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Biblioteca comunitária resgata autoestima de crianças negras em São Paulo

Conheça a Contos de Fada Periférico, biblioteca que usa literatura antirracista para transformação; saiba como acessar

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Biblioteca (imagem ilustrativa) • PBH / Divulgação

Julie Lua passou a infância achando que não pertencia. Na escola de classe média, onde era uma das poucas crianças negras, lembra-se de um professor apostando com ela: "Você colou. Terminou a prova muito rápido, tirou 10. Colou de alguém". A biblioteca virou seu refúgio, o único lugar onde ninguém questionava sua inteligência.

Quase três décadas depois, em 2021, um ano após o início da pandemia, Lua entregou ao bairro Caiçara, em Praia Grande-SP, a Biblioteca Comunitária Contos de Fada Periférico. Um espaço com mais de 1.800 títulos, acervo feminista e dedicado à educação antirracista. O objetivo: garantir que outras crianças não precisem esperar tanto tempo para se reconhecerem como inteligentes e capazes.

Por que a representação na literatura infantil transforma crianças

Lua cresceu na época em que todas as princesas da Disney eram loiras. A Branca de Neve tinha cabelo preto, mas a pele era branca. As únicas personagens com quem conseguia alguma identificação eram Jasmine e Ariel, por motivos diferentes da cor da pele.

"É muito difícil quando você lê algo que não retrata o seu universo, pois parece que o seu mundo não existe", explica. Foi esse vazio que a levou a escrever. Para contar o que seus olhos viam para outros olhos iguais aos dela.

A falta de personagens negros nos livros infantis contribui para que crianças periféricas sintam que a literatura não é para elas. Que o conhecimento não lhes pertence. Lua passou a vida inteira sendo desafiada a provar sua inteligência, questionada sobre suas conquistas.

Como nasceu a biblioteca que começou num quartinho

A pandemia de 2020 interrompeu todo o trabalho comunitário de Lua. As festas de Dia das Crianças para 400 pessoas, a tia da pintura, tudo precisou parar. Ela havia acabado de concluir um curso sobre elaboração de projetos culturais e se perguntou como colocaria em prática o aprendizado.

Nos primeiros meses de isolamento, as pessoas começaram a fazer faxina em casa e doar livros. Sabiam que Lua lia muito, desde criança. As doações começaram a chegar. A biblioteca nasceu primeiro em um dos quartinhos, depois ganhou a casa toda.

Em 2021, um ano após o início da pandemia, a Contos de Fada Periférico estava pronta. O nome não é à toa: traz a ideia de contos de fada, mas situados na realidade periférica. Hoje o espaço é referência na Baixada Santista, com acervo que privilegia autoras mulheres e literatura antirracista.

O método da biblioteca viva que interage com a comunidade

Biblioteca não é lugar de silêncio absoluto e corpos imóveis. Lua rejeita o modelo tradicional de espaços cheios de regras rígidas. Para ela, biblioteca comunitária é coisa viva, que precisa interagir com quem passa pela porta.

"Biblioteca é uma coisa viva. Tudo o que você vai lendo e vendo aponta que precisa ter interação com a comunidade. Nosso trabalho tem a ver com saúde", defende. E saúde não é só ausência de doenças, mas cultivo do bem viver. As histórias e a cultura têm tudo a ver com isso.

O acervo atende todos os públicos. Tem romance para quem busca respiro e fantasia depois de um dia pesado. Tem títulos que interessam jovens engajados, como obras sobre Panteras Negras e publicações da Angela Davis. Tem livros que fazem refletir para quem está em outro momento da vida.

Lua lê primeiro a pessoa que pede indicação. Tenta entender onde ela está emocionalmente antes de sugerir qualquer título. "A pior coisa é você pegar um livro e se sentir burro por não dar conta de ler. A leitura já vai para um lugar do fracasso", explica.

A transformação de Francisca e o poder de se reconhecer escritora

Francisca tinha menos de dez anos quando Lua a conheceu na Vila Esperança, em Santos. A menina gostava de ler e escrever. Lua se identificou na hora e pensou: vou fazer um livro dela.

Algumas semanas depois, Francisca lançava "O Baú de Histórias da Francisca". Um livro artesanal, simples, mas que mudou muita coisa para a criança e a família. A escola onde estudava soube do livro. Uma professora chamou a pequena escritora para lançar as palavras na sala e incentivou os colegas a lerem e escreverem mais.

"Porque na minha cabeça não é sobre a Francisca ser uma autora. Até porque ela é uma criança, ela não tem que ter uma profissão agora; ela tem que brincar, né? Ela tem que viver, estudar", reflete Lua. "Mas é sobre ela poder se reconhecer como escritora".

É sobre incentivo e afirmação. A maioria das crianças pretas da geração de Lua ouviu que era burra. Francisca não. Ela ouviu que era inteligente. Ter os sonhos apoiados, finaliza Lua, é transformador.

Acessibilidade do livro e democratização da cultura

Para Lua, o livro precisa ser acessível. Não pode ser pensado como objeto sagrado e intocável. Precisa estar disponível para a criança manusear, mexer, interagir.

Essa visão vem da experiência oposta. Ela conheceu bibliotecas na infância e adolescência que eram lugares de muito silêncio, de corpos quase imóveis, cheias de regras. Bem diferentes do que construiu.

Em breve, qualquer pessoa de qualquer lugar poderá acessar todo o acervo da Contos de Fada Periférico por meio de um aplicativo em fase de testes. Sustentação financeira é um dos maiores desafios, mas Lua entende que o trabalho é potente demais para parar.

O espaço nasceu de doações e segue dependendo delas. Mas o impacto vai além dos números. É sobre criar uma geração de crianças periféricas que não precisem provar sua inteligência o tempo todo.

Da criança adotada que não se encaixava à criadora de pontes

Julie Lua foi adotada. Sentia que não se enquadrava na família que a acolheu nem no colégio de classe média onde estudava, com maioria de pessoas brancas. Foi aos poucos que a biblioteca daquela escola virou seu lugar favorito, seu lugar mais seguro.

"Dentro do que eu podia fazer para criar um mundo para mim, o livro era esse mundo. Sempre foi assim. Quando estou lendo, ninguém fala comigo", conta. Era proteção de outras crianças que acreditavam que aquele espaço não era bem o lugar dela. E de adultos que, em vez de incentivá-la, fizeram o contrário.

A autoestima intelectual nasceu só quase três décadas depois. A biblioteca é uma entre suas estratégias para que situações assim aconteçam cada vez menos com outras crianças. Até que um dia não aconteça com mais ninguém.

Lua saiu de onde morava, construiu a vida, tornou-se mãe solo, fez muitas coisas e chegou a Praia Grande. Escritora, poeta, mãe solo e mulher preta periférica. Ela se apresenta assim e sabe bem o poder das palavras. Passou a vida trabalhando pelo direito de nomear a si mesma como bem entendesse. Depois, passou a trabalhar para que outras pessoas pudessem fazer o mesmo.

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