Sociedade Brasileira de Pediatria defende volta do especialista à atenção primária do SUS
Entidade alerta para a importância das consultas preventivas no acompanhamento infantil e defende ampliação do acesso a pediatras para identificar doenças precocemente

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) defende a ampliação da presença de pediatras na atenção primária à saúde do Sistema Único de Saúde (SUS). O objetivo é fortalecer o acompanhamento preventivo de crianças e adolescentes, facilitar o diagnóstico precoce de doenças e reduzir a procura por unidades de urgência e emergência em situações que poderiam ser avaliadas antecipadamente. O tema está em discussão durante o Congresso Brasileiro de Pediatria, até i 17 de outubro de 2026 no Expominas, em Belo Horizonte.
Segundo os dados apresentados na pauta, o SUS realiza, em média, menos de uma consulta de puericultura por criança ao ano. A puericultura é o acompanhamento periódico da saúde infantil, com avaliações do crescimento, do desenvolvimento, da alimentação e de outros aspectos fundamentais para a prevenção de doenças. Para o médico Fábio Guerra, coordenador da Defesa da Pediatria da Sociedade Brasileira de Pediatria, o especialista precisa voltar a integrar as equipes de atenção primária, trabalhando em conjunto com os profissionais que já atuam na rede. “A nossa proposta é somar conhecimentos para melhorar e qualificar ainda mais a assistência na atenção primária”, afirma.
Segundo Guerra, ao longo dos anos, o pediatra perdeu espaço nesse nível de atendimento em razão do modelo de organização da saúde pública brasileira. A entidade defende que o especialista participe tanto da assistência direta quanto do planejamento das ações de saúde voltadas à população infantil. “O que a gente está buscando hoje é a volta do pediatra para a atenção primária, para compor a equipe que lá hoje está e ajudar na questão do planejamento das ações de saúde, também da assistência”, explica.
Acompanhamento preventivo ajuda a identificar doenças precocemente
A presença do pediatra na atenção primária permite acompanhar a saúde da criança de forma contínua, mesmo quando não há sintomas aparentes. Esse contato periódico favorece a identificação de alterações no crescimento e no desenvolvimento, além de possibilitar orientações às famílias sobre alimentação, vacinação, saúde emocional e outros cuidados.
Guerra destaca que o olhar especializado é importante diante de problemas que afetam cada vez mais crianças e adolescentes, como a obesidade infantil e as questões relacionadas à saúde emocional. “Hoje nós temos uma situação muito grave do ponto de vista nutricional, que é a obesidade infantil e a obesidade na adolescência. Nós temos visto aí uma série de questões relacionadas ao aspecto emocional das crianças”, alerta.
O acompanhamento também pode contribuir para a identificação precoce de sinais de transtornos do neurodesenvolvimento, como o transtorno do espectro autista (TEA). Segundo o especialista, reconhecer essas alterações e orientar as famílias pode favorecer o início oportuno do acompanhamento e do tratamento.
Projeto de lei prevê pediatra para equipes de saúde da família
A ampliação do acesso ao especialista também está no centro do debate legislativo. O Projeto de Lei 4.305/2025 prevê pelo menos um pediatra para cada quatro equipes de saúde da família. A Sociedade Brasileira de Pediatria acompanha a tramitação e considera a proposta uma oportunidade para ampliar o atendimento às crianças e aos adolescentes na rede pública. “Nós temos acompanhado com muito cuidado e com muita expectativa a tramitação desse projeto. A gente espera que ele realmente consiga prosseguir, porque o que a gente busca é realmente a possibilidade do acesso ao pediatra”, afirma Guerra.
O coordenador ressalta que a organização da assistência deve considerar as diferenças entre as regiões do país. Para ele, a presença do especialista pode ser estruturada de acordo com as condições e as necessidades de cada localidade.
Consultas de rotina podem reduzir a pressão sobre as UPAs
Outro ponto destacado pela entidade é a diferença entre as consultas preventivas e os atendimentos de urgência. Enquanto a puericultura envolve consultas programadas para avaliar o crescimento e o desenvolvimento, os serviços de urgência e emergência devem priorizar situações agudas que exigem atendimento rápido. Na avaliação de Guerra, quando as famílias não encontram acesso regular ao acompanhamento pediátrico, parte da demanda acaba sendo direcionada aos pronto atendimentos. “O que a gente vê hoje, infelizmente, é que, como muitas vezes não existe a possibilidade desse atendimento, muitas vezes ele é transferido para uma situação de urgência e emergência, o que não é ideal”, afirma.
O especialista defende o fortalecimento da atenção primária para que as unidades de urgência possam concentrar esforços nos casos que realmente necessitam de atendimento imediato. “Nós precisamos qualificar o atendimento na porta de entrada, na atenção primária, para que a gente possa realmente liberar esse espaço da urgência e emergência para aqueles casos que realmente são de urgência e emergência”, conclui.
Para a Sociedade Brasileira de Pediatria, ampliar o acesso ao especialista desde os primeiros anos de vida é uma medida importante para fortalecer a prevenção, qualificar o atendimento no SUS e melhorar o cuidado oferecido a crianças e adolescentes.
Fabiano Frade é jornalista na Itatiaia e integra a equipe de Agro. Na emissora cobre também as pautas de cidades, economia, comportamento, mobilidade urbana, dentre outros temas. Já passou por várias rádios, TV's, além de agências de notícias e produtoras de conteúdo.



