Lula é o primeiro a vencer o 2º turno de virada e chega ao quarto mandato
Derrota em 1º turno deu início à campanha do petista em busca pela virada, marcada por atos no Brasil; Eleições 2026 é marcada por feitos inéditos na política brasileira desde redemocratização

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tornou-se o primeiro a conseguir uma virada na disputa a Presidência da República no segundo turno desde a redemocratização no Brasil. Nas sete eleições presidenciais decididas em duas rodadas entre 1989 e 2022, quem terminou o primeiro turno na frente também venceu a disputa. Com 51,74% dos votos contabilizados neste domingo (25), o presidente reeleito matematicamente se prepara para o quarto mandato (2027-2030).
Em 4 de outubro de 2026, no primeiro turno do pleito, Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, alcançou 47,03% dos votos, contra 45,16% destinados a Lula. A derrota deu início à campanha do petista em busca pela virada, marcada por atos no Brasil — inclusive em Belo Horizonte, quando o presidente reeleito se encontrou com os eleitores no dia 21 de outubro, no centro da capital mineira. Foi a quarta visita de Lula no município na campanha presidencial.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), às 21h10 deste domingo (25), confirmaram matematicamente a virada e vitória de Lula, com 51,74% dos votos (62.641.973) contra 48,26% (58.436.437) dos votos destiandos a Flávio Bolsonaro.
Lula também se tornou o primeiro presidente eleito quatro vezes no Brasil. Quem passou mais tempo no poder por meio de eleições diretas ou indiretas foi Getúlio Vargas, mas ele não cumpriu mandatos eletivos, nem de forma democrática: cumpriu um mandato indireto (1934), governou como ditador no Estado Novo (1937–1945) e foi eleito por voto direto apenas uma vez, em 1950.
Após concorrer sem sucesso nas eleições de 1989, 1994 e 1998, Lula foi eleito Presidente da República pela primeira vez em 2002, e reeleito em 2006. Em seguida, mesmo mantendo forte influência política e indicando Dilma Rousseff enquanto sucessora, enfrentou um período conturbado: foi investigado, denunciado e preso no âmbito da Operação Lava Jato.
Em 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) indicou irregularidades no processo e anulou as condenações contra Lula devido à incompetência da vara de Curitiba e à parcialidade reconhecida do ex-juiz Sérgio Moro, governador eleito no Paraná, restabelecendo seus direitos políticos. No ano seguinte, derrotou Jair Bolsonaro, então presidente da República, e retornou ao Palácio do Planalto.
Confira, abaixo, um pouco sobre a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva.
História de Lula
Pernambucano e sétimo filho de Dona Lindu, Lula nasceu em 27 de outubro de 1945 e migrou, ainda criança, para o estado de São Paulo em uma tentativa de escapar da seca e fome. Na capital paulista, foi alfabetizado e alcançou o diploma de torneiro mecânico, por meio do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI).
A carreira profissional de Lula passou por diferentes indústrias da Região do ABC Paulista. Ali foi onde teve contato com o movimento sindical e, a partir de 1969, começou a se eleger em cargos sindicais, inicialmente como suplente, após como primeiro-secretário até se tornar presidente, reeleito em 1978. Na mesma época, os primeiros grevistas começaram a parar fábricas da região, por arrochos salariais e perdas de benefícios.
Mesmo sob as repressões policiais, cerca de 200 mil operários pararam o ABC paulista e criaram mecanismos inéditos de organização, como os fundos de greve. Mas a resposta do regime militar foi dura, com intervenção no sindicato e prisão de lideranças. Em 1980, durante intervenção federal no sindicato, Lula foi preso com base na Lei de Segurança Nacional, por policiais do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), ficando detido por aproximadamente um mês.
Com a prisão de líderes, as greves se fortaleceram, junto a um projeto que já vinha sendo pensado. Em 1980, o Partido dos Trabalhadores era criado por sindicalistas, intelectuais, artistas e lideranças comunitárias, incluindo Lula, vindo da necessidade de um partido político que representasse os trabalhadores.
Lula na política
Antes de chegar à Presidência, Lula passou por outras disputas eleitorais. Recém-fundado o PT, foi candidato ao governo do estado de São Paulo em 1982. Não se elegeu, mas a candidatura espalhou o partido pelo país.
No ano seguinte, participou da fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), principal central sindical do Brasil, e em 1984 foi uma das principais lideranças da campanha das “Diretas Já”.
O primeiro cargo público de fato ocupado veio em 1986, com a ocupação da cadeira parlamentar de deputado federal para a Assembleia Nacional Constituinte com a maior votação do país naquele pleito, recebendo 651.763 votos.
No mandato (1987-1990), Lula defendeu principalmente direitos sociais dos trabalhadores e atuou como liderança de oposição aos governos José Sarney e Fernando Collor, chegando a apresentar seis projetos de lei voltados à correção salarial e a benefícios previdenciários.
Depois da redemocratização, Lula passou a concentrar suas energias na disputa presidencial e o caminho foi mais longo do que se costuma lembrar:
- Em 1989, primeira eleição direta para presidente em 29 anos, Lula chegou ao segundo turno e perdeu por margem pequena para Fernando Collor de Mello.
- Em 1994, uma nova candidatura, derrotada já no primeiro turno por Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
- Em 1998, houve a terceira tentativa, novamente derrotado por FHC no primeiro turno.
Somente na quarta candidatura, em 2002, Lula chegou à Presidência. Venceu José Serra (PSDB) no segundo turno, e em 2006 repetiu a vitória, dessa vez sobre Geraldo Alckmin, também em segundo turno.
Governou de 2003 a 2010, ao longo de dois mandatos consecutivos. Ao final do segundo mandato, sua avaliação com a população era positiva e recorde. Pesquisa do Ibope da época indicava 80% de aprovação.
Nas eleições de 2010, indicou Dilma Rousseff, também do PT, como sua sucessora. Eleita e reeleita em 2014, a ex-presidenta teve o mandato interrompido por um processo de impeachment em 2016.
Lava Jato
A Operação Lava Jato, deflagrada em 2014 para investigar um esquema de corrupção na Petrobras, alterou o curso da política brasileira e de Lula. Em 2017, o então juiz federal Sérgio Moro condenou Lula a nove anos e seis meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, no caso conhecido como ‘tríplex do Guarujá”, apartamento que o Ministério Público apontava ter sido recebido como propina da empreiteira OAS.
Lula se entregou à Polícia Federal em abril de 2018 e ficou preso até novembro do ano seguinte, quando o Supremo Tribunal Federal alterou o entendimento sobre prisão após condenação em segunda instância. Ao todo, foram 580 dias atrás das grades.
Entretanto, em março de 2021, o ministro Edson Fachin anulou as condenações de Lula relacionadas à Lava Jato. O caso tramitou na 13ª Vara Federal de Curitiba e Fachin entendeu que a vara não tinha competência para julgar os processos, que deveriam ter ocorrido na Justiça Federal do Distrito Federal.
Dias depois, o plenário do STF votou, por 7 votos a 4, a confirmação de que Sérgio Moro havia atuado com parcialidade ao julgar o caso, o que tornou nulos todos os atos do processo conduzidos por ele. O entendimento foi posteriormente ampliado para outros processos contra Lula, como os do sítio de Atibaia e do Instituto Lula, que deveriam seguir o mesmo caminho, fora da Vara de Curitiba.
Em 2022, o Comitê de Direitos Humanos da ONU também concluiu que houve parcialidade de Moro no julgamento dos processos contra o petista. As anulações tiveram caráter processual, relacionadas à competência do juízo e à imparcialidade do julgador, e não uma absolvição de mérito sobre os fatos investigados.
Na prática, isso significou que Lula deixou de ter qualquer condenação válida em seu nome e, consequentemente, recuperou integralmente seus direitos políticos — o que lhe permitiu concorrer e vencer as Eleições de 2022.
Quem venceu cada 2º turno presidencial desde 1989?
Desde a primeira eleição presidencial direta após a ditadura militar, o Brasil realizou nove disputas pela Presidência até 2022. Sete foram decididas no segundo turno, enquanto duas terminaram na primeira votação.
Veja, abaixo, os resultados dos dois primeiros colocados em cada eleição, entre 1989 e 2022:
- 1989: Fernando Collor (PRN) recebeu 30,48% no primeiro turno, contra 17,19% de Lula (PT). Collor venceu o segundo turno com 53,03%, ante 46,97% do petista.
- 1994: Fernando Henrique Cardoso (PSDB) venceu no primeiro turno, com 54,28% dos votos válidos. Lula ficou em segundo lugar, com 27,04%.
- 1998: Fernando Henrique Cardoso foi reeleito no primeiro turno, com 53,06% dos votos válidos, contra 31,71% de Lula.
- 2002: Lula recebeu 46,44% no primeiro turno, contra 23,20% de José Serra (PSDB). No segundo, venceu com 61,27%, ante 38,73% de Serra.
- 2006: Lula terminou o primeiro turno com 48,61%, contra 41,64% de Geraldo Alckmin (PSDB). Foi reeleito no segundo, com 60,83%, ante 39,17%.
- 2010: Dilma Rousseff (PT) recebeu 46,91% no primeiro turno, contra 32,61% de José Serra. No segundo, venceu com 56,05%, ante 43,95%.
- 2014: Dilma terminou o primeiro turno com 41,59%, contra 33,55% de Aécio Neves (PSDB). Foi reeleita no segundo, com 51,64%, ante 48,36%.
- 2018: Jair Bolsonaro (PSL) recebeu 46,03% no primeiro turno, contra 29,28% de Fernando Haddad (PT). No segundo, venceu com 55,13%, ante 44,87%.
- 2022: Lula terminou o primeiro turno com 48,43%, contra 43,20% de Jair Bolsonaro (PL). No segundo, venceu com 50,90%, ante 49,10%.
Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.



