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Qual a história do carro aberto usado na posse presidencial?

O Rolls-Royce Silver Wraith transporta os chefes de Estado desde 1953 e carrega o peso simbólico da transição democrática no Brasil

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Rolls-Royce utilizado na posse presidencial no Brasil
Rolls-Royce utilizado na posse presidencial no Brasil • Ministério da Defesa

O desfile em carro aberto na Esplanada dos Ministérios é o ápice visual da troca de poder no Brasil. Quando o presidente eleito acena para a multidão, ele cumpre um rito institucional que legitima a vontade popular nas ruas de Brasília. O veículo utilizado para esse trajeto, um Rolls-Royce modelo Silver Wraith fabricado em 1952, transcende a função de transporte oficial. Ele opera como uma extensão móvel do Estado brasileiro, testemunhando posses, paradas de Sete de Setembro e momentos de alta tensão política há mais de sete décadas. Compreender a trajetória desse automóvel é entender uma parte essencial da liturgia republicana nacional.

 

A origem do Silver Wraith na frota republicana

A presença do veículo britânico no acervo do governo federal começou durante o segundo mandato de Getúlio Vargas. Em 1951, a Presidência da República decidiu substituir os antigos modelos Cadillac e Lincoln que serviam ao Palácio do Catete, então sede do governo no Rio de Janeiro. A escolha recaiu sobre a tradicional montadora inglesa Rolls-Royce, que forneceu dois modelos Silver Wraith ao Brasil: um fechado e outro conversível. O modelo aberto, que se tornaria o símbolo das posses, desembarcou no país no início de 1953.

 

A estreia oficial do automóvel ocorreu em 1º de maio de 1953, quando Getúlio Vargas desfilou pelas ruas de Volta Redonda, no Rio de Janeiro, durante as celebrações do Dia do Trabalho. Desde então, o carro passou a integrar o patrimônio histórico nacional. Durante décadas, alimentou-se a lenda urbana de que o veículo teria sido um presente da rainha Elizabeth II ao Brasil. A cronologia, no entanto, desmente o mito. A monarca britânica foi coroada em junho de 1953, meses após o carro já estar em uso pelo governo brasileiro. O automóvel foi, de fato, encomendado e pago com recursos nacionais, embora existam relatos históricos de que empresários próximos a Vargas teriam custeado a importação.

 

Além dos chefes de Executivo brasileiros, o banco traseiro do conversível já acomodou figuras históricas de peso global. Quando a própria rainha Elizabeth II visitou o Brasil em 1968, ela desfilou no veículo. O presidente francês Charles de Gaulle e o cosmonauta soviético Yuri Gagarin também cumpriram agendas oficiais a bordo do clássico britânico. Em 1968, com a consolidação de Brasília como centro do poder, o carro foi transferido em definitivo para a nova capital, passando a ser guardado e mantido pelo aparato militar da Presidência.

 

O protocolo do desfile na Esplanada dos Ministérios

No dia 1º de janeiro, o trajeto do presidente eleito segue um roteiro milimetricamente planejado que conecta a Catedral Metropolitana de Brasília ao Congresso Nacional. O uso do carro aberto permite que o novo mandatário seja visto pela população antes de prestar o juramento constitucional. É o momento em que a figura política se apresenta fisicamente aos eleitores, abandonando os palanques de campanha para assumir a postura de chefe de Estado. A lentidão do veículo, que trafega em velocidade de caminhada, é proposital para garantir a captação de imagens oficiais e a interação com o público.

 

A mecânica do Silver Wraith, que conta com um motor de seis cilindros em linha, exige cuidados específicos para suportar o desfile em baixa velocidade sob o sol forte da capital federal. O carro passa por revisões rigorosas, de uma a duas vezes por ano, conduzidas por especialistas militares. Durante o trajeto da posse, o motorista precisa manter uma aceleração constante e suave, evitando solavancos que possam desequilibrar o presidente e a primeira-dama, que tradicionalmente viajam de pé, apoiados em uma barra de segurança instalada no interior do veículo.

 

Caso o conversível apresente qualquer falha técnica durante o deslocamento, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) mantém veículos blindados de prontidão logo atrás do Rolls-Royce. A transição rápida de um carro para outro faz parte dos ensaios exaustivos de segurança realizados pelas forças armadas nas semanas que antecedem a cerimônia.

 

A tensão entre segurança institucional e proximidade popular

O xadrez político e a estabilidade democrática influenciam diretamente a decisão de usar o Rolls-Royce conversível. As equipes de segurança da Polícia Federal e do GSI frequentemente recomendam o uso de veículos fechados e blindados, temendo atiradores de elite, ataques com drones ou tumultos na multidão. A Esplanada dos Ministérios é um espaço aberto e vulnerável, o que eleva o nível de alerta das forças táticas ao grau máximo durante o trajeto.

 

Do outro lado, existe a pressão política do próprio presidente eleito e de seus articuladores. Desfilar em um carro blindado e de vidros escuros transmite uma mensagem de distanciamento e medo, algo politicamente indesejável no dia da posse. A escolha final pelo carro aberto funciona como uma demonstração de força e confiança nas instituições democráticas e no controle territorial do Estado. Quando o líder decide subir no Rolls-Royce, ele assume um risco calculado em nome da liturgia do poder.

 

O posicionamento dos atores dentro e ao redor do veículo também reflete a hierarquia estatal. O presidente e a primeira-dama ocupam o espaço de destaque, enquanto o vice-presidente e sua esposa podem acompanhá-los no mesmo carro ou em um segundo veículo oficial, dependendo do arranjo político da chapa. Ao redor do Rolls-Royce, dezenas de agentes federais correm a pé, formando um escudo humano dinâmico que reage a qualquer movimento brusco vindo das arquibancadas.

 

Dúvidas frequentes sobre o protocolo do veículo

 

O presidente é obrigado a usar o carro aberto na posse?

Não existe nenhuma lei ou determinação constitucional que obrigue o uso do Rolls-Royce conversível. A escolha é estritamente pessoal do presidente eleito, baseada em recomendações de segurança e nas condições climáticas do momento. Em caso de chuva forte ou ameaça concreta, o protocolo determina o uso de um veículo fechado e blindado da frota oficial.

 

O Rolls-Royce presidencial possui algum tipo de blindagem?

O modelo Silver Wraith de 1952 preserva suas características originais de fábrica e não conta com nenhum tipo de blindagem balística. A proteção do presidente depende inteiramente do esquema tático montado ao redor do carro, que inclui atiradores de elite nos telhados dos ministérios, bloqueio de sinal de drones e o cordão de isolamento feito pelos agentes a pé.

 

Quem é o responsável pela manutenção do automóvel histórico?

A guarda, conservação e manutenção preventiva do veículo são atribuições das forças oficiais, especificamente do Ministério da Defesa e do Gabinete de Segurança Institucional. O carro fica abrigado em uma garagem climatizada em Brasília e sai apenas para testes periódicos de motor, ensaios de cerimônias oficiais, o desfile de Sete de Setembro e a posse presidencial.

 

A tradição de cruzar o coração de Brasília a bordo de um veículo de 1952 consolida a ideia de que os governos são passageiros, mas o Estado permanece. O ato de acenar para a população sem o filtro de vidros blindados reafirma o pacto de confiança entre o eleito e a sociedade civil. Ao manter essa engrenagem histórica em funcionamento, a República brasileira demonstra sua capacidade de preservar ritos que ancoram a estabilidade política e celebram a vitalidade do processo democrático a cada quatro anos.

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