Fé, amizade e sociabilidade: livro reúne correspondências de Murilo Mendes
Partindo de como a fé católica se manifestou na obra do poeta juiz-forano, pesquisador Leandro Garcia encontrou correspondências inéditas entre ele e personalidades literárias e católicas.

Em um mundo tão digital, as correspondências manuscritas se tornam ainda mais reveladoras de um período, uma linguagem e espaço de intercâmbio de ideias. Quando os autores são dois grandes nomes da literatura nacional, o resultado se desdobra em conhecimento e arte.
Nesta quinta (27), às 19h, será lançado "Correspondência e Eternidade: Cartas de Murilo Mendes a Alceu Amoroso Lima e Outros", organizado e anotado pelo pesquisador Leandro Garcia no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Resultado de uma pesquisa dedicada à correspondência de Murilo Mendes, o livro publicado pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp) reúne documentos produzidos ao longo de décadas de contato entre o poeta e importantes nomes da literatura e da cultura brasileira, com destaque para amizade com o escritor, crítico literário e intelectual católico Alceu Amoroso Lima.
Além disso, será a inauguração na galeria Poliedro, da exposição homônima que faz o diálogo entre os documentos reunidos na pesquisa e o acervo da instituição. O Museu de Arte Murilo Mendes fica na Rua Benjamin Constant, 790 no Centro de Juiz de Fora. A entrada é gratuita e as visitações podem ser feitas de terça a sábado, das 9h às 18h, e aos domingos e feriados, das 13h às 18h.
A conversão religiosa como fio condutor
O autor é o pesquisador Leandro Garcia, mestre e doutor em estudos literários pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e professor de teoria literária e literatura comparada na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O livro nasceu do pós-doutorado em teologia onde ele pesquisou sobre como a fé se manifestou na obra poética de Murilo Mendes.
"Estudei, aprofundei, analisei qual o papel da conversão religiosa na literatura. Porque tanto Alceu Amoroso Lima quanto Murilo Mendes, foram convertidos ao catolicismo. Murilo de uma forma mais intensa ainda do que Alceu. Alceu seria talvez um agnóstico que se converteu ao catolicismo, e Murilo estava mais até para o campo do ateísmo. E quando se converte, no caso de Murilo Mendes, que foi poeta, quais foram os reflexos dessa conversão religiosa na obra poética dele?"

O pós-doc durou dois anos. Durante a pesquisa, Leandro Garcia esteve no MAMM e analisou todos os livros da coleção muriliana sobre espiritualidades cristã e oriental. A preparação do "Correspondência e Eternidade" levou três anos até ficar pronto, como explica Leandro Garcia. "Essa correspondência rica entre Murilo Mendes e Alceu é inédita. Então tive que transcrever os manuscritos e depois analisar os manuscritos das cartas em rodapé".
Murilo Mendes e Alceu Amoroso Lima foram amigos por mais de 40 anos, entre 1930 a 1974, passando por diferentes momentos da vida intelectual, artística e religiosa do poeta juiz-forano, manifestados em diferentes formatos, conforme a pesquisa de Leandro Garcia.
"O livro é muito rico também em imagens, fotografias. Tem uma sessão que é só de cartões postais enviados por Murilo para lideranças poéticas, literárias, católicas também no Brasil, e cartões postais para o próprio Alceu", afirmou.

Correspondências com outras personalidade, como Ismael Nery e Frei Benevenuto de Santa Cruz, também fazem parte da pesquisa, neste panorama das redes de sociabilidade e intercâmbio intelectual construídas pelo poeta ao longo de sua vida.
"A correspondência não é só a troca de cartas. A correspondência é também a troca de afetos, a troca de mensagens, a troca de sentimentos, tudo isso pode ser conferido no livro 'Correspondência e Eternidade', de forma escrita, e visualmente na exposição 'Correspondência e eternidade', que vai tentar demonstrar, em forma de imagens, tudo isso que o livro discute em palavras".

Legado em Juiz de Fora
Segundo Leandro Garcia, o livro e a mostra destacam que trajetória de Alceu Amoroso Lima chegou à Juiz de Fora pela filial do Centro Dom Vital na década de 1930, fundada pelos intelectuais católicos Joaquim Ribeiro de Oliveira e Henrique José Hargreaves. A sede local também apresentou Murilo Mendes à associação de católicos leigos.
O professor acredita que, após anos de correspondência, é provável que Murilo e Amoroso Lima tenham se conhecido pessoalmente no Centro Dom Vital. O grupo de intelectuais do município participaram da criação e fundação da Faculdade de Filosofia e Letras de Juiz de Fora (Fafile), que comemora 80 anos em 2026. E o Centro de Estudos Murilo Mendes, que deu origem ao Mamm, funcionou na antiga sede da Faculdade.
Natural de Juiz de Fora, jornalista com graduação e mestrado pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Experiência anterior em Rádio, TV e Internet. Gosta de esporte, filmes e livros. Editora Web na Itatiaia Juiz de Fora desde 2023. Tricampeã na categoria Web/Mídias Digitais no Prêmio Oddone Turolla de Jornalismo, do Sindicomércio JF.



