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Secretário de Zema afirma que “a gente tem hoje um governo federal que é amigo de narcopresidentes”

Em entrevista à Itatiaia, Rogério Greco analisou atuação de grupos criminosos no país

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O secretário de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais, Rogério Greco, afirmou, na manhã desta segunda-feira (22), em entrevista ao Rádio Vivo, da Itatiaia,

que "a gente tem hoje um governo federal que é amigo de narcopresidentes, você tem o presidente da Venezuela, você tem o presidente da Colômbia, você tem o presidente da Bolívia". Ele comentava a relação do tráfico na América do Sul com o crescimento de facções brasileiras. Em um segundo momento da entrevista, Greco voltou a criticar a postura do governo brasileiro diante dos países vizinhos.

Confira a entrevista no Rádio Vivo e assista ao primeiro vídeo:

EDUARDO: Será que o Zema, que é um governador que botou o estado para funcionar, apesar dos pesares, vai entrar para a história como o cara que deixou o crime organizado das facções mais famosas se instalar em Minas?

GRECO: Não deixou absolutamente nada, isso já vem de muito tempo. Isso não é culpa do nosso governador, não estou fazendo defesa do governador. A culpa, na verdade, é que a gente tem hoje um governo federal que é amigo de narcopresidentes, você tem o presidente da Venezuela, você tem o presidente da Colômbia, você tem o presidente da Bolívia. Só a Colômbia é responsável por fornecer 70% da cocaína que é consumida no mundo. E a gente não pode ter nenhum tipo de relacionamento com o presidente da Colômbia, que vai numa ONU e me diz que o peido da vaca faz um mal maior do que a cocaína. Você espera o que de um camarada desse?

EDUARDO: O senhor está fazendo uma afirmação muito séria. O secretário de Justiça e Segurança Pública de Minas tem origem no Ministério Público, procurador. É conhecido no país inteiro. O senhor está afirmando que o Governo Federal tem relações perigosas com narcotraficantes na América Latina.

GRECO: Com narcopresidentes.

EDUARDO: Narcopresidentes, o que é mais grave ainda.

GRECO: Sim

EDUARDO: E que isso está colocando o país inteiro em risco iminente de uma convulsão geral pelas facções.

GRECO: Sim. Não vou muito longe. A PRF, que pra mim teve uma evolução nos últimos anos fantástica, uma das melhores polícias que temos no Brasil hoje, a PRF está impedida de trabalhar. Se olhar um passado recente, as apreensões que a PRF estava fazendo, é um negócio fantástico, de aplaudir de pé. Hoje a PRF está engessada. São decisões políticas completamente equivocadas que têm repercussão no Brasil inteiro. Você impedir que a PRF continue fazendo a atividade que ela tava fazendo, que era simplesmente perfeita. Um número de apreensões de armamentos, toneladas e toneladas de drogas. É um conjunto de coisas. Não é uma responsabilidade de uma pessoa só.

Confira a entrevista no Rádio Vivo e assista ao segundo vídeo:

GRECO: No Brasil, hoje, existem aproximadamente 90 facções criminosas. Catalogadas pela Senapen são 72 (...). As facções cariocas são eminentemente territorialistas.

EDUARDO: Aquilo que nós vimos ontem no Fantástico, o PCC é um grande distribuidor de gasolina?

GRECO: É o quinto maior distribuidor. Hoje é o PCC, sim.

EDUARDO: O PCC já tem empresa de ônibus?

GRECO: O PCC na verdade tem tudo, Eduardo. Está envolvido em tudo que for prestação de serviço. É a maior facilidade que se tem para lavar dinheiro.

EDUARDO: Essas facções já têm bancado estudo e concurso para advogado, para entrar para o Ministério Público e judiciário?

GRECO: Há muito tempo. Há muito tempo.

EDUARDO: O senhor acredita que já tenha representante deles nessas instituições?

GRECO: A probabilidade é muito grande, muito grande.

EDUARDO: Essa gente está fora de controle?

GRECO: Não, não. O estado, Eduardo, se o Estado se unir, o Estado sempre será infinitamente mais forte que qualquer facção criminosa.

EDUARDO: O Estado que o senhor está falando é Minas Gerais?

GRECO: Não, o Estado como um todo, inclusive as partes. O todo e as partes.

EDUARDO: O senhor está afirmando que o governo brasileiro é amigo de narcopresidentes?

GRECO: Não, é, não tô dizendo que o governo brasileiro ele é conivente com o tráfico.

EDUARDO: Mas é, amigo! Ele devia, por exemplo, questionar o governo colombiano.

GRECO: Obviamente, o governo colombiano, o governo da Venezuela. Eu fiz em 2017 um curso, Eduardo, da mesma forma que você em Washington, sobre Terrorismo e organizações criminosas transnacionais. Já em 2017 o governo americano tinha um mandado de prisão contra o vice-presidente do Maduro por tráfico internacional de drogas. Então assim, não é possível que o governo brasileiro aceite simplesmente uma situação que tá acontecendo.

Reposta do Planalto

Em nota à Itatiaia, o Ministério da Justiça e Segurança Pública afirmou que "o combate ao narcotráfico é uma das prioridades do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Somente em 2024, a Pasta realizou as Operações Narke 1 e 2, que apreenderam juntas 20 toneladas de drogas, além de quase 13 mil unidades de drogas sintéticas em todo o Brasil". Confira a nota na íntegra:

O combate ao narcotráfico é uma das prioridades do Ministério da Justiça e Segurança Pública, por meio das ações que vem realizando. Somente em 2024, a Pasta realizou as Operações Narke 1 e 2, que apreenderam juntas 20 toneladas de drogas, além de quase 13 mil unidades de drogas sintéticas em todo o Brasil.

Na Região Amazônica, que é estratégica para as organizações criminosas em função da sua localização geográfica, a Pasta vem fortalecendo ações de enfrentamento ao tráfico de drogas ilícitas, com o uso de ações de inteligência e fiscalização ostensivas.

Um dos programas estruturantes do MJSP é o Programa Amazônia, Segurança e Soberania (AMAS), lançado em 2023, e que conta com investimento total de R$ 1,2 bilhão. Deste montante, R$ 318,5 milhões, oriundos do Fundo Amazônia, já foram destinados por meio de contrato assinado no dia 17 de junho entre o MJSP e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Também no escopo do AMAS, está prevista a implementação de 28 bases terrestres e seis bases fluviais na região, totalizando 34 novas bases integradas de segurança, envolvendo Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e forças estaduais.

Outro programa estruturante é o Programa Nacional de Enfrentamento às Organizações Criminosas (Enfoc), desdobramento do Plano de Ação na Segurança (PAS). Com investimento de R$ 900 milhões, o Enfoc tem o objetivo de viabilizar visão sistêmica das organizações criminosas, valorizar os recursos humanos das instituições de segurança pública, fortalecer a investigação criminal e a atividade de inteligência, a fim de desarticular e descapitalizar os grupos. A implementação das ações será gradual até 2026.

Vale ressaltar que todos os programas instituídos e operações coordenadas pelo Ministério visam o combate de quaisquer tipos de entorpecentes. Além dos programas, a Pasta também coordena, por meio da Diretoria de Operações Integradas e de Inteligência, a Operação Protetor das Divisas, Fronteiras e Biomas, que atua de forma permanente em 13 estados brasileiros: Amazonas, Acre, Roraima, Amapá, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás, Tocantins e Rio Grande do Norte, visando atuação conjunta, coordenada, sistêmica e integrada dos órgãos de segurança pública federais e dos entes federativos no combate à criminalidade organizada. Até o dia 1º de julho, foram apreendidos, no âmbito da Operação, 649.853 quilos de drogas.

O MJSP destaca, ainda, que todas as ações da Secretaria Nacional de Segurança Pública são custeadas pelo Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP), e que, para 2024, o orçamento da Diretoria de Operações Integradas e de Inteligência (Diopi) é de mais de R$ 200 milhões para operações e aparelhamento da segurança pública, integralmente custeados com o FNSP.

Além dos recursos, o MJSP oferta cursos de capacitação de agentes de segurança pública em todo o país, coordena e apoia operações no combate ao tráfico de drogas diariamente e conta com a parceria e atuação da Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícias Civis e Militares de todas as unidades da Federação.

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Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.