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Entre o nascimento e a despedida: mãe transforma luto pela filha em livro

Mari Pompeu revisita a perda da filha Gabriela, que morreu aos 2 anos, e transforma a experiência do luto em uma história de fé, amor e reconstrução

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Após morte da filha, mãe escreve livro sobre luto, fé e reconstrução • Divulgação / Mau Siqueira

Quando Mari Pompeu descobriu que estava grávida de sua segunda filha, também começava a enfrentar uma das experiências mais dolorosas de sua vida. Enquanto Juliana crescia no ventre da mãe, Gabriela, a primogênita, de apenas 2 anos e 4 meses, lutava contra um tumor cerebral. De um lado, uma vida que começava. Do outro, uma despedida que se aproximava. Durante nove meses, Mari viveu a gravidez enquanto acompanhava o tratamento da filha mais velha. Essa experiência, marcada pela mistura de expectativa, medo, fé e dor, deu origem ao livro Esperar Nunca Fez Tanto Sentido.

Na obra, a autora revisita a perda de Gabriela e os caminhos encontrados para continuar vivendo depois da morte da filha. Mais do que um relato sobre a doença e a despedida, o livro trata do luto, da reconstrução e da possibilidade de encontrar novos sentidos para a vida depois de uma perda. Gabriela nasceu em 2016 e, até então, apresentava desenvolvimento considerado normal. Em 2018, pequenos sinais levaram a família ao hospital. O diagnóstico de um tumor cerebral mudou completamente a rotina. Exames, internações, radioterapia, quimioterapia e decisões médicas passaram a fazer parte do cotidiano da família.

Enquanto acompanhava o tratamento da filha, Mari também vivia uma gestação. Juliana nasceu em 26 de março de 2019. Quatro dias depois, Gabriela morreu. A proximidade entre os dois acontecimentos se tornou uma das passagens mais marcantes da história contada no livro. Para Mari, o breve encontro entre as irmãs carrega um significado especial. Ela acredita que Gabi esperou a chegada de Juliana antes de partir.

Um livro sobre o luto, mas também sobre a vida

Mari levou anos para conseguir transformar a experiência em palavras. Durante muito tempo, falar sobre a morte da filha era doloroso demais. Aos poucos, porém, ela passou a entender que recordar Gabriela não significava permanecer presa ao momento da perda. Essa percepção está no centro de Esperar Nunca Fez Tanto Sentido. O livro aborda a morte, mas procura não fazer dela o ponto final da narrativa. A história é construída a partir da tentativa de compreender o luto e, principalmente, de aprender a viver depois dele.

"Eu entendi que não precisava morrer junto com ninguém. Eu passei pela dor, mas não fiquei nela. Não há nada mais precioso do que a vida. Eu amo viver, eu amo cuidar de mim, estudar, correr atrás dos meus sonhos", afirma Mari. Para a autora, o luto não significa esquecer quem morreu. É aprender a conviver com a ausência enquanto a vida continua. "Eu amo viver, eu amo cuidar de mim, estudar, correr atrás dos meus sonhos. A morte me trouxe vida, no sentido mais profundo que essa frase pode ter. Ela me ensinou o valor de estar aqui", diz.

Entre a espera e a despedida

O próprio título do livro nasceu da experiência vivida por Mari durante os meses que antecederam a morte de Gabriela. Ela precisou esperar por exames, diagnósticos, respostas médicas e, ao mesmo tempo, pelo nascimento de Juliana. A espera passou a representar algo maior: a convivência com aquilo que não pode ser controlado.

"Eu costumo dizer que precisei esperar entre a vida e a morte ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo em que eu me alegrava por uma nova vida chegando, eu precisava me despedir da minha primeira filha. Isso não é algo que se explica com facilidade. É uma montanha-russa de sentimentos", afirma. No livro, essa experiência aparece como uma travessia. A autora não tenta romantizar a dor nem apresentar respostas fáceis para uma perda que mudou definitivamente a família.

A fé como parte do processo

A fé também ocupa espaço importante na narrativa. Durante o tratamento de Gabriela, Mari passou por momentos de dúvida e questionamento. Com o tempo, passou a enxergar a espiritualidade menos como uma tentativa de explicar a morte e mais como uma forma de atravessar o sofrimento. "Fé, para mim, é acreditar no invisível, naquilo que não é palpável. Em muitos momentos eu questionei, eu me perguntei por que comigo, por que com a nossa família. Hoje entendo que a fé não elimina a dor, mas ajuda a atravessá-la sem perder o amor pela vida", conta.

Elementos como a natureza, os pássaros, a luz e o origami tsuru aparecem associados a essa dimensão espiritual. Para Mari, a dobradura representa a possibilidade de transformar algo que foi quebrado em uma nova forma. "A dor não desaparece, mas pode ganhar outra configuração", resume.

Da perda à reconstrução

A morte de Gabriela também mudou a maneira como Mari passou a olhar para outras famílias que enfrentam situações de vulnerabilidade. A experiência pessoal de luto se aproximou de um desejo de acolher pessoas que atravessam doenças, perdas e outras dificuldades.

Para a autora, porém, transformar a dor em acolhimento não significa encontrar uma justificativa para a morte da filha. O luto continua existindo e faz parte da história da família. Seis anos depois da morte de Gabriela, a lembrança da menina permanece presente. Mas, para Mari, lembrar não significa viver no dia da despedida.

É justamente essa perspectiva que atravessa Esperar Nunca Fez Tanto Sentido: a ideia de que uma perda pode mudar uma vida para sempre sem necessariamente impedir que ela continue. "Quis escrever sobre o que pode nascer quando uma vida é atravessada por aquilo que ninguém escolheria viver. O livro não promete curar o leitor, mas oferece algo mais delicado e talvez mais raro, que é uma presença, um convite para respirar. Quero transmitir que a vida, mesmo ferida, ainda pode ser abundante", afirma.

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