Desastres durante o verão matam 107 pessoas e geram perdas bilionárias no Brasil
Excesso de chuvas resultou em 1.084 decretos de situação de anormalidade registrados em 702 municípios, segundo os cálculos da CNM

Pelo menos 107 pessoas morreram vítimas de desastres climáticos no Brasil durante o último verão, de acordo com levantamento feito pela Confederação Nacional de Municípios (CNM). Além da tragédia humanitária, o estudo apontou que inundações, enxurradas, alagamentos, deslizamentos e colapsos de edificações causaram um rombo bilionário aos cofres das cidades atingidas, algo em torno de R$ 3,8 bilhões, prejuízo equivalente a quase quatro prêmios da Mega da Virada sorteada em dezembro passado.
Os números alarmantes foram extraídos da plataforma “Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD)”, do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, com base nos decretos municipais de situação de anormalidade. Em relação às mortes, diante de situações específicas e da gravidade dos desastres, a CNM também precisou solicitar informações complementares às defesas civis estaduais para chegar aos dados.
O excesso de chuvas durante o último verão no Brasil, período entre 21 de dezembro de 2025 e 20 de março de 2026, resultou em 1.084 decretos de situação de anormalidade registrados em 702 municípios, segundo os cálculos da CNM. Esse número representa um crescimento de 50% em comparação ao verão anterior, quando 722 decretos semelhantes foram assinados no país, o que mostra a força dos impactos severos sobre a população, a infraestrutura pública e a economia local.
Das 107 mortes registradas durante o verão no Brasil, 103 ocorreram em 2026. Minas Gerais é o estado mais castigado, com 73 mortes somente em Juiz de Fora e Ubá. Também houve registros de óbitos relacionados às chuvas nas cidades mineiras de Cataguases, Eugenópolis, Itajubá, João Pinheiro, Mendes Pimentel, Muriaé, Mutum, Porteirinha, Pouso Alegre, Sabará, Santa Rita de Caldas e São Thomé das Letras. No sábado, 21 de março, um dia após o fim do período oficial do verão, uma mulher morreu em Belo Horizonte após ser arrastada por uma enxurrada durante o temporal que caiu sobre a capital mineira.
Entre as demais cidades brasileiras que tiveram ao menos um óbito em decorrência das catástrofes climáticas em 2026, conforme a CNM, estão: Capitão Poço (PA), Redenção do Gurguéia (PI), Angra dos Reis, Barra Mansa, Paraty e São João do Meriti (RJ), Sorocaba e Ubatuba (SP). Dos R$ 3,8 bilhões em prejuízos, cerca de R$ 2 bilhões correspondem aos cofres públicos municipais, R$ 1,5 bilhão em perdas no setor privado, que inclui agricultura, pecuária, indústria e comércio, e R$ 365 milhões são referentes ao setor habitacional, com 43,7 mil moradias danificadas ou destruídas.
Os municípios com os maiores prejuízos econômicos e financeiros foram Ubá (MG), com R$ 313,7 milhões, Massaranduba (SC), com R$ 179,7 milhões, Santa Carmem (MT), com R$ 171,9 milhões, Cândido Godói (RS), com R$ 137,3 milhões, e Sabará (MG), com R$ 113,5 milhões. Cerca de 3,5 milhões de pessoas foram afetadas pelas chuvas em todo o país. Desse total, 14 mil ficaram desabrigadas e 120 mil foram desalojadas.
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De acordo com Paulo Ziulkoski, presidente da Confederação Nacional de Municípios (CNM), a prevenção e o enfrentamento de crises decorrentes de desastres demandam ações federativas coordenadas. “Tais como o mapeamento de áreas de risco, a elaboração de estudos de identificação de ameaças, suscetibilidades e vulnerabilidades, além de atividades de prevenção, mitigação, preparação, resposta e recuperação”, detalha.
No início deste mês, por exemplo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou uma Medida Provisória para liberar um crédito extraordinário de R$ 266,5 milhões, em favor do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, para ações de resposta ao desastre provocado pelas fortes chuvas na Zona da Mata mineira. Entre as medidas adotadas pelo Governo de Minas está a antecipação de até seis parcelas do Piso Mineiro de Assistência Social, iniciativa que tem o objetivo de ampliar a capacidade de resposta dos municípios em situações de emergência.
Como reduzir mortes e prejuízos econômicos?
Para Luiz Rafael Palmier, professor titular do Departamento de Engenharia Hidráulica e Recursos Hídricos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a urbanização das cidades teria que ser precedida de instrumentos de planejamento para que fossem identificadas áreas de risco que não poderiam ser ocupadas, principalmente com construções que não seguem a boa prática da engenharia. Diante do crescimento desordenado de muitas cidades, os desafios se multiplicam.
“No mínimo, o que deve ser feito nas cidades sujeitas a chuvas intensas é melhorar a capacidade de convivência com os riscos por meio da adoção de medidas que permitam prever com a devida antecedência a ocorrência de eventos de chuva de grande intensidade associadas a sistemas de alerta que possibilitem a evacuação de populações em áreas de risco, diminuindo danos materiais e evitando perdas de vidas humanas. Para isso, é essencial investir recursos para aprimorar o monitoramento de variáveis climáticas e o mapeamento de áreas de risco”, explica.
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Ainda segundo o professor, o foco dos municípios tem que ser na elaboração de instrumentos de planejamento – por exemplo, Planos Diretores de Drenagem Urbana e Planos Municipais de Saneamento Básico – para que sejam identificadas ações de médio prazo e, principalmente, de longo prazo. Nesses planos seriam definidas as necessidades de implementação de novas obras.
“Não é incomum que sejam realizadas obras pontuais que não seguem um planejamento integrado de ações para a diminuição dos riscos. Por fim, as ações de curto prazo, como a limpeza de bueiros e o desassoreamento de cursos d’água, também devem seguir um planejamento de atividades – nesse caso, um planejamento de atividades periódicas de manutenção”, conclui.
Formado em Jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), é chefe de reportagem na Itatiaia. Trabalhou durante 10 anos no jornal Estado de Minas, onde foi estagiário, repórter, capista, subeditor e editor-assistente do em.com.br e do portal UAI. Também colaborou com matérias para o portal UOL e foi assessor de imprensa no Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM).



