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Cecílias do Brasil: a descoberta de Maria e o desafio de estudar anfíbios invisíveis

Descubra como genética e tomografia revelam cecílias ocultas da Mata Atlântica; saiba o desafio de estudar anfíbios fossoriais invisíveis

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As cecílias são vertebrados, ou seja, possuem esqueleto • Miguel Relvas Ugalde

Maria fazia parte de um grupo de 11 pessoas escravizadas que, entre 1861 e 1874, plantaram mais de 100 mil árvores na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Esse trabalho viria a fazer parte do Parque Nacional da Tijuca, a maior floresta urbana replantada do mundo. Quase 150 anos depois, seu nome batiza uma nova espécie de anfíbio descoberta exatamente naquela região: a Siphonops maria.

A homenagem vai além de uma pessoa específica. Maria é o nome feminino mais popular do Brasil, com mais de 12 milhões de brasileiras. A escolha reflete uma estratégia deliberada dos pesquisadores: popularizar um animal que vive escondido sob a terra e que até especialistas raramente encontram no campo. Luís Felipe Toledo, professor do Instituto de Biologia da Unicamp, viu cecílias apenas uma vez em toda sua carreira de campo.

Esse artigo explica como cientistas brasileiros usam ferramentas genéticas e de tomografia para revelar a diversidade oculta desses anfíbios, os desafios metodológicos enfrentados e o problema global das coleções científicas retidas no exterior.

O que são cecílias e por que são tão difíceis de estudar

Cecílias são anfíbios de hábitos fossoriais, ou seja, passam a maior parte da vida debaixo da terra. O nome deriva do latim caecus, que significa cego, em referência aos olhos reduzidos que limitam drasticamente sua visão.

Esses animais compensam a visão limitada com órgãos sensoriais especializados na cabeça que percebem o ambiente subterrâneo. A vida oculta torna os encontros raros mesmo para pesquisadores experientes.

As características morfológicas externas são muito semelhantes entre as espécies. Essa uniformidade visual dificulta a diferenciação a olho nu e explica por que muitas espécies permanecem não descritas ou confundidas umas com as outras.

Como a genética e a tomografia revelam espécies ocultas

Ferramentas genéticas têm esclarecido a evolução das cecílias nos últimos anos. O sequenciamento de genes específicos permite diferenciar linhagens que parecem idênticas externamente.

A microtomografia computadorizada de alta resolução complementa a análise genética. O exame do esqueleto revela características sutis do crânio que distinguem espécies próximas.

A combinação de dados genéticos, morfologia externa e estrutura óssea oferece um retrato completo. Esse tipo de trabalho, no entanto, depende da reunião de vários exemplares para comparação, o que pode levar anos.

A trajetória da descoberta de Siphonops maria

O holótipo da nova espécie foi coletado em 2015 no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro. Inicialmente, pesquisadores acreditavam tratar-se da espécie Siphonops hardyi.

Quando Adriano Oliveira Maciel, do Museu Paraense Emilio Goeldi, recebeu o exemplar, notou diferenças importantes. O número de anéis corporais e a dentição divergiam do padrão conhecido para aquela espécie.

O sequenciamento genético confirmou tratar-se de uma linhagem diferente. Em 2018 e 2022, Maciel visitou o Museu de História Natural de Paris e o Museu Nacional no Rio de Janeiro para analisar outras cecílias do mesmo gênero.

Foi nessas coleções que ele encontrou exemplares identificados como S. hardyi, mas que apresentavam as características de S. maria. Um deles havia sido coletado em 1902 na Serra dos Órgãos, mais de um século antes da descrição formal da nova espécie.

Reorganização taxonômica e a eliminação do gênero Luetkenotyphlus

O trabalho de comparação foi além de descrever uma nova espécie. Ao analisar outros gêneros da mesma família, os pesquisadores observaram que o gênero Luetkenotyphlus não se distinguia de Siphonops.

O estudo coloca Luetkenotyphlus como sinônimo de Siphonops. As três espécies que pertenciam ao primeiro gênero passam a se chamar Siphonops brasiliensis, S. fredi e S. insulanus.

Essa reorganização taxonômica demonstra como o conhecimento sobre a diversidade de cecílias ainda está em construção. Muitas relações evolutivas permanecem mal compreendidas devido à dificuldade de obter exemplares e dados comparativos.

Duas possíveis novas espécies aguardam confirmação

Ao comparar S. maria com outras cecílias, os pesquisadores encontraram duas linhagens que se assemelhavam a S. hardyi e que podem representar espécies ainda não descritas.

Uma delas foi detectada a partir de exemplares coletados em Ubatuba, no litoral paulista. A outra apareceu nos municípios de Castelo e Domingos Martins, no Espírito Santo.

A confirmação dessas novas espécies enfrenta um obstáculo significativo. Não há amostras disponíveis de Porto Real, localidade do holótipo de S. hardyi, nem o próprio holótipo, para confrontar com os exemplares de Ubatuba e Domingos Martins.

O problema das coleções científicas retidas no exterior

Pelo menos dois espécimes de Porto Real estão depositados no Museu de História Natural de Londres, no Reino Unido. Esses exemplares foram coletados no Brasil no século 19 e levados para a Inglaterra.

Os pesquisadores brasileiros pediram autorização para retirar um pequeno pedaço de tecido que pudesse ser sequenciado por técnicas modernas que extraem DNA de amostras degradadas. O museu não concedeu autorização.

Segundo Luís Felipe Toledo, "pedimos para retirar um pequeno pedaço de tecido que pudesse ser sequenciado por técnicas modernas que extraem DNA de amostras degradadas, mas o museu não deu autorização."

A coleta de material científico em países do Sul Global para armazenamento em instituições do Norte começou no período colonial e continua a ocorrer. A prática dificulta aos países em desenvolvimento conhecer sua própria biodiversidade.

Nos últimos anos, cientistas do Sul Global têm proposto formas de mitigar ou sanar o problema. As soluções incluem a facilitação do acesso a coleções e até mesmo a repatriação dos exemplares levados.

Caminhos alternativos para confirmar as novas linhagens

Outra forma de confirmar se as linhagens de Ubatuba e do Espírito Santo são novas espécies é buscar e analisar mais exemplares com as mesmas características em outros pontos da Mata Atlântica.

Segundo Adriano Maciel, "isso pode levar mais alguns anos, mas seguimos buscando." A estratégia depende de expedições de campo bem-sucedidas em ambientes onde esses animais fossoriais são naturalmente raros.

A paciência científica é necessária. O trabalho com cecílias exige a acumulação gradual de espécimes ao longo de anos ou décadas para permitir comparações estatisticamente robustas.

A distribuição geográfica de Siphonops maria

Ao que tudo indica, Siphonops maria é exclusiva do Estado do Rio de Janeiro. A espécie foi encontrada no Parque Nacional da Serra dos Órgãos e em exemplares históricos da mesma região.

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