Vitória de Lula fortalece Motta e Alcolumbre na disputa pelo Congresso
Reeleição do petista favorece a permanência dos atuais presidentes da Câmara e do Senado em 2027, mas o avanço da direita e as tensões políticas enfrentadas pelos dois tornam decisivas as negociações por apoio no Legislativo.

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fortalece as articulações de Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) para permanecerem no comando da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Os dois presidentes do Congresso pretendem disputar a recondução aos cargos em fevereiro de 2027, mas terão de negociar com bancadas de direita fortalecidas nas eleições de 2026.
Após a confirmação da vitória de Lula, Motta e Alcolumbre fizeram um pronunciamento conjunto na residência oficial do Senado, em Brasília. Além de reconhecerem o resultado das urnas e parabenizarem o presidente reeleito, os dois defenderam a pacificação do país e fizeram acenos à oposição liderada pelo PL.
Durante a entrevista, Alcolumbre destacou a parceria com Motta e fez referência às dificuldades enfrentadas pelos dois à frente do Legislativo.
“Meu irmão, amigo Hugo Motta, só você e eu, só nós dois sabemos o que nós vivemos nesses últimos um ano e dez meses”, afirmou o presidente do Senado.
Segundo Alcolumbre, comandar o Congresso exige decisões que nem sempre agradam a todos os setores políticos. Ele não detalhou quais episódios motivaram a declaração, mas defendeu a atuação independente do Legislativo e a continuidade do diálogo entre os Poderes.
O senador também afirmou que Lula terá a missão de reduzir a polarização e fortalecer as instituições democráticas. “O presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva contará com um Congresso altivo, voltado à pacificação”, declarou.
A vitória do petista reduz a pressão sobre Motta e Alcolumbre diante da possibilidade de uma ofensiva bolsonarista pelo comando das duas Casas. Durante a campanha, o senador Flávio Bolsonaro (PL), derrotado na disputa presidencial, havia sinalizado interesse em ampliar a influência do partido sobre o Legislativo.
O PL elegeu 121 deputados federais, formando a maior bancada da Câmara, e terá 28 senadores na próxima legislatura. A força da legenda dá à oposição condições de participar diretamente das negociações e tentar conquistar a presidência do Senado.
Entre os nomes cotados para disputar o cargo estão Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, e Tereza Cristina (PP-MS). A escolha do próximo presidente dependerá da capacidade de cada grupo de reunir maioria entre os 81 senadores.
Com a reeleição de Lula, Alcolumbre ganha espaço para buscar apoio de partidos de centro e de parlamentares próximos ao governo. Ainda assim, a disputa permanece aberta, já que a ampliação da bancada de direita e os atritos acumulados ao longo do ano podem dificultar a construção de uma maioria.
Na Câmara dos Deputados, Hugo Motta parte de uma posição considerada mais confortável. O deputado articulou um bloco formado por União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, PSDB-Cidadania, Podemos, PSB, PDT e PV, com potencial de reunir 273 parlamentares na próxima legislatura.
O apoio do PT, que elegeu 70 deputados federais, pode ampliar essa base. A aproximação com o governo Lula favorece as negociações, embora a composição final dependa das conversas entre os partidos.
A relação entre Motta e o Planalto também passou por interesses eleitorais. O presidente da Câmara declarou apoio à reeleição de Lula em meio à tentativa de fortalecer a candidatura de seu pai, Nabor Wanderley, ao Senado pela Paraíba. Nabor terminou a disputa em terceiro lugar.
Apesar da articulação partidária, Motta também terá de lidar com a bancada recorde do PL e com parlamentares de direita que questionam sua proximidade com o governo federal.
Relação com Lula passou por momentos de tensão
A aproximação entre os presidentes das Casas legislativas e o governo não ocorreu sem conflitos. No caso de Alcolumbre, houve um rompimento político com Lula após a rejeição, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias, então advogado-geral da União, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF).
Os dois retomaram o diálogo posteriormente, e o Senado avançou na análise de propostas consideradas prioritárias pelo governo. Em agosto, Alcolumbre e Motta também acertaram com Lula uma agenda de projetos, incluindo o fim da escala 6x1 e a PEC da Segurança Pública.
Na reta final da campanha, o Congresso aprovou e promulgou a proposta que acaba com a escala 6x1. A Câmara também avançou em medidas relacionadas aos microempreendedores individuais (MEIs).
O histórico de negociações reforça a importância dos atuais presidentes para a articulação política do governo. Ao mesmo tempo, a declaração de Alcolumbre sobre as dificuldades vividas nos últimos meses sinaliza o desgaste provocado pela condução de pautas e pelos conflitos entre diferentes grupos políticos.
O fato é que a eleição das presidências da Câmara e do Senado, prevista para 1º de fevereiro de 2027, será um dos primeiros desafios políticos do novo mandato de Lula. Os ocupantes dos cargos têm influência direta sobre a agenda legislativa, a definição das prioridades de votação e o andamento de projetos de interesse do Executivo.
Embora a reeleição do petista favoreça Motta e Alcolumbre, o novo Congresso terá uma presença maior da direita e exigirá negociações com diferentes forças políticas. Para permanecerem no comando, os dois precisarão equilibrar a relação com o governo, os interesses do Centrão e as pressões da oposição.
A disputa, portanto, não será definida apenas pelo resultado da eleição presidencial, mas pela capacidade de cada candidato de construir maioria dentro do Legislativo.
João Pedro Melo é jornalista, formado pelo UniCEUB. Tem mais de dez anos de experiência na cobertura de Congresso Nacional, Palácio do Planalto e Supremo Tribunal Federal. Teve passagens pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação como repórter de política na TV e no rádio.



