem filhotes

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Mãe babuíno limpa e carrega corpo de filhote
<i>Mãe babuíno limpa e carrega corpo de filhote</i> • Foto: Alecia J. Carter/Royal Society

A cena causa estranhamento: uma mãe chipanzé que se recusa a soltar o filhote que morreu há meses - dificultando a habilidade de locomoção e de caça. A situação não parece fazer sentido do ponto de vista evolutivo e provoca a seguinte dúvida: animais podem sentir luto?

Apesar se não haver respostas conclusivas sobre esse questionamento, a pesquisadora do Instituto de Psicologia (IP) da USP, Irene Delval têm se dedicado ao assunto. Para ela, ainda que não seja possível ter certeza se animais sentem ou não o luto, uma definição plausível para o tema é o 'Protoluto'.

“Talvez um protoluto, porque a mãe já tem sinais do corpo que ele não vai acordar. Mas ela não o larga, porque está em apego. Há uma dissonância cognitiva por conta do seu vínculo de apego – e a mãe precisa deste vínculo para cuidar apropriadamente de um indivíduo que depende totalmente dela por muito tempo”, explica.

No entanto, os pesquisadores apontam que definir que os animais consigam sentir o luto é algo questionável, já que dizer que os sinais seriam um 'sofrimento' pode ser apenas uma interpretação.

O que é luto?

O luto pode ser definido como um evento de desregulação emocional pela perda de um indivíduo com quem se tem vínculo, nos humanos o luto se manifesta via perturbações no sono, estresse, diminuição da sociabilidade, da atividade e do apetite. E esses sintomas também foram observados em primatas diante da morte, como relata o primatologista da Universidade de Kyoto, no Japão. André Gonçalves, em entrevista ao jornal da USP.

Apesar dos animais não humanos não serem capazes de assimilar o conceito de luto, para o primatologista, esse sofrimento pode ser, sim, uma das interpretações nas alterações de comportamento dos primatas.“Da mesma forma que atribuímos a capacidade de luto a crianças pequenas que ainda não têm um conceito claro da morte, também não é necessário invocar esse conceito para afirmar que outros animais podem experienciar o luto”, esclarece.

Ele ainda pondera que o apego que gera veículo entre a mãe e filhote existe entre os animais e é forte, principalmente, por questões do cuidado parental. “Embora os hormônios pós-parto provavelmente tenham menos impacto quando a mãe deixa de amamentar e retoma a ovulação, o forte vínculo mãe-cria persiste para além do mero instinto, influenciando o comportamento de carregá-la após a morte". Embora ele ressalte que essa atitude não deva ser considerado mero instinto materno.

Assim, segundo André, é esse vínculo que justifivca o comportamento da mãe após a morte do filhote. “O vínculo entre mãe e cria é tão forte que não desaparece logo depois da morte, e ficar em contato com o corpo pode ser uma forma de coping, de lidar com o sofrimento interno”, argumenta.

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Ana Luisa Sales é jornalista formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na Itatiaia desde 2022, já passou por empresas como ArcelorMittal e Record TV Minas. Atualmente, escreve para as editorias de cidades, saúde e entretenimento