Sem presença no primeiro escalão de Lula, PT de Minas vive crise de identidade
Ida de nomes a postos prestigiados tem sido creditada mais ao relacionamento pessoal do que à força do partido

Já foi melhor o clima interno no PT mineiro. Sem conseguir emplacar um quadro no primeiro escalão do governo Lula, interlocutores apontam que o partido tem sofrido com as fortes divergências internas e até "fogo-amigo" - que teriam impedido, por exemplo, que o deputado federal Reginaldo Lopes conseguisse ser indicado como chefe de um ministério.
Lopes foi cotado para a Educação, depois Ciência e Tecnologia e, numa articulação na semana final à posse, ao Desenvolvimento Agrário, mas acabou não tendo musculatura partidária para selar um cargo. Internamente, o deputado é de um grupo "informal" diferente de outras lideranças da legenda, fato que vem sendo colocado como decisivo para a frustrada ida ao primeiro escalão.
Uma das divergências mais expostas é entre Reginaldo e a tesoureira do PT nacional, Gleide Andrade, que foi candidata a deputada federal e terminou o pleito como suplente. Gleide e Reginaldo já viveram dias de relação ruim por conta de recursos partidários - o diretório mineiro, comandado pelo deputado estadual Cristiano Silveira, aliado de primeira hora de Lopes, costuma conviver com dificuldades para pagar as contas. Cristiano Silveira, inclusive, foi às redes sociais na última sexta-feira (30) para lamentar a ausência de nomes do PT de Minas no primeiro escalão.
Até a ida de alguns nomes a postos prestigiados tem sido creditada mais ao relacionamento pessoal e currículo do que à força do partido, caso do ex-deputado André Quintão, que foi escolhido para chefiar a Secretaria Nacional de Assistência Social, pasta do Ministério do Desenvolvimento Social.
Já o ex-secretário de Planejamento e Gestão no governo Pimentel, Helvécio Magalhães, foi colocado para uma pasta dentro do Ministério da Saúde - nomeação que contou com o apoio do ex-governador de Minas, que também é de um grupo interno petista diferente do de Reginaldo Lopes.
A insatisfação interna não vem só da falta de presença nos ministérios e estatais: o PT mineiro abriu mão, após articulação com a participação de Lula, de ter candidato próprio ao governo de Minas e ao Senado - o partido desistiu de lançar Reginaldo para apoiar Alexandre Silveira, este, agora, escolhido para o Ministério de Minas e Energia. Ao Estado, havia a pré-candidatura do prefeito de Teófilo Otoni, Daniel Sucupira, que também não avançou. Na avaliação de interlocutores, o partido "fez sua parte" nas articulações e construção de alianças, mas acabou deixado de lado na hora de integrar de fato a gestão federal.
A retirada da candidatura de Reginaldo ao Senado acabou também atingindo os pleitos de Gleide e do próprio Pimentel. Os dois petistas contavam com parte das bases eleitorais de Reginaldo para conseguir um bom desempenho nas urnas. Com a volta do deputado para disputar a reeleição, a campanha ficou mais complicada para a tesoureira e o ex-governador.
Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. É colunista da Rádio Itatiaia. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.
