Itatiaia

Entenda a história dos presidentes que se recusaram a passar a faixa no Brasil

O rito de transmissão do cargo máximo da República é um símbolo de estabilidade democrática, mas já foi quebrado por tensões políticas e militares ao longo da história

Por
Após pleito de 2022, Jair Bolsonaro se recusou a transmitir a faixa presidencial a Lula
Após pleito de 2022, Jair Bolsonaro se recusou a transmitir a faixa presidencial a Lula • Tânia Rego/Agência Brasil

A entrega da faixa presidencial é o principal ato simbólico de alternância de poder no Brasil. Quando um chefe de Estado transmite o adereço ao seu sucessor, ele sinaliza para a sociedade civil e para as Forças Armadas que o resultado das urnas ou o rito constitucional foi respeitado, garantindo a normalidade democrática.

No entanto, a pergunta sobre quais presidentes se recusaram a passar a faixa na história do brasil revela que essa tradição já foi rompida. Em toda a trajetória republicana, apenas três mandatários tomaram a decisão deliberada de não comparecer à cerimônia para transferir o símbolo do Executivo, sempre em momentos de severa instabilidade ou transição de regimes.

 

A origem da faixa presidencial e o peso do rito republicano

 

O uso da faixa não nasceu junto com a Proclamação da República. A instituição desse símbolo ocorreu apenas em 1910, por meio de um decreto assinado pelo presidente Hermes da Fonseca. A ideia era criar um elemento visual que diferenciasse o chefe do Poder Executivo das demais autoridades, inspirando-se em tradições de nações europeias e sul-americanas. Desde então, o tecido com as cores da bandeira nacional tornou-se a representação material da autoridade presidencial.

 

Na prática política, a cerimônia de subida da rampa do Palácio do Planalto e a consequente transmissão da faixa no parlatório servem como um pacto visual de pacificação. O ato demonstra que o poder não pertence a quem o ocupa provisoriamente, mas sim ao Estado. Quando um político se recusa a participar desse momento, ele tenta esvaziar a legitimidade do sucessor, gerando um ruído institucional que ecoa nos anais da história política brasileira.

 

Os três rompimentos históricos e as motivações políticas

 

A quebra do protocolo oficial ocorreu em três momentos cruciais, todos marcados por mudanças drásticas no modelo de governo ou por profunda polarização ideológica. A análise desses episódios ajuda a compreender o nível de estresse institucional que o país enfrentava em cada época.

 

Floriano Peixoto e a transição tensa para os civis em 1894

 

O primeiro registro de recusa ocorreu ainda no século XIX, durante o período conhecido como República da Espada. Floriano Peixoto, apelidado de Marechal de Ferro, governava o país sob forte pulso militar. Seu sucessor, Prudente de Morais, foi o primeiro presidente civil eleito da história do Brasil. Descontente com a perda de protagonismo das Forças Armadas e com o perfil do novo governo, Floriano simplesmente não compareceu à cerimônia. Um secretário foi enviado em seu lugar para formalizar a transição, evidenciando o desconforto dos militares em devolver o comando político aos civis.

 

João Figueiredo e o esvaziamento do fim da ditadura em 1985

 

Foram necessários 91 anos para que a cena se repetisse. Em 1985, o Brasil encerrava 21 anos de ditadura militar. O general João Batista Figueiredo deveria transferir o cargo para Tancredo Neves, eleito indiretamente. Contudo, Tancredo foi internado às pressas na véspera da posse, e o vice, José Sarney, assumiu o comando. Figueiredo nutria profundo desprezo político por Sarney, considerando-o um traidor por ter abandonado o partido de sustentação militar (PDS) para se aliar à oposição. Diante do cenário, o general recusou-se a participar do ato e deixou o Palácio do Planalto por uma porta lateral, evitando qualquer registro fotográfico ao lado do sucessor civil.

 

Jair Bolsonaro e a ausência na posse após a polarização de 2022

 

O caso mais recente envolveu Jair Bolsonaro, o primeiro presidente eleito pelo voto direto desde a redemocratização a não cumprir a liturgia do cargo. Após ser derrotado nas urnas por Luiz Inácio Lula da Silva, Bolsonaro manteve um longo período de silêncio e não reconheceu publicamente o revés eleitoral de forma explícita. Dois dias antes do fim de seu mandato, ele embarcou em um voo oficial para os Estados Unidos, ausentando-se propositalmente da posse marcada para 1º de janeiro de 2023. A recusa forçou a equipe de transição a buscar uma alternativa inédita para o rito.

 

O xadrez institucional quando o chefe do Executivo se ausenta

 

Quando o presidente em exercício decide não participar da posse, o cerimonial de Estado precisa encontrar soluções legais e simbólicas para preencher o vácuo no Palácio do Planalto. A liturgia prevê que, na ausência do titular, a tarefa recaia sobre a linha sucessória, começando pelo vice-presidente e passando pelos presidentes da Câmara e do Senado. No entanto, a contaminação política costuma dificultar essas alternativas.

 

No episódio de 2023, o então vice-presidente Hamilton Mourão também se recusou a entregar a faixa, afirmando que a prerrogativa era exclusiva do presidente. Para contornar a crise institucional e manter o peso diplomático da cerimônia, o novo governo optou por uma saída focada na sociedade civil. A faixa foi passada de mão em mão por um grupo de cidadãos representando a diversidade demográfica do país, até ser colocada no novo mandatário. Esse movimento demonstrou a capacidade de adaptação do cerimonial republicano diante de boicotes políticos.

 

Dúvidas frequentes sobre as regras de transmissão do cargo

 

A passagem da faixa presidencial é uma obrigação prevista em lei?

Não existe nenhuma legislação no ordenamento jurídico brasileiro que obrigue o presidente em fim de mandato a entregar pessoalmente a faixa ao seu sucessor. O ato é estritamente uma tradição cerimonial e simbólica. A posse legal e efetiva ocorre no Congresso Nacional, mediante a assinatura do termo de posse e o juramento oficial à Constituição.

 

Outros presidentes deixaram de passar a faixa por motivos diferentes da recusa?

Sim, o rito deixou de acontecer diversas vezes por impedimentos de força maior. Rodrigues Alves, eleito em 1918, contraiu a gripe espanhola e morreu sem assumir o cargo. Tancredo Neves faleceu logo após as complicações médicas antes de tomar posse em 1985. Além disso, presidentes que sofreram processos de impeachment, como Fernando Collor de Mello e Dilma Rousseff, foram removidos do cargo antes do término do mandato, inviabilizando a participação na cerimônia de seus sucessores diretos.

 

O que acontece se a faixa física for levada ou extraviada pelo antigo governo?

A faixa pertence ao patrimônio da Presidência da República e deve permanecer sob a guarda oficial do Estado. Existem múltiplas versões físicas da peça criadas ao longo das décadas. Caso uma delas seja danificada ou retida indevidamente, o cerimonial possui peças substitutas prontas para uso imediato, garantindo que o rito aconteça independentemente daquele objeto específico.

 

A liturgia da posse e a transferência do poder executivo funcionam como o termômetro da maturidade de um país. Quando as instituições operam dentro da normalidade, o rito flui sem intercorrências, reafirmando que as engrenagens de Estado são maiores que os governantes temporários. O registro histórico das ausências serve como um lembrete das tensões que moldaram a República, evidenciando que a alternância de poder, mesmo quando contestada, acaba sempre se impondo pela força da Constituição.

Leia também:

Por

A Rádio de Minas. Tudo sobre o futebol mineiro, política, economia e informações de todo o Estado. A Itatiaia dá notícia de tudo.

 

 

Belo Horizonte