A gangue que nasceu do abandono e virou a maior da Nova Zelândia
Violência, identidade e poder marcam a história da Mongrel Mob

Antes de se tornar a maior gangue da Nova Zelândia, a Mongrel Mob era apenas um grupo de jovens deslocados. Sem estrutura familiar sólida, sem espaço social e sem perspectiva clara de futuro, eles encontraram uns nos outros algo que faltava fora dali: pertencimento.
Esse ponto é essencial para entender o fenômeno. A gangue não nasce da violência. Ela nasce da ausência.
Na década de 1960, em regiões como Hawke’s Bay, esses jovens começaram a se organizar. No início, eram vistos como problemáticos. Com o tempo, passaram a ser temidos.
Como o nome virou identidade
O nome Mongrel Mob não foi criado como marca. Foi imposto como ofensa. Um juiz, ao se referir a esses jovens, usou o termo “mongrel”, que significa algo próximo de “vira-lata”.
O que poderia ser humilhação virou símbolo.
Ao assumir esse nome, o grupo construiu uma identidade baseada em oposição. Eles não queriam aceitação. Queriam respeito, ainda que pela força.
O crescimento que ninguém conseguiu conter
Com o passar dos anos, a gangue deixou de ser local e passou a se expandir. Hoje, são dezenas de ramificações espalhadas pela Nova Zelândia, com milhares de membros.
Esse crescimento não aconteceu por acaso.
A estrutura da Mongrel Mob segue uma lógica quase organizacional:
- divisão por capítulos
- códigos internos rígidos
- hierarquia clara
- rituais de entrada
Esse modelo garante continuidade e fortalece a identidade do grupo.
A estética que intimida
A gangue que nasceu do abandono e virou a maior da Nova Zelândia - cópia 2.jpg (1920x1080, AR: 1.78)
Um dos elementos mais marcantes da Mongrel Mob está na forma como seus integrantes se apresentam. Não é apenas visual. É comunicação.
As cores vermelha e preta dominam roupas, bandeiras e símbolos. O patch com o bulldog usando capacete militar virou assinatura da gangue.
As tatuagens, muitas vezes no rosto, reforçam esse pertencimento. Não são apenas estéticas. Funcionam como marca definitiva de quem faz parte daquele universo.
Esse conjunto visual cumpre três funções:
- intimidação
- identificação
- afirmação de poder
Violência, território e disputa
A Mongrel Mob construiu sua reputação dentro de um cenário de conflitos constantes. Disputas territoriais, rivalidade com outras gangues e envolvimento com atividades ilegais fazem parte da trajetória.
Mas existe um ponto que diferencia esse caso de uma leitura superficial.
A violência não é apenas estratégia. Em muitos casos, é linguagem.
Para integrantes que cresceram em ambientes de exclusão, o confronto passa a ser forma de expressão e sobrevivência.

O raro acesso que revelou tudo
Durante décadas, a gangue manteve distância da mídia. Pouquíssimos conseguiram entrar nesse universo sem intermediação policial.
Foi nesse contexto que o fotógrafo Jono Rotman realizou um dos trabalhos mais impactantes já feitos sobre o grupo.
Ao longo de anos, ele registrou rostos, expressões e marcas que dificilmente seriam vistos pelo público. O resultado não foi um retrato glamorizado, nem apenas criminal.
Foi humano.
As imagens mostram homens marcados por escolhas, mas também por histórias que começaram muito antes delas.
Um reflexo social ignorado

A Mongrel Mob não pode ser analisada isoladamente. Ela reflete um problema maior.
Grande parte dos integrantes vem de contextos vulneráveis, incluindo comunidades historicamente marginalizadas na Nova Zelândia. Isso inclui, em muitos casos, descendentes do povo Maori.
Esse dado muda a leitura.
Não se trata apenas de segurança pública. Trata-se de desigualdade, falta de oportunidade e ausência de políticas eficazes ao longo do tempo.
Quando esses fatores se acumulam, surgem estruturas paralelas. A gangue é uma delas.
O desafio das autoridades
Nos últimos anos, o crescimento das gangues no país passou a preocupar autoridades. Medidas mais duras foram implementadas, incluindo restrições ao uso de símbolos em espaços públicos.
A lógica é simples: reduzir visibilidade e influência. Mas o desafio é mais profundo. Repressão sem solução estrutural tende a empurrar o problema, não resolver.
Por outro lado, algumas iniciativas tentam criar caminhos diferentes, incluindo programas de reabilitação e reintegração social.
O que essa história realmente mostra
A Mongrel Mob não é apenas um grupo criminoso. É um fenômeno social complexo.
Ela mostra como a ausência de oportunidades pode se transformar em identidade coletiva. Mostra como o pertencimento pode ser construído fora das estruturas formais. E mostra como, quando ignorados, grupos se organizam de outras formas.
O mais importante não está apenas no que a gangue faz.
Está no que vem antes dela existir.
Porque toda estrutura como essa começa no mesmo lugar.
Na falta.
Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.
