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Cuidado com o que você lê pode estar confortável demais

Eu comecei a perceber que o mundo ficou fácil demais e isso não é exatamente bom

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Precisamos ter cuidados com a tecnologia e algoritmos.
Cuidado com o que você lê pode estar confortável demais • Arquivo Pessoal

Teve uma fase em que tudo começou a fazer sentido rápido demais pra mim, como se eu tivesse finalmente organizado o que consumir, o que ler, o que assistir, e o mundo tivesse entendido isso junto comigo, passando a entregar exatamente o que eu queria, sem erro, sem desvio, sem surpresa.

No começo isso parece bom, porque ninguém reclama de facilidade, de acertar mais do que errar ou de abrir o celular e já encontrar algo que prende atenção, mas depois de um tempo começa a incomodar, porque você percebe que não está encontrando mais nada que não tenha sido feito pra você.

O algoritmo não está só ajudando ele está moldando

A Inteligência Artificial não trabalha só para facilitar a sua vida, ela organiza o seu comportamento, aprende rápido o que você aceita e começa a reduzir tudo aquilo que não encaixa, criando um ambiente onde você passa a consumir versões repetidas de um mesmo padrão. Se você gosta de um tipo de conteúdo, ele se multiplica, se ignora outro, ele some, e sem perceber você passa a viver dentro de uma versão editada do mundo, onde o inesperado quase não entra e tudo gira em torno daquilo que já é familiar.

Eu venho de antes disso tudo e isso muda a forma como eu enxergo

E pra quem assistiu de perto o antes e depois dos anos 90, então, aí que pega, quando falo dessa época não é nostalgia, é comparação prática. Os anos 90, olhando hoje, eram menos eficientes, mas talvez exatamente por isso fossem mais generosos com o acaso.

Você ouvia o que tocava no rádio, não o que um sistema calculava pra você, zapeava canais sem saber o que ia encontrar e, muitas vezes, parava em algo que não estava procurando, entrava em uma locadora e levava um filme pela capa, pelo nome, pelo pouco que dava pra entender, e errava muito mais do que acertava, mas esse erro tinha função, porque colocava você em contato com o que não escolheria sozinho, e eu lembro bem disso na prática, porque comprei um CD do Manu Chao só porque achei a capa muito legal, poxa tava no México o cara é francês que canta em espanhol, até que as letras tem uma pegada social legal, mas não sabia direito o que vinha ali, e quando fui ouvir pensei “Putzzz, não acreditei hahaha”, porque era completamente fora do que eu estava acostumado, eu sou do rock, não tem jeito.

O problema é que hoje a gente quase não erra

E isso parece evolução, mas talvez não seja, porque quando tudo é filtrado, recomendado e organizado, você perde a chance de encontrar o que não estava no seu radar, e é exatamente nesse espaço que muita coisa acontece. Criatividade não nasce só de acerto, ela nasce de mistura, de erro, de coisa que não encaixa de primeira, e o algoritmo, ao tentar te entregar o melhor o tempo todo, acaba tirando justamente isso, deixando o caminho mais limpo, mas também mais limitado.

A gente está ficando mais confortável e menos criativo

Eu comecei a perceber que estava ficando menos curioso, menos disposto a insistir em algo que não me agradava imediatamente e menos aberto ao que não parecia feito pra mim, e isso não veio só de mim, veio desse ambiente onde tudo já chega pronto, ajustado e validado, sem exigir esforço. Você não precisa atravessar o desconforto, e sem esse desconforto o pensamento muda, porque pensar exige confronto, exige dúvida e exige algum nível de fricção.

A gente não está mais sendo confrontado

Quase tudo que chega até a gente confirma o que já pensamos, reforça o que já acreditamos e organiza o mundo de um jeito que parece lógico demais, previsível demais, e isso cria um problema maior, porque a gente não discorda mais porque pensa diferente, a gente discorda porque vive em mundos diferentes, já que cada pessoa recebe uma versão moldada da realidade com base no próprio comportamento.

Quando penso nisso, inevitavelmente chego no meu filho, por exemplo, porque pra gente ainda existe memória de um mundo com mais bagunça, mais erro e mais improviso, mas pra quem nasce agora o mundo já chega pronto, filtrado e dizendo o que vale a pena ver, o que muda completamente a forma como alguém aprende a lidar com o que não é previsível.

Como é que você ensina alguém a lidar com o mundo sem mundo

Porque o mundo real não é confortável, não é previsível e não é feito sob medida, ele é punk é violento, tem muita gente ruim de verdade, e isso cria um descompasso difícil de ignorar. Como é que você ensina alguém a lidar com frustração se quase tudo evita frustração, como é que você ensina alguém a criar se quase tudo já vem pronto e como é que você ensina alguém a procurar se nada precisa ser procurado.

Tem hora que parece que a gente está criando no escuro, sem muita referência, tentando equilibrar estímulo com silêncio e acesso com limite, porque o tédio, que sempre foi um espaço de criação, virou algo que precisa ser resolvido rapidamente, quando talvez devesse ser preservado.

O algoritmo não está só mostrando o mundo está reduzindo ele

E o mais complicado é que isso vem embalado como vantagem, como personalização, como cuidado, como eficiência, mas ao mesmo tempo vai tirando espaço do que não foi feito pra você, do que poderia te desafiar e do que poderia te mudar, criando uma sensação de que tudo está funcionando bem quando, na prática, o campo de possibilidades está diminuindo.

Mas acho que dá pra prestar atenção em uma coisa simples, que é o espaço que a gente ainda deixa para o que não é confortável, porque se tudo continuar fazendo sentido rápido demais, existe uma chance grande de que a gente esteja apenas repetindo padrões e chamando isso de escolha. E escolha, só vem na frente de renúncia no dicionário. Hasta!

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Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.