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Humanidade e técnica: os relatos de Bombeiros que atuaram nas chuvas em Juiz de Fora

Os profissionais que se dedicam a salvar vidas são os protagonistas da última matéria da série em homenagem aos 176 anos de Juiz de Fora

Por e , Juiz de Fora
Chuva história provoca desastre em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira
Chuva história provoca desastre em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira • PABLO PORCIUNCULA / AFP

“Amigos certos nas horas incertas”, ser um Bombeiro Militar exige treinamento, preparo físico, técnico e psicológico para agir nas situações mais delicadas. Um trabalho que lida diretamente com pessoas em momentos mais vulneráveis e com a vida em risco, geralmente em contextos instáveis e perigosos.

Os integrantes do 4º Batalhão foram colocados à prova a partir de 23 de fevereiro, com a tragédia das chuvas em Juiz de Fora. Efetivo de outros locais do Estado com experiência em desastres também foram mobilizados nos trabalhos de buscas que duraram até o sábado (28), com a localização dos últimos corpos.

Na terceira matéria da série Relatos – dividida em duas partes –, a Itatiaia conversou com o Tenente Bridi, o Tenente Fonseca, o Tenente Augusto e o Subtenente Denilton contaram detalhes das atuações em pontos críticos, o cuidado com as pessoas em que estavam na emergência e o apoio da comunidade durante a operação de buscas.

Ouça a primeira parte da entrevista com os integrantes do Corpo de Bombeiros

Um cenário complicado

O grande volume de chamados naquela noite de segunda-feira disparou um alerta: mobilização imediata de todo o efetivo no Batalhão para se equiparem e partirem para os atendimentos

A primeira ocorrência que o subtenente Denilton Dias Ferreira atendeu foi monitorar a própria família e socorrer vizinhos.

“Meus pais estavam com a casa debaixo d'água pela segunda vez. A partir do momento que eu fui determinado para ir para o quartel, eu percebi que o meu bairro também estava ilhado e o outro lado tinha queda de barragem. Na rua próxima da minha também, teve um desabamento, mas não teve vítima, então a gente deu um apoio lá na primeira resposta. Tirei minha família da casa porque o bairro estava sem luz, sem água, mas eu levei para casa da minha sogra. E eu fui atuar, aí fiquei por conta”.

O Tenente Daniel Bridi foi para o Parque Burnier, na zona Sudeste, onde se deparou com a necessidade de entender o que houve, organizar a situação e iniciar uma busca que não tinha hora para acabar.

“Tinha muitos populares ainda dentro e em cima dos escombros, no desespero e no afã de querer ajudar. Então, num primeiro momento, foi um trabalho de colocar pessoas que estavam em risco em local de segurança, porque era muito fácil de acontecer novos acidentes. Depois, imediatamente, já começamos a procurar. A gente conseguiu ainda retirar algumas vítimas vivas do local e depois foram mais de 24h procurando, buscando, incansavelmente”.

“Meu Deus, o que aconteceu?”

Diante de um panorama que nunca viveu antes na carreira, Subtenente Denilton ressaltou o apoio da família para manter o emocional firme neste período.

“Ter alguma fé, independente qual seja, eu acho que é uma coisa importante, eu tenho minha fé, sou católico. A gente tem família, eu tenho meu ponto seguro para voltar, conversar, chorar, seja o que for. Isso é importante demais, a gente estar sempre junto, sempre ter esse ponto para voltar”.

Tenente Bridi lembra que a corporação possui um serviço de psicológicos para dar o apoio aos Bombeiros Militares, ao longo da tragédia.

“O emocional eu acho que ele vem depois, que a gente olha e fala, meu Deus, o que aconteceu? Temos um corpo técnico de psicólogos dentro da corporação que nos acompanha e esteve junto com esses militares. Todos nós temos familiares, e estávamos mexendo com mãe, pais, filhos e filhas de alguém. Isso mexe muito com o nosso emocional”.

Tenente Bridi ressalta que a responsabilidade com as vítimas superou o cansaço e desgaste físico de trabalhar em uma situação extrema como a que aconteceu em Juiz de Fora.

“Agente está no afã de querer ajudar, com a vontade de querer salvar, não é o salário que paga. O que paga é, às vezes, um sorriso de um familiar por ter devolvido o parente que estava em situação difícil, ou mesmo o consolo que a gente pode dar para uma família que estava com um ente perdido, e, às vezes, mesmo em óbito, foi repassado para encerrar esse ciclo de uma forma digna. E, nesse momento, a gente não consegue falar em cansaço. O físico vai pesando, mas a nossa mente vai fazendo com que a gente continue”.

Subtenente Denilton lembra que a prioridade é colocar em prática tudo o que foi preparado para fazer.

“Nossa profissão faz a gente colocar a vida do outro na frente da nossa. O que importa é a gente resolver aquele problema dependendo do que está acontecendo. Então, tem hora que você releva o emocional. Eu sei o que fazer, tem como fazer, tem como resolver, tem como ajudar. Então, a partir desse momento, a gente consegue dar resposta de uma forma eficiente, com tranquilidade, lógico, e com segurança, apesar de ser uma situação totalmente insegura”.

Juiz de Fora foi a cidade mais afetada no período chuvoso deste ano • Tomaz Silva/Agência Brasil
Juiz de Fora foi a cidade mais afetada no período chuvoso deste ano • Tomaz Silva/Agência Brasil

Ouça a segunda parte da entrevista com os integrantes do Corpo de Bombeiros

“Antes de sermos profissionais, somos seres humanos”

O tenente Henrique Fonseca também esteve na equipe que trabalhou no bairro Parque Burnier e explica como a atuação deve ser técnica e, principalmente humana.

“A gente tenta, da melhor forma possível, acalmar as pessoas para que nos auxiliem. Nós precisamos entender a cena, precisamos entender onde estavam as residências, qual o número de moradores que estavam dentro delas, qual era a posição de cada uma dentro de casa”.

O Tenente Augusto atuou com equipes no bairro Paineiras, que também foi um dos mais atingidos na cidade. Ele passou a noite ao lado de uma vítima, que foi resgatada com vítima, mas não resistiu aos ferimentos e morreu no hospital. E ao longo dos dias de busca, Tenente Augusto ressalta o apoio e o carinho da comunidade com todos os envolvidos nas buscas.

“Pessoas que levam café, levam às vezes um pedaço de pão, começam a se preocupar com o almoço. E quando você olha, você tem diversos voluntários que estão ali querendo ajudar, não só levando às vezes algum alimento ou uma água, mas ali levando o próprio esforço físico, ajudando com uma enxada, com uma pá, a tirar aquela lama para que a gente pudesse conseguir acessando o local e encontrar as vítimas”.

O tenente Henrique Fonseca destaca o impacto na corporação de tudo que viveu e lutou ao longo da resposta à tragédia de fevereiro.

“A gente vê isso nitidamente na tropa. A percepção de segurança, muda, o comportamento deles mudam, eles começam a ser mais cautelosos, checam mais os equipamentos, os EPIs. Isso é um reflexo do que eles passaram. Então a preocupação deles é se vai acontecer de novo, o tempo fechou, será que a gente vai ter isso de novo?”

 

 

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Natural de Juiz de Fora, jornalista com graduação e mestrado pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Experiência anterior em Rádio, TV e Internet. Gosta de esporte, filmes e livros. Editora Web na Itatiaia Juiz de Fora desde 2023. Tricampeã na categoria Web/Mídias Digitais no Prêmio Oddone Turolla de Jornalismo, do Sindicomércio JF.

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Joubertt Telles é graduado em jornalismo pelo Centro Universitário Estácio Juiz de Fora, em 2010, e possui curso de Processo de Comunicação e Comunicação Institucional pela Fundação Getúlio Vargas. Trabalha na Itatiaia Juiz de Fora desde 2016, como repórter e apresentação. Prêmio Sindicomércio de Jornalismo 2017, na categoria rádio. Prêmios do Instituto Cultura do Samba como destaque do jornalismo local, em 2016 e 2017. Já atuou na Rádio Globo Juiz de Fora, TVE e Diário Regional, além de ter desempenhado função de assessor parlamentar na Câmara Municipal de Juiz de Fora.

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Graduando em jornalismo pela UFJF, Michel Santos é estagiário da Itatiaia em Juiz de Fora. Apaixonado por esportes, videogames e fã aficcionado de automobilismo.