Itatiaia

Como o envelhecimento reduz a tolerância ao calor e o que fazer para proteger idosos

Descubra por que pessoas mais velhas sofrem com temperaturas bem mais baixas que os jovens e quais medidas concretas podem salvar vidas durante ondas de calor

Por
Idosos não estão se desfazendo de coisas quando fazem doações
Imagem ilustrativa Pixabay

O corpo humano possui um termostato interno que mantém a temperatura corporal estável mesmo quando o ambiente esquenta. Mas esse sistema de autorregulação enfraquece com a idade de forma muito mais dramática do que a ciência imaginava.

Um estudo recente revelou que idosos atingem níveis perigosos de estresse térmico a temperaturas entre 4,7°C e 7,5°C mais baixas do que jovens adultos. Essa diferença aparentemente pequena multiplica a vulnerabilidade: quando o aquecimento global chegar a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, 290 milhões de idosos enfrentarão calor incomportável durante pelo menos um mês por ano. Para comparação, os jovens só atingirão exposição equivalente com 4°C de aquecimento.

Por que o corpo dos idosos regula pior a temperatura interna

O organismo das pessoas mais velhas perde gradualmente a capacidade de resfriar-se. Eles suam menos, seus vasos sanguíneos dilatam-se com maior lentidão e o coração precisa se esforçar mais para compensar o calor externo.

Essa combinação de fatores reduz significativamente a margem de segurança antes que o corpo deixe de conseguir manter a temperatura interna estável. O que para um jovem representa desconforto pode significar risco real de saúde para quem tem 60 anos ou mais.

A descoberta corrige uma lacuna grave: quase todos os estudos anteriores sobre tolerância humana ao calor foram construídos a partir de experimentos com jovens adultos saudáveis, e depois aplicados indiscriminadamente a toda a população, dos 15 aos 100 anos.

O que mudou na ciência do calor extremo

Pesquisadores cruzaram dados de tolerância térmica obtidos em câmaras climáticas para três grupos etários distintos: jovens adultos entre 15 e 39 anos, adultos de meia-idade de 40 a 59 anos e idosos com 60 ou mais anos.

Esses limites reais foram combinados com 14 modelos climáticos e projeções populacionais estratificadas por idade, cobrindo cenários entre 1°C e 4°C de aquecimento acima dos níveis pré-industriais.

Segundo Qinqin Kong, autor principal do estudo e pesquisador da Universidade de Stanford, o calor intolerável "afetará muito mais pessoas, em regiões mais extensas e durante períodos mais prolongados" do que se acreditava. Em alguns casos, o número de pessoas expostas será oito vezes superior às estimativas anteriores.

Quanto aquecimento é preciso para colocar bilhões em risco

Cada grau adicional de aquecimento global acrescenta, em média, mais mil milhões de pessoas à lista das que enfrentam pelo menos 180 horas anuais de calor incompatível com o equilíbrio térmico do corpo. Isso equivale a cerca de um mês de exposição, assumindo seis horas diárias de calor extremo.

Aos 3°C de aquecimento, essa condição atinge 2,03 mil milhões de pessoas em todo o mundo. Aos 4°C, salta para três mil milhões, mais de um terço da população global com 15 ou mais anos.

O cenário de 1,5°C já não é hipótese distante. Em 2024, a temperatura média anual global ultrapassou pela primeira vez esse limiar num único ano. Os investigadores estimam que a fasquia será atravessada com regularidade a partir de 2030.

Onde a vulnerabilidade ao calor se cruza com a pobreza

O estudo identificou 13 países onde, sob 3°C de aquecimento, pelo menos dez milhões de pessoas idosas ou 80% da população idosa estarão expostos ao calor extremo, num contexto de taxas de pobreza superiores a 50%.

Índia, Paquistão, Bangladesh, Myanmar e Níger destacam-se por ultrapassarem simultaneamente os dois critérios: número absoluto elevado de pessoas afetadas e alta proporção da população idosa em risco.

O calor cada vez mais intenso e persistente levanta sérias preocupações quanto à habitabilidade de longo prazo de partes dos trópicos e subtrópicos, especialmente para os idosos que aí vivem.

Como a deslocação forçada pode se tornar realidade climática

O calor extremo não fica contido nos efeitos diretos sobre a saúde. Os autores avisam que este cenário poderá impulsionar cada vez mais a deslocação interna e a migração climática transfronteiriça.

Populações inteiras em zonas de alta vulnerabilidade poderão ver-se forçadas a migrar para regiões mais frias ou a mudar radicalmente hábitos de vida. Passar a viver com ar-condicionado durante grande parte do ano pressiona redes elétricas já sobrecarregadas.

Esses movimentos populacionais trazem novos desafios políticos e humanitários que os países precisarão enfrentar nas próximas décadas.

Infraestrutura verde e ventilação urbana como primeira defesa

Os países mais expostos precisam de planos de emergência específicos para o calor. Os pesquisadores defendem expandir a infraestrutura verde e melhorar a ventilação urbana como medidas prioritárias.

Reduzir as emissões de calor de origem humana nas cidades também faz parte da solução. Edifícios, veículos e indústrias contribuem para elevar ainda mais a temperatura local, criando ilhas de calor urbanas que agravam o problema.

O acesso ao arrefecimento é especialmente crítico porque a maioria das mortes ligadas ao calor entre pessoas idosas acontece dentro de casa, não na rua.

Sistemas de alerta ajustados para quem está em maior risco

Nem tudo se resolve com infraestrutura física: também fazem falta sistemas de alerta e informação ajustados a quem está em maior risco.

Segundo Qinqin Kong, "o objetivo não é simplesmente avisar as pessoas de que está calor". O fundamental é "assegurar que quem está em maior risco sabe quando agir e tem um lugar seguro para onde ir".

É preciso construir cidades mais resistentes ao calor e garantir redes elétricas fiáveis que suportem a demanda crescente por refrigeração sem colapsar.

Por que travar emissões continua sendo a estratégia mais eficaz

Os autores do estudo sublinham que travar as emissões continua a ser o instrumento mais eficaz para proteger as gerações futuras de uma exposição prolongada e ininterrupta ao calor extremo.

As medidas de adaptação são essenciais para salvar vidas no curto prazo, mas não substituem a necessidade urgente de reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Cada décimo de grau de aquecimento evitado representa milhões de pessoas poupadas da exposição perigosa ao calor, especialmente entre os grupos mais vulneráveis, como os idosos.

Por

A Rádio de Minas. Tudo sobre o futebol mineiro, política, economia e informações de todo o Estado. A Itatiaia dá notícia de tudo.

 

 

Belo Horizonte