Câmara terá menos deputados pretos e pardos a partir de 2027; veja o que mudou
Número de deputados federais autodeclarados pretos e pardos caiu de 139 para 135 nas eleições de 2026; pesquisadora aponta que a redução ocorre em um cenário de sub-representação racial persistente no Congresso

A representação de deputados pretos e pardos na Câmara dos Deputados caiu nas eleições de 2026. O número de parlamentares eleitos passou de 139, em 2022, para 135 neste ano, uma redução de quatro cadeiras.
Para a cientista política Evelyn Apolinária, pesquisadora e professora do Centro Universitário de Brasília (Ceub), a queda reforça um cenário de sub-representação racial no Congresso Nacional. “Os negros são cerca de metade das candidaturas à Câmara e pouco mais da metade da população, mas ocupam pouco mais de 25% das cadeiras”, afirmou.
Dos 135 deputados pretos e pardos eleitos neste domingo (4), 77 foram reeleitos. Na avaliação da pesquisadora, desigualdades no acesso a recursos de campanha, financiamento eleitoral e estruturas partidárias continuam influenciando o resultado. “As regras de incentivo, como a distribuição proporcional dos fundos, não bastaram para reduzir essa distância”, aponta Evelyn.
Racismo
A federação formada por União Brasil e Progressistas foi a que mais elegeu parlamentares pretos e pardos, com 32 cadeiras, o equivalente a 23,7% do total. Apesar do aumento ou da redução da presença de parlamentares negros, Evelyn ressalta que a identificação racial não determina, por si só, a atuação política de um deputado em relação ao combate ao racismo.
“O número de parlamentares negros não diz, por si só, nada sobre a orientação ideológica de cada um. Apenas a representação por raça e cor não garante uma agenda una e coesa nessa questão”, afirmou.
Segundo a pesquisadora, a literatura acadêmica sobre representação mostra que a presença de integrantes de determinado grupo no Legislativo não significa necessariamente uma atuação voltada aos mesmos interesses, que podem ser diversos. “A atuação antirracista no Legislativo costuma se concentrar em partidos de esquerda e centro-esquerda”, disse.
Congresso mais à direita
Para Evelyn, a nova composição da Câmara, mais à direita, pode dificultar a criação de novos projetos relacionados ao combate ao racismo, à ampliação de políticas afirmativas e ao orçamento destinado à igualdade racial.
A pesquisadora pondera, porém, que ainda há fatores que podem influenciar a atuação do Congresso sobre o tema. Entre eles está o resultado do segundo turno presidencial, que definirá a relação entre o Executivo e o Legislativo.
Outro ponto é o papel da bancada negra e sua presença no colégio de líderes, que pode contribuir para manter questões relacionadas à igualdade racial na pauta mesmo diante de uma maioria parlamentar menos favorável. “Eu falaria em risco de menor prioridade e de maior conflito, não em ausência garantida de pautas”, afirmou Evelyn.
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