Disney+ prepara série documental sobre morte de estudante em Ouro Preto
A série deverá retomar a história de uma jovem cuja vida foi interrompida aos 18 anos e de um crime que, um quarto de século depois, continua sem autoria esclarecida

Aline Silveira Soares tinha 18 anos, estudava Farmácia e viajou para Ouro Preto para participar da tradicional Festa do Doze, em outubro de 2001. A visita terminou em um assassinato que ganhou repercussão nacional e permanece sem autoria esclarecida. Encontrada morta em um cemitério da cidade, a estudante teve sua história associada a uma suposta ligação entre o crime e jogos de RPG. A hipótese sustentada pela acusação foi contestada pelas defesas, e as quatro pessoas levadas a julgamento foram absolvidas.
Moradora de Manhumirim, na Zona da Mata mineira, conforme os registros da imprensa durante o julgamento, Aline era filha de Maria José Silveira Soares, conhecida como Zezé. Nas lembranças da família e dos amigos, era uma jovem querida, que confiava nas pessoas. Em entrevista publicada neste mês, a mãe recordou a maneira como a filha enxergava o mundo e a dificuldade de conviver com uma perda que, mesmo depois de 25 anos, continua sem explicação.
Aline chegou a Ouro Preto em 11 de outubro de 2001, acompanhada da prima, Camila Dolabella Silveira, e de uma amiga. Elas ficaram hospedadas na República Sonata. A cidade recebia visitantes para a Festa do Doze, tradicional encontro ligado à comunidade universitária.
Três dias depois, em 14 de outubro, o corpo da estudante foi encontrado no cemitério da Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia. Segundo a cobertura do processo, Aline apresentava 17 perfurações de faca. A disposição dos braços e dos pés foi interpretada pelos investigadores como semelhante a uma crucificação e contribuiu para que a hipótese de um ritual passasse a orientar a apuração.
Durante as investigações, a polícia encontrou materiais de RPG entre os pertences dos investigados. A partir daí, ganhou força a suspeita de que o assassinato estaria relacionado a uma partida do jogo “Vampiro: A Máscara”. RPG é uma modalidade de jogo em que os participantes interpretam personagens e constroem histórias. A presença dos livros passou a integrar a narrativa da acusação, mas a ligação entre o jogo e o homicídio foi questionada e não resultou em condenação.
A versão de um suposto ritual ganhou destaque na imprensa da época. Ao longo dos anos seguintes, porém, a condução da investigação, a consistência das provas e a exposição dos acusados também passaram a ser discutidas.
Em outubro de 2003, quando a morte completou dois anos, familiares e amigos participaram de um ato em Ouro Preto para cobrar respostas. A mobilização foi acompanhada pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. O registro oficial daquele encontro já apontava divergências entre o Ministério Público e a Polícia Civil sobre o cumprimento de diligências.
Na ocasião, o advogado contratado pela família questionava a ausência de exames de DNA em vestígios encontrados em uma camiseta. A Polícia Civil sustentava ter cumprido os procedimentos solicitados. A mãe de Aline cobrava esclarecimentos sobre o que havia acontecido com a filha, enquanto o caso ainda aguardava encaminhamentos na Justiça.
Em outubro de 2006, a Justiça divulgou a decisão que mantinha o encaminhamento dos quatro acusados ao Tribunal do Júri. Foram levados a julgamento Camila Dolabella Silveira, prima da vítima, e Edson Aguiar, Maicon Fernandes Lopes e Cassiano Garcia, então moradores da República Sonata. Todos seriam absolvidos.
Antes do julgamento, houve adiamentos, registrados em outubro de 2008 e maio de 2009. A sessão começou em 1º de julho de 2009, quase oito anos depois do assassinato, e mobilizou familiares, moradores e profissionais da imprensa em Ouro Preto.
No tribunal, o Ministério Público sustentou que a estudante havia sido morta em um ritual relacionado a RPG. As defesas contestaram essa interpretação, apontaram a falta de provas que vinculassem os réus ao homicídio e questionaram a ausência de uma descrição da participação específica de cada um no crime.
Durante os interrogatórios, os acusados negaram envolvimento e criticaram tanto a investigação quanto a exposição pública sofrida ao longo do processo. Um dos argumentos apresentados foi o de que a hipótese envolvendo RPG teria concentrado a atenção da polícia, comprometendo a busca por outras explicações.
As defesas também questionaram a realização das perícias. Conforme os relatos publicados durante o julgamento, um laudo apresentado no tribunal permitia afirmar com segurança a presença de um agressor, o que foi utilizado para confrontar a versão de uma ação coletiva.
Na madrugada de 5 de julho de 2009, depois de cinco dias de julgamento, os quatro réus foram absolvidos pelo Tribunal do Júri. A acusação reconheceu, após o resultado, que falhas na investigação policial tiveram peso no desfecho.
O Ministério Público recorreu para tentar anular o julgamento. Em 8 de junho de 2010, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais manteve a absolvição. Segundo a cobertura da decisão, a relatora, desembargadora Márcia Maria Milanez, considerou que não havia prova contundente capaz de atribuir a autoria aos acusados ou definir a participação de cada um, nem fundamento para cassar o veredicto dos jurados.
A repercussão do caso ultrapassou o processo criminal. A associação entre o assassinato, os jogos de RPG e elementos religiosos tornou-se objeto de estudos sobre Justiça e comunicação. Em 2012, a antropóloga Ana Leticia de Fiori defendeu, na Universidade de São Paulo, uma dissertação sobre as narrativas construídas em torno do caso Aline. O trabalho examinou o julgamento, a cobertura da imprensa e as expectativas de punição, além de discutir o linchamento moral dos acusados.
Para a família, os anos seguintes foram marcados pela ausência de uma resposta sobre a autoria. Em reportagem publicada neste mês, uma amiga de infância lembrou que havia combinado com Aline uma ida a uma festa à fantasia. O encontro nunca aconteceu. A mãe continua preservando fotografias e lembranças da filha.
Ao ser procurada pela imprensa neste mês, a Polícia Civil afirmou que não comenta inquéritos concluídos. O Ministério Público informou que perícias fundamentais não foram realizadas durante a fase policial e que algumas ocorreram somente anos depois, no decorrer do processo judicial.
Em 14 de outubro de 2026, o assassinato completou 25 anos. Dias depois, foi divulgada a preparação de uma série documental sobre o caso para o Disney+. Segundo as informações publicadas, a produção pretende revisitar a morte da estudante e os elementos reunidos em pesquisas sobre o episódio.
Em declaração repercutida pela imprensa, Mônica Albuquerque, responsável pelo Conteúdo Local da Disney, afirmou que a equipe dispõe de material de pesquisa e de “novos achados” que podem apresentar outra perspectiva sobre o caso. Esses elementos ainda não foram detalhados publicamente e não podem ser tratados como novas provas policiais.
Bruna Truocchio é repórter da Rádio Itatiaia Ouro Preto e apresentadora do jornal local. Formada em Jornalismo pela Universidade Estácio de Sá, tem pós-graduações em Filosofia e Marketing Digital.


