Review - Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties revivem clássico, mas tropeçam em mudanças
Remake moderniza combate e adiciona campanha inédita focada em Yoshitaka Mine, mas decisões narrativas e cortes de conteúdo dividem experiência

A série Yakuza — hoje rebatizada oficialmente como Like a Dragon — vive uma fase curiosa. Ao mesmo tempo em que tenta avançar para novas ideias e públicos, segue revisitando capítulos importantes de sua própria história. É exatamente nesse espaço que surge Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties, pacote lançado pela Sega em fevereiro deste ano e desenvolvido pelo Ryu Ga Gotoku Studio.
A coletânea reúne dois jogos: o remake de Yakuza 3, originalmente lançado em 2009, e “Dark Ties”, campanha inédita estrelada por Yoshitaka Mine, um dos antagonistas mais importantes daquele arco. A Itatiaia recebeu o game na versão de Nintendo Switch 2 para análise.
O resultado é uma experiência que acerta ao atualizar sistemas envelhecidos e tornar o combate muito mais dinâmico, mas também levanta questionamentos importantes sobre alterações na narrativa, remoção de conteúdos clássicos e a direção que os remakes da franquia estão tomando. Mas cuidado, se ainda não jogou Yakuza Kiwami 1 e 2, aqui vão alguns spoilers das primeiras histórias!
Um dos capítulos mais importantes de Kiryu
Em Yakuza Kiwami 3, o jogador volta a controlar Kazuma Kiryu após os acontecimentos de Yakuza 2. Longe da vida criminosa, o ex-yakuza tenta viver em paz administrando o orfanato Morning Glory, em Okinawa. A tranquilidade, porém, dura pouco: disputas políticas, interesses imobiliários e conflitos envolvendo o submundo japonês fazem Kiryu retornar ao centro do caos.
A estrutura principal da história permanece bastante fiel ao jogo original, incluindo a disputa envolvendo projetos ligados ao governo e a ameaça ao terreno onde fica o orfanato. Ainda assim, o remake introduz mudanças em ritmo, cenas e até em determinados acontecimentos do desfecho.
É justamente nesse ponto que o jogo mais divide opiniões.

Por um lado, há méritos claros na tentativa de modernizar o título. A ambientação de Okinawa continua sendo um diferencial importante dentro da franquia, oferecendo contraste ao tradicional distrito de Kamurocho. Além disso, personagens como Rikiya seguem funcionando muito bem emocionalmente e ajudam a sustentar os momentos mais humanos da campanha.
Por outro, algumas alterações narrativas parecem desconectadas do restante da obra. Certos acréscimos soam mais como preparação para futuros jogos do que como evolução natural da história original, criando um conflito entre preservar o legado de Yakuza 3 e reescrevê-lo.
Combate finalmente abandona fama antiga
Se existe um ponto em que Yakuza Kiwami 3 praticamente elimina um problema histórico do original, é no combate.
O Yakuza 3 de 2009 ficou marcado entre fãs pelo excesso de inimigos defensivos, que passavam boa parte das lutas apenas bloqueando ataques. O remake abandona esse modelo e entrega um sistema muito mais agressivo, rápido e responsivo.
Kiryu possui agora dois estilos principais de luta. O clássico “Dragão de Dojima” continua focado em golpes pesados e agarrões, enquanto o novo estilo “Ryukyu” introduz armas inspiradas em artes marciais de Okinawa. Nunchakus, escudos e até foices fazem parte do arsenal.

Na prática, o novo estilo transforma completamente o fluxo das batalhas. O combate ganha velocidade, criatividade e variedade, especialmente em confrontos contra grupos grandes de inimigos. Ainda existem problemas pontuais de câmera, colisão e tracking, mas a evolução em relação ao original é evidente.
Morning Glory muda de foco
Outra mudança importante envolve o orfanato Morning Glory. No jogo original, a rotina com as crianças ocupava parte relevante da campanha principal. Aqui, boa parte desse conteúdo foi transformada em atividades paralelas.
O jogador pode cozinhar, pescar, costurar, ajudar nos estudos das crianças e fortalecer vínculos com cada personagem do orfanato. A ideia funciona bem para aprofundar o lado mais humano de Kiryu, mas existe um problema estrutural: o jogo raramente faz esse conteúdo parecer realmente essencial.
Ao mesmo tempo, o remake força participação em outros modos secundários menos interessantes para avançar na campanha.
“Bad Boy Dragon” é o ponto mais irregular do remake
Entre as principais novidades está o modo “Bad Boy Dragon”, focado em gangues de motoqueiros. Kiryu ajuda um grupo feminino de Okinawa em confrontos contra facções rivais, participando de batalhas em larga escala.
Apesar da proposta diferente, o sistema rapidamente se torna repetitivo, com arenas semelhantes entre si e pouca variedade de objetivos. Além disso, o modo interrompe o ritmo da narrativa principal em momentos importantes. A sensação é que algumas dessas atividades existem mais para justificar novidades do remake do que por necessidade real da história.

Dark Ties expande Yoshitaka Mine
A segunda campanha do pacote é “Dark Ties”, experiência inédita protagonizada por Yoshitaka Mine. A história mostra a ascensão do personagem dentro do Clan Tojo antes dos eventos de Yakuza 3. Mine surge como um empresário brilhante que tenta compreender os conceitos de lealdade, família e irmandade dentro do universo yakuza.
Narrativamente, Dark Ties aprofunda principalmente Daigo Dojima e o funcionamento interno da organização criminosa. Mine ganha mais contexto e motivação, embora a campanha nem sempre consiga transformar completamente a percepção do personagem.
O conteúdo funciona quase como um “Gaiden”, semelhante ao que aconteceu com Majima em Kiwami 2, mas em escala maior. No gameplay, Mine possui um estilo de luta único, focado em golpes rápidos, combos aéreos e agressividade constante. O sistema é divertido e combina bem com o personagem, especialmente durante o modo “Dark Awakening”.

O destaque extra fica para “Survival Hell”, modo roguelike de arenas subterrâneas que acaba sendo uma das atividades mais interessantes de todo o pacote. Ainda assim, Dark Ties sofre com duração relativamente curta e excesso de tarefas secundárias obrigatórias para prolongar a campanha.
Visual moderno, mas sem o mesmo impacto
Visualmente, Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties segue o padrão recente da franquia. Os modelos de personagens estão atualizados, as animações principais são boas e Okinawa ganhou nova identidade visual.
Entretanto, o remake perde parte da atmosfera mais crua do original. A direção artística parece mais homogênea em relação aos jogos recentes da série, reduzindo a sensação de identidade própria que Yakuza 3 tinha em 2009. Também existem inconsistências técnicas perceptíveis, especialmente em iluminação, texturas e animações secundárias.
No Nintendo Switch 2, o desempenho é sólido na maior parte do tempo. O jogo mantém boa estabilidade, com quedas ocasionais em cenas mais pesadas. Não há grandes problemas técnicos graves. No geral, é bem bonito!
Conteúdo removido pode incomodar fãs antigos
Um dos pontos mais controversos envolve os cortes realizados no remake.
Diversas substories do original foram removidas, assim como sistemas clássicos como “Revelations” e algumas atividades secundárias tradicionais da franquia. O número reduzido de missões paralelas faz com que Kiwami 3 seja significativamente menor do que o Yakuza 3 original em termos de conteúdo bruto.
Ao mesmo tempo, o jogo adiciona emulação de títulos clássicos de Game Gear, incluindo Sonic Chaos, Streets of Rage, Pac-Man e Puyo Puyo.
Vale a pena?
Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties acerta ao modernizar um dos jogos mais datados da franquia em termos de gameplay. O combate finalmente alcança o padrão de qualidade esperado dos jogos modernos da série, Okinawa continua sendo um cenário marcante e Dark Ties adiciona contexto interessante ao universo de Yakuza.
Porém, o pacote também evidencia uma crise de identidade nos remakes da franquia. As mudanças narrativas dividem, parte do conteúdo clássico desapareceu e algumas novidades parecem artificiais dentro da estrutura original.
Ainda assim, para novos jogadores, Kiwami 3 é provavelmente a forma mais acessível e confortável de conhecer esse capítulo da história de Kiryu.
Nota final: 3,8/5
Jornalista formado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte - UniBH. Já atuou em diversas áreas do jornalismo, como assessoria de imprensa, redação e comunicação interna. Apaixonado por esportes em geral e grande entusiasta dos e-sports






