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Com falta de mão de obra, construtoras em país europeu disputam trabalhadores

Empresas oferecem salários mais altos e benefícios como carros para reter profissionais qualificados diante da escassez de trabalhadores na construção civil

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Lisboa, em Portugal
Lisboa, em Portugal • Guilherme Marques/Pexels

Wagner Vilanova nunca imaginou que seria disputado por empresas como se estivesse em um leilão. O paraense de 29 anos, eletricista em grandes obras, recebe propostas de trabalho com frequência e vê sua empresa atual cobrir todas as ofertas com benefícios extras.

A experiência dele ilustra uma realidade crescente em Portugal: a escassez de mão de obra na construção civil transformou o mercado de trabalho. Profissionais qualificados estão negociando melhores condições enquanto empresas enfrentam dificuldades para preencher vagas e cumprir prazos de obras.

Por que faltam trabalhadores na construção civil portuguesa

A escassez atinge todas as especialidades da construção, de pedreiros a eletricistas e pintores. Pesquisa da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas de Portugal revela que a maioria das empresas considera a falta de mão de obra o principal problema do setor.

O déficit chega a pelo menos 80 mil trabalhadores. Esse número representa a diferença entre a demanda atual das construtoras e os profissionais disponíveis no mercado português.

O aperto nas regras migratórias de Portugal agravou o quadro recentemente. Trabalhadores que planejavam emigrar para o país desistiram diante das dificuldades burocráticas, enquanto outros já instalados migraram para Espanha e França em busca de tratamento mais favorável.

Como empresas estão competindo por profissionais

As construtoras adotaram estratégias agressivas para atrair e reter trabalhadores. Wagner Vilanova ganhou um carro da empresa e teve todos os custos de deslocamento assumidos quando decidiu morar a 100 quilômetros do trabalho, próximo a Caldas da Rainha.

Os salários subiram de forma significativa. André Mendonça, pintor especializado em acabamento, relata que pode receber entre 2.500 e 3 mil euros por mês, dependendo da obra. João Paulo Costa, também pintor, confirma que valores que giravam em torno de 1.500 euros mensais agora chegam a 2.500 ou 3 mil euros.

As ofertas de trabalho chegam com frequência aos profissionais mais qualificados. Costa destaca que construtoras fazem propostas assim que identificam trabalhadores com melhor desempenho, especialmente quando precisam cumprir prazos apertados.

Brasileiros reconhecidos no setor

Em algumas construtoras, como a empresa onde Wagner Vilanova trabalha, a maioria dos profissionais são brasileiros. Vilanova conta que, na empresa onde atua, apenas dois profissionais são portugueses entre todos os contratados.

Os brasileiros conquistaram reconhecimento pela qualidade do trabalho. André Mendonça, recifense em Portugal desde 2018, ressalta que os bons profissionais têm seu valor reconhecido pelas empresas através dos salários mais altos.

João Paulo Costa enfatiza que profissionais brasileiros da área da construção despertam o interesse das empresas justamente por essa reputação consolidada no mercado português.

Dificuldades burocráticas impedem contratação de trabalhadores

A Agência para a Integração, Migrações e Asilo enfrenta críticas pela demora na regularização de documentos. Charles Ruas, CEO do Ruas Group, conta que consegue trazer trabalhadores do Brasil dentro das regras do governo, mas muitos desistem de Portugal diante das dificuldades para obter autorização de residência.

Os que não retornam ao Brasil acabam indo para Espanha, onde as regras de imigração são mais favoráveis, ou para França, onde os salários são maiores. A demora na emissão de documentos impede que profissionais assumam suas funções imediatamente.

Thiago Melo, engenheiro civil, exemplifica o problema com um caso concreto. A contratação de um encarregado de obras em Moçambique se arrasta há mais de um mês, apesar de toda a documentação ter sido enviada ao consulado português. O profissional deveria estar em Portugal desde o fim de julho, mas a empresa já acredita que ele não estará no país nem no fim de agosto.

Impacto econômico da escassez de profissionais

As obras estão sendo atrasadas em todo o país. Charles Ruas alerta que mesmo as grandes empreiteiras portuguesas não conseguem cumprir cronogramas, com projetos sendo empurrados para o próximo ano.

Quem compra um terreno e quer começar as obras precisa esperar no mínimo seis meses para ter trabalhadores disponíveis. Esse atraso representa custos adicionais para as empresas e pressão inflacionária sobre o setor da construção.

CEO do Ruas Group relata que construtores já brincam entre si dizendo que não ficam felizes em manter bons colaboradores, mas felizes se aparecerem profissionais, mesmo que não sejam tão qualificados. Segundo ele, esse tipo de comentário revela que um dos setores que sustentam a economia portuguesa está sob risco.

Thiago Machado, fundador da Nelson Obras e Reformas, questiona até que ponto o governo português vai deixar esse quadro perdurar. Para ele, perder colaboradores com frequência por conta da disputa salarial compromete a capacidade de investir.

Grandes investimentos em infraestrutura podem não sair do papel

O governo português anunciou investimentos em infraestrutura que podem chegar a 50 bilhões de euros nos próximos anos. Os projetos incluem construção do novo aeroporto de Lisboa, um túnel ligando a capital ao outro lado do rio Tejo e trens de alta velocidade.

Thiago Melo questiona como tocar esses investimentos sem mão de obra qualificada e bem treinada. As grandes construtoras terão de subcontratar trabalhadores por meio de outras empresas num contexto de escassez generalizada.

Carlos César de Lima, acionista da Construtora CinzelMarco, ouve relatos de pessoas assustadas com o aperto nas regras migratórias. Esse medo reduz o fluxo de trabalhadores estrangeiros para Portugal, agravando um problema que já compromete o setor.

O sistema de Via Verde, criado pelo governo para facilitar a contratação de profissionais no exterior, não está conseguindo reverter o quadro de falta de trabalhadores.

Tempo de formação adiciona complexidade ao problema

Preparar um profissional para grandes obras requer tempo significativo. Wagner Vilanova destaca que a área de eletricidade em empreendimentos de grande porte exige capacitação específica, especialmente no caso dos brasileiros.

As diferenças nas normas técnicas entre Brasil e Portugal tornam necessário um período de adaptação e treinamento. Mesmo quando conseguem atrair profissionais de fora, as empresas enfrentam meses até que esses trabalhadores estejam plenamente qualificados para as exigências locais.

Esse fator agrava ainda mais a escassez, pois não basta encontrar trabalhadores disponíveis. É preciso investir tempo e recursos na formação adequada antes que possam contribuir plenamente para as obras.

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