Granito do Espírito Santo vira bateria térmica e gera energia em Gaza
Descubra como o pó de granito capixaba se transforma em bateria térmica que armazena calor a 915°C e reduz combustível em 90%.

No Noroeste do Espírito Santo, o pó preto que sobra do corte e polimento de granitos como o São Gabriel ganhava um único destino: o descarte. Esse resíduo, considerado um problema ambiental da indústria de rochas ornamentais, hoje alimenta baterias térmicas capazes de armazenar calor a 915 graus celsius e gerar energia elétrica.
A tecnologia israelense bGen Zero transforma esse material em pastilhas que retêm calor com perda inferior a 1% em 24 horas. O sistema já opera em usinas solares, hospitais e fábricas, incluindo uma planta em Chapecó que reduziu o consumo de combustível em 90% ao substituir duas caldeiras convencionais.
O que torna o granito preto capixaba ideal para armazenamento térmico
Granitos escuros como o São Gabriel, encontrados em São Gabriel da Palha, Nova Venécia e Barra de São Francisco, possuem composição mineral que absorve e retém calor de forma excepcional. A cor escura da rocha intensifica essa capacidade natural.
O pó gerado durante o beneficiamento — corte e polimento das chapas — concentra essas propriedades térmicas. Antes considerado um passivo ambiental sem destinação adequada, o material agora serve como matéria-prima para uma solução energética.
Segundo Carlos Sena, vice-presidente do CDMEC, a bateria é produzida aproveitando exatamente esse resíduo do processamento de rochas no Brasil.
Como funciona a bateria termoacumuladora bGen Zero
A empresa israelense BrenX desenvolveu um sistema que reconstitui o pó de granito em pastilhas. Essas pastilhas são encapsuladas dentro de contêineres equipados com tubulações específicas.
O funcionamento permite diferentes formas de alimentação energética. Varetas de cobre conduzem eletricidade para aquecer as pastilhas. Tubulações adicionais permitem a passagem de vapor ou outros fluidos térmicos.
A bateria acumula calor a temperaturas próximas de 915°C. A perda térmica em períodos de 24 horas fica abaixo de 1%, tornando o sistema significativamente mais eficiente que caldeiras convencionais.
Aplicações práticas da tecnologia em diferentes países
A expansão global da tecnologia já alcança diversos setores. Em Israel, uma usina solar de 30 megawatts utiliza o sistema para auxiliar no fornecimento de energia para a região da Faixa de Gaza, território com graves problemas de infraestrutura elétrica.
O Centro Médico Wolfson, em Holon (Israel), que recebeu feridos dos conflitos recentes, também opera com a bateria térmica. Na Europa, a solução atende sistemas de aquecimento urbano, incluindo instalações na Itália e Hungria.
Nos Estados Unidos, plantas industriais de grande porte já adotaram a tecnologia para processos que demandam altas temperaturas contínuas.
Redução de 90% no consumo de combustível em fábrica brasileira
Em Chapecó, Santa Catarina, uma unidade da JBS substituiu duas caldeiras — uma de 40 toneladas e outra de 60 toneladas — por um único contêiner de 40 pés equipado com a bateria termoacumuladora.
Os resultados operacionais demonstram economia expressiva: o consumo de cavacos de madeira caiu de 300 carretas por semana para apenas 30. Isso representa redução de aproximadamente 90% do combustível anteriormente utilizado.
Conforme destacou Carlos Sena, a bateria oferece vantagens adicionais além da economia de combustível. O sistema não exige manutenção periódica nem certificação semestral, diferentemente das caldeiras tradicionais, reduzindo custos operacionais de longo prazo.
Solução para o passivo ambiental da indústria de rochas
A indústria de beneficiamento de rochas ornamentais enfrenta desafios com a destinação do pó gerado no processamento. O aproveitamento desse resíduo como matéria-prima energética cria uma alternativa sustentável com geração de renda.
Marcos Oliveira, gerente da Comil Cotaxé Mineração, afirmou que o granito preto, como o São Benedito de Ecoporanga, retém muito calor, e a destinação desse resíduo sempre foi um problema. O projeto oferece alternativa viável que transforma passivo em ativo econômico.
O valor comercial do granito preto São Gabriel varia entre R$ 200 e R$ 900 por metro quadrado, dependendo do formato de compra e acabamento. Agora, até o material descartado encontra aplicação de alto valor agregado.
A tecnologia por trás da inovação israelense
Avi Brenmiller, fundador da BrenX (anteriormente Brenmiller Energy), é ex-CEO da divisão de Energia Solar Térmica da Siemens. Ele desenvolveu sistemas de armazenamento de energia térmica utilizando rochas trituradas como meio de acumulação.
Segundo Brenmiller declarou ao site da empresa: "Estamos construindo tecnologias que podem atingir altas temperaturas no meio do deserto. Este é apenas o começo da adoção em larga escala de sistemas de energia térmica."
A reestruturação recente da companhia reflete a expansão acelerada da solução. O modelo se destaca pela capacidade de armazenar energia renovável excedente e disponibilizá-la sob demanda, resolvendo um dos principais desafios das fontes intermitentes como solar e eólica.
Vantagens econômicas e ambientais do sistema
A substituição de caldeiras a combustível por baterias termoacumuladoras gera múltiplos benefícios. A economia de combustível reduz custos operacionais e dependência de fornecedores externos de biomassa ou combustíveis fósseis.
A ausência de necessidade de manutenção frequente e certificações semestrais diminui paradas técnicas e despesas administrativas. A durabilidade do sistema e a baixíssima perda térmica garantem eficiência constante ao longo dos anos.
Ambientalmente, o reaproveitamento de resíduos industriais fecha um ciclo produtivo antes problemático. A redução drástica no consumo de combustíveis diminui emissões e pressão sobre recursos naturais, alinhando operações industriais a metas de sustentabilidade.
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