Oceanos contaminados: os poluentes industriais e farmacêuticos que chegam até o mar
Entenda quais substâncias químicas fabricadas pelo homem estão dissolvidas na água dos oceanos, onde se concentram e o que isso revela sobre a cadeia alimentar marinha

A água que cobre mais de 70% do planeta carrega um inventário químico que poucos imaginam. Pesquisadores analisaram 2.315 amostras de oceanos ao redor do mundo e identificaram as assinaturas de 248 compostos produzidos por atividades humanas — desde plásticos até restos de remédios para hipertensão.
Essas substâncias, chamadas xenobióticos, formam parte da matéria orgânica dissolvida nos oceanos. A descoberta representa uma das análises mais abrangentes já feitas sobre poluentes químicos dispersos na água marinha e acende um alerta sobre a presença dessas substâncias na cadeia alimentar oceânica.
O que são os compostos antropogênicos encontrados nos oceanos
Os 248 compostos identificados no estudo têm origem em atividades humanas e não existiriam naturalmente no ambiente marinho. A maior parte está ligada à produção de plástico, mas a lista inclui também medicamentos e pesticidas.
Entre os poluentes mais detectados estão polialquileno glicóis, ftalatos e organofosfatos. Os ftalatos tornam plásticos mais flexíveis e duráveis. Parte dos organofosfatos funciona como aditivo industrial, inclusive como retardante de chama.
A presença de resquícios de medicamentos como o atenolol, usado contra hipertensão arterial, e de inseticidas como DEET e icaridina, presentes em repelentes, surpreendeu pela amplitude da dispersão.
Como os pesquisadores detectaram os poluentes na água
A tecnologia usada funciona como um radar químico, não como uma balança. Ela aponta que o poluente está presente e mostra o quanto ele se destaca no conjunto total de substâncias da amostra.
O método revela quais produtos químicos estão na água e a proporção deles no todo, mas não mede a quantidade exata em gramas ou miligramas. Para ter esse número preciso, os cientistas precisariam fazer testes específicos para dosar cada poluente individualmente.
Alguns compostos só foram detectados por meio de redes moleculares. Essa ferramenta agrupa os poluentes de acordo com semelhanças na estrutura das moléculas. Assim, mesmo que uma substância específica não esteja cadastrada em bancos de dados, os cientistas conseguem identificá-la ao compará-la com moléculas parecidas já conhecidas.
Onde a contaminação química é mais intensa
As amostras foram coletadas entre 2017 e 2022 em diversos pontos dos oceanos Índico, Atlântico Norte, Pacífico Central e Oriental, incluindo o Mar Báltico e o Caribe. A distribuição dos poluentes não é uniforme.
A presença dos compostos foi muito mais intensa em regiões costeiras. O sinal químico ultrapassou 20% da composição das amostras em algumas áreas, podendo chegar a 76% em locais onde rios que recebem efluentes se encontram com o mar.
Nas áreas de mar aberto, distantes da costa, o sinal encontrado foi bem menor, em média 0,5%. Ainda assim, segundo Bruno Ruiz Brandão da Costa, coautor brasileiro do estudo, "é um número significativo, considerando que esses pontos estão bem distantes de atividades humanas".
Tipos de poluentes e sua distribuição geográfica
Os poluentes industriais foram os mais abundantes nas amostras de modo geral, principalmente os de origem petroquímica. Os cinco mais detectados apareceram em mais de 30% de todas as amostras analisadas.
Fármacos foram os mais pronunciados em amostras coletadas em áreas de estuário ou perto delas, principalmente em regiões urbanizadas. Entre os medicamentos, cinco metabólitos apareceram em 10% a 37% das amostras.
Os sinais mais intensos de pesticidas estavam na costa da África do Sul e no Caribe, mas foram quase inexistentes nas amostras de oceano aberto. DEET e icaridina, usados em repelentes, foram detectados em 30% e 6% das amostras, respectivamente.
Medicamentos mais detectados na água marinha
O metabólito mais frequente foi um derivado do atenolol, medicamento usado no tratamento para hipertensão. Ele apareceu em proporção significativa das amostras analisadas.
Na sequência vieram delorazepam, um benzodiazepínico usado para tratamento de ansiedade; ácido nalidíxico, um antibiótico; cloroquina, antimalárico também empregado em algumas doenças autoimunes; e valsartana, outro anti-hipertensivo.
Costa ressalta que a detecção não está ligada apenas ao uso amplo das substâncias, mas também a características como persistência e comportamento das moléculas no ambiente. Essas propriedades influenciam por quanto tempo permanecem na água e quão facilmente podem ser identificadas.
Por que esses compostos são preocupantes
Os resultados trazem mais evidências de que compostos orgânicos produzidos por atividades humanas, incluindo substâncias associadas a plásticos, já contribuem para uma porção substancial da matéria orgânica dissolvida nos oceanos.
Essas substâncias podem influenciar, de maneiras ainda pouco compreendidas, o ciclo do carbono e o funcionamento dos ecossistemas marinhos. Alguns desses compostos chamam atenção por riscos ambientais e à saúde já descritos na literatura científica.
Segundo Costa, que atualmente realiza pós-doutorado no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e no Instituto de Pesquisas Ambientais, a descoberta acende um alerta sobre a presença de substâncias nocivas na cadeia alimentar marinha.
A importância do monitoramento contínuo e padronizado
Os autores concluem que os resultados apontam a necessidade de monitorar os poluentes de forma contínua e padronizada. Os dados precisam ser organizados e compartilhados segundo os princípios da ciência aberta, com acesso gratuito.
Dessa forma, outros pesquisadores poderão acessá-los e utilizá-los em outros estudos. Isso ajuda a ampliar a reprodutibilidade das análises e a compreender melhor os impactos dos compostos produzidos por humanos nos ecossistemas marinhos.
O professor da UC Riverside e coordenador do projeto, Daniel Petras, busca parceiros em outras partes do mundo para expandir a pesquisa. Futuras investigações devem incluir áreas que ficaram de fora pela falta de estudos anteriores, como o Atlântico Sul, que banha a costa brasileira.
O que ainda precisa ser estudado
O pesquisador lembra que futuras investigações devem incluir regiões que não foram contempladas. O Atlântico Sul, por exemplo, ficou de fora por ausência de estudos anteriores utilizando a mesma metodologia.
Costa pondera que "este é um dos estudos mais completos sobre a presença de poluentes na matéria orgânica dissolvida do oceano. Porém, ainda é uma primeira análise, que pode ser expandida para estudos mais focados em determinados poluentes e incluir outras regiões do planeta".
A pesquisa abre caminho para análises mais específicas sobre como cada tipo de poluente se comporta no ambiente marinho, quanto tempo persiste e quais efeitos exerce sobre os organismos aquáticos.
A Rádio de Minas. Tudo sobre o futebol mineiro, política, economia e informações de todo o Estado. A Itatiaia dá notícia de tudo.



