Estudo sobre geleiras já mostrava cenário alarmante no Nepal; veja os dados
Descubra como o derretimento acelerado das geleiras do Hindu Kush Himalaia afeta dois bilhões de pessoas e o que os relatórios anteciparam sobre desastres
Cinco meses antes das enchentes repentinas que mataram mais de 550 pessoas no Nepal, dois relatórios do Centro Internacional para Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD) já apontavam um cenário alarmante. As geleiras da região Hindu Kush Himalaia vinham perdendo gelo em ritmo acelerado, com taxa de derretimento que dobrou desde o ano 2000.
Os dados mostravam perda de até 27 metros de espessura de gelo glacial desde 1975. Entre 1990 e 2020, as geleiras da região perderam cerca de 12% de sua área total e 9% de suas reservas estimadas de gelo. O que poucos conectaram na época foi a relação entre esses números e os desastres que viriam.
A mudança no padrão de precipitação acima de 4.000 metros
A principal preocupação dos cientistas não está apenas no volume de gelo perdido, mas no tipo de precipitação que agora ocorre em altitudes elevadas. Está chovendo onde deveria nevar.
Um pesquisador do Instituto de Geologia Himalaia Wadia, órgão do governo central indiano sediado em Dehradun, explicou que o aquecimento pode estar alterando o padrão de precipitação nessas altitudes. Regiões que historicamente recebiam neve agora registram chuva.
Essa mudança climática contribui para o recuo acelerado das geleiras. O fenômeno tem consequências diretas para a estabilidade das encostas e o volume de água que desce das montanhas.
Os números que anteciparam o desastre
Os relatórios de março de 2026 do ICIMOD apresentaram dados específicos sobre a velocidade do derretimento glacial. A taxa de perda de gelo dobrou desde o ano 2000, um marco temporal que divide dois períodos distintos de velocidade de derretimento.
Entre 1990 e 2020, as geleiras do Hindu Kush Himalaia perderam aproximadamente 12% de sua área total. No mesmo período, as reservas estimadas de gelo diminuíram 9%. A perda de espessura alcançou até 27 metros desde 1975.
Esses números indicavam que partes da criosfera himalaia poderiam estar se aproximando de pontos críticos irreversíveis de recuo. A expressão técnica usada pelos pesquisadores foi "critical tipping points toward irreversible retreat".
A lacuna crítica no monitoramento glacial
Um dos relatórios publicados, o HKH Glacier Outlook 2026, analisou dados de 38 geleiras monitoradas na região. O estudo revelou uma deficiência preocupante: apenas sete dessas geleiras atendiam aos padrões globais de referência do Serviço Mundial de Monitoramento de Geleiras (WGMS).
Regiões com presença massiva de geleiras permaneciam amplamente sem monitoramento. Entre as áreas não cobertas adequadamente estavam Karakoram, Sikkim, Zanskar e Butão. Essa lacuna de dados dificulta a previsão de eventos extremos e a compreensão completa da dinâmica glacial.
O que pode ter causado as enchentes do Nepal
Pesquisadores do ICIMOD investigam atualmente se uma avalanche de gelo e rocha originada em alta altitude pode ter desencadeado as enchentes que mataram mais de 550 pessoas. Um grande volume de gelo e detritos rochosos pode ter entrado no Lende Khola, afluente do Rio Bhote Koshi, gerando uma onda repentina carregando água, sedimentos e pedras.
Mohd Farooq Azam, especialista sênior em criosfera do ICIMOD e professor associado do Instituto Indiano de Tecnologia Indore, conectou o evento à mudança climática. Segundo ele, a cobertura de neve está diminuindo e as geleiras estão recuando, expondo mais áreas rochosas ou áridas.
Essas superfícies expostas absorvem mais calor, tornando as encostas mais vulneráveis. Azam acrescentou que, embora a causa exata ainda precise ser determinada, os indícios apontam cada vez mais para menor cobertura de neve devido ao recuo das geleiras e degradação do permafrost.
A distribuição desigual das perdas glaciais
Os relatórios de março destacaram que as perdas de geleiras não ocorrem uniformemente pela região. A distribuição espacial mostra padrões específicos de vulnerabilidade.
A maior porcentagem de perda de área ocorreu nas montanhas orientais de Hengduan Shan, onde algumas áreas perderam até 33% de sua área glacial em apenas três décadas. As maiores perdas absolutas de área, entretanto, concentraram-se nas bacias dos rios Indo, Ganges e Brahmapoutra.
Essas três bacias abrigam mais de 74% das geleiras da região, sublinhando sua vulnerabilidade crítica. A concentração de perdas nessas bacias tem implicação direta para bilhões de pessoas que dependem desses sistemas fluviais.
A exposição ao aquecimento dependente de elevação
O Hindu Kush Himalaia contém o maior volume de gelo fora dos polos. São mais de 63.700 geleiras cobrindo área superior a 55.000 quilômetros quadrados, segundo o ICIMOD. Essas geleiras são fontes de 10 grandes sistemas fluviais asiáticos.
Pelo menos 78% da área glacial localizada entre 4.500 e 6.000 metros está altamente exposta ao aquecimento dependente de elevação. Esse fenômeno ocorre quando o aumento de temperatura é mais acentuado em altitudes maiores.
As geleiras sustentam segurança alimentar, hídrica, energética e de subsistência de bilhões de pessoas. Os relatórios indicaram que cerca de dois bilhões de pessoas a jusante dependem da água de degelo proveniente dessas "Torres de Água da Ásia".
Os dois relatórios que documentaram a aceleração
O ICIMOD, centro intergovernamental de conhecimento com sede em Catmandu, publicou dois relatórios cruciais em março de 2026. Os membros regionais da organização incluem Índia, Nepal, Butão e China, entre outros.
O primeiro relatório, intitulado "Changing Dynamics of Glaciers in the Hindu Kush Himalaya Region from 1990 to 2020", documentou as mudanças ao longo de três décadas. O segundo, "HKH Glacier Outlook 2026: Insights from 50 Years of Himalayan Glacier Monitoring", analisou cinco décadas de monitoramento.
Ambos confirmaram que as geleiras do Hindu Kush Himalaia vinham perdendo gelo em velocidade crescente. A taxa de perda de gelo dobrou desde a virada do milênio, um dado que os pesquisadores consideraram forte indicação de aproximação de pontos críticos.
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