Caranguejo-azul invadiu lagoas italianas e dizimou 93% moluscos do Delta do Pó
Entenda como o aquecimento global criou condições ideais para a explosão populacional do crustáceo e como pescadores estão se adaptando à transformação ecológica

Oscarina Soncin arrastava o barco pela lagoa de Scardovari enquanto o sol nascia sobre o Delta do Pó, no nordeste da Itália. A água gelada batia em seus joelhos enquanto ela raspava o fundo com um ancinho de metal, buscando as famosas amêijoas de Manila que sustentaram sua família por mais de duas décadas.
Mas em 2023, algo mudou. As conchas chegavam partidas, vazias. Um invasor silencioso havia transformado completamente o ecossistema: o caranguejo-azul-do-Atlântico, um crustáceo nativo da costa leste dos Estados Unidos, encontrou nas lagoas italianas um paraíso para se reproduzir e devorar as amêijoas que garantiam o sustento de centenas de famílias.
A invasão que devastou a produção de amêijoas
O caranguejo-azul-do-Atlântico (Callinectes sapidus) estava presente no Delta do Pó há décadas, mas sua população explodiu dramaticamente a partir de 2023. Entre 2022 e 2024, as capturas do crustáceo aumentaram 900% na região, saltando de aproximadamente 200 toneladas para 2.000 toneladas.
O impacto sobre as amêijoas foi devastador. Na lagoa de Scardovari, as capturas anuais despencaram 93%, passando de 4.800 toneladas para apenas 340 toneladas. Na região de Goro, a produção caiu 70%, atingindo uma média de 4.000 toneladas em 2024 — bem abaixo da média da década anterior.
Mais de 600 pescadores abandonaram o consórcio local, representando 40% dos membros. Muitos devolveram suas licenças de pesca e precisaram mudar completamente de profissão.
Como o aquecimento global criou condições perfeitas para o caranguejo
O Delta do Pó sempre foi um ambiente rico para a vida marinha. O rio mais longo da Itália despeja grande quantidade de nutrientes nas lagoas, tanto de fontes naturais quanto de atividades agrícolas. As marés do Mar Adriático reabastecem continuamente o oxigênio e trazem água salgada essencial para a reprodução dos caranguejos.
Mas foram as mudanças climáticas que desencadearam a explosão populacional. Em 2022, a seca mais grave dos últimos dois séculos no norte da Itália permitiu que a água salgada do mar subisse o rio Pó, criando condições ideais para a reprodução das fêmeas e o desenvolvimento dos ovos.
No ano seguinte, chuvas intensas e inundações espalharam as larvas e juvenis por todo o delta. Além disso, o aquecimento das águas do Mediterrâneo nas últimas décadas ampliou o período reprodutivo dos caranguejos, que agora conseguem se reproduzir várias vezes em uma única temporada. Os invernos mais amenos também reduziram drasticamente as mortes por frio.
Por que os caranguejos encontraram um paraíso nas lagoas
Segundo Massimiliano Costa, diretor do Parque do Delta do Pó, o ambiente oferece tudo que os caranguejos precisam para prosperar. O excedente de nutrientes proporciona abundância de alimento, incluindo as próprias amêijoas.
O fundo lamacento das lagoas permite que os caranguejos se enterrem para se esconder e resistir às temperaturas de inverno. Mais importante: os caranguejos não têm predadores naturais na região.
"A introdução de ovos e larvas através do transporte marítimo provavelmente tem ocorrido de forma contínua ao longo de várias décadas", explica Viviana Carli, técnica da equipa de campo do Parque. "O que parece ter mudado foram as condições ambientais, que se tornaram muito mais favoráveis para a espécie, permitindo que a população aumentasse drasticamente."
Como uma fêmea de caranguejo-azul pode produzir milhões de ovos, a explosão populacional era praticamente inevitável neste novo cenário climático.
A batalha perdida contra a invasão biológica
Os cientistas são categóricos: será difícil, se não impossível, eliminar os caranguejos-azuis das lagoas italianas. "Destróem completamente as explorações de amêijoas. Comem todas as sementes, até mesmo as amêijoas-de-Manila maiores", afirma Mattias Gaglio, ecologista da Universidade de Ferrara. "Perturbam completamente a rede ecológica."
O governo italiano investiu pelo menos 10 milhões de euros em esforços para capturar e eliminar os caranguejos. Os fundos também apoiam a construção de cercas e redes mais resistentes para proteger as amêijoas sobreviventes.
As autoridades chegaram a incentivar o consumo dos caranguejos — considerados uma iguaria nos Estados Unidos, onde sua carne doce é muito apreciada. Mas os italianos demonstram relutância em consumi-los, associando o crustáceo aos prejuízos econômicos locais. Além disso, limpar e cozinhar caranguejos exige muito mais trabalho que as amêijoas.
"Quaisquer esforços envidados para controlar a população têm-se revelado, de certa forma, inúteis", reconhece Giuseppe Castaldelli, professor de ecologia na Universidade de Ferrara. "Ainda assim, não sabemos o que fazer com o caranguejo."
Da pesca de amêijoas ao trabalho em fábricas
Para Oscarina Soncin e sua parceira de pesca Giovanna Pizzo, adaptar-se aos caranguejos significou abandonar completamente a água. Durante mais de duas décadas, a dupla desafiou a ideia de que mulheres não eram adequadas para o trabalho exigente da pesca, conquistando atenção internacional e rendimento estável.
Quando começaram a encontrar apenas conchas vazias em 2023, precisavam permanecer mais tempo no mar para atingir a quota — mas nem sempre conseguiam. "Nunca imaginei que o caranguejo-azul pudesse estabelecer-se no Delta do Pó, tendo em conta o nosso clima", conta Pizzo. "Isto faz-me pensar que as estações do ano já não são o que eram."
Em 2024, Soncin se reformou da pesca e passou a fazer limpezas domésticas. O salário é semelhante, mas o trabalho não tem o mesmo significado das décadas na natureza. Pizzo também deixou a pesca após 34 anos e agora trabalha em uma fábrica de transformação de peixe.
"O que mais sinto falta é de trabalhar em estreita ligação com a natureza e de desfrutar da liberdade que o nosso trabalho na água nos proporcionava", revela Soncin.
Novas estratégias econômicas com o caranguejo invasor
Alguns pescadores escolheram se adaptar em vez de abandonar completamente a atividade. Angela Franceschetti, de 28 anos, representa uma nova geração que aprendeu a trabalhar com o que a água oferece.
Quando a pesca de amêijoas deixou de ser rentável em outubro de 2023, ela e seu companheiro Marco Finotti ampliaram as capturas para incluir o caranguejo-azul. Agora o dia de trabalho é mais longo e complexo: ela precisa consultar os horários de maré alta e baixa, verificar cerca de 80 armadilhas (o que leva três a quatro horas), e ainda cuidar das explorações de amêijoas e mexilhões.
Recentemente, uma empresa do Sri Lanka chamada Taprobane Seafoods estabeleceu parceria com os pescadores locais através do consórcio. Os pescadores italianos capturam os caranguejos, enquanto a empresa contribui com expertise em processamento e comercialização para mercados internacionais, incluindo os Estados Unidos.
"A parceria tem como objetivo transformar uma espécie invasora que afetou gravemente a cultura de amêijoas numa nova oportunidade económica para os pescadores e trabalhadores locais", explica Paolo Mancin, presidente do Consorzio Cooperative Pescatori del Polesine.
Mas nenhuma dessas táticas conseguiu conter totalmente os caranguejos invasores.
O contexto histórico da dependência das amêijoas
A amêijoa-de-Manila (Ruditapes philippinarum), nativa do noroeste do Pacífico, foi introduzida na Itália no início da década de 1980 para compensar o declínio das espécies nativas. A estratégia funcionou tão bem que vinculou os meios de subsistência locais a uma única espécie não nativa.
No auge da produção, a indústria gerava até 55.000 toneladas métricas por ano. A Itália tornou-se o segundo maior produtor mundial de amêijoas-de-Manila, ficando atrás apenas da China. As lagoas do Delta do Pó estavam no centro dessa indústria.
As amêijoas-de-Manila fazem parte integrante da cozinha italiana, seja salteadas com massa ou servidas cozidas a vapor. Sua importância cultural e econômica transformou comunidades inteiras, com famílias inteiras dedicando gerações à pesca.
Lições sobre adaptação em tempos de mudança climática
"Através do meu trabalho como pescador, percebi que as alterações climáticas não são apenas algo que afeta o ambiente; afetam também diretamente o meu sustento", reflete Angela Franceschetti. "As alterações na temperatura, nos padrões meteorológicos e nas condições marítimas influenciam o funcionamento do ecossistema, e essas alterações têm, inevitavelmente, um impacto no trabalho daqueles que dele dependem diariamente."
O caso do Delta do Pó ilustra como espécies invasoras podem se beneficiar das mudanças climáticas para colonizar novos ambientes. O caranguejo-azul estava presente há décadas, mas só encontrou condições para explosão populacional quando o aquecimento global alterou temperatura da água, padrões de seca e invernos.
A história também revela a vulnerabilidade de economias baseadas em uma única espécie — ainda mais quando essa espécie é não-nativa. A diversificação econômica e a preparação para transformações ecológicas tornam-se essenciais em um planeta em aquecimento.
Para os pescadores, a escolha está entre adaptar-se completamente às novas condições ou buscar outros meios de vida. Ambos os caminhos exigem resiliência diante de uma natureza que já não funciona como antes.
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