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Presença da mulher na arquibancada é uma punição ao clube?

Medida inédita adotada no Paraná permitiu apenas mulheres e crianças de até 12 anos nas arquibancadas do Couto Pereira 

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Torcedoras fazem festa para o Coritiba nas arquibancadas do Couto Pereira
Torcedoras fazem festa para o Coritiba nas arquibancadas do Couto Pereira • Franz Fleischfresser | Coritiba

No último final de semana, uma cena chamou atenção no mundo do futebol: as arquibancadas do estádio Couto Pereira, casa do Coritiba, foram tomadas por mais de oito mil mulheres e crianças que cantaram e apoiaram o Coxa rumo à sua primeira vitória na temporada 2023, diante do Aruko, pelo Campeonato Estadual.

O que faltava na festa? Os homens. Sim, eles foram proibidos de acessar o estádio.

A medida, inédita no Brasil, foi acatada pelo Tribunal de Justiça Desportiva do Paraná (TJD-PR) para reverter, de forma parcial, a perda de mando de campo pelas confusões que envolveram Coritiba e Athletico Paranaense em um clássico disputado no ano passado. Na oportunidade, torcedores dos dois times se enfrentaram no Couto Pereira.

Coritiba e Athletico foram punidos com jogos de portões fechados, mas a decisão foi revertida por uma medida disciplinar, que permitiu, portanto, apenas a presença de mulheres e crianças de até 12 anos nos jogos, com ingressos gratuitos trocados por 1 kg de alimento.

O Coritiba já cumpriu uma partida nesse formato, e o Furacão jogará com o público limitado no próximo sábado, dia 21 de janeiro.

A celebração realizada pelas torcedoras do Coritiba foi um lindo exemplo da força feminina que vem das arquibancadas. Bandeiras, tambores, cantos sincronizados e uma festa que não perde, em nada, daquilo que é feito pelos homens, que em todo o mundo são maioria nos jogos de futebol.

A festa foi feita por mulheres - as principais vítimas de assédio moral e sexual nos estádios. O grito das arquibancadas veio de torcedoras que, muitas vezes, nem ao menos se sentem seguras para acompanhar o seu time do coração de perto.

Sem dúvidas, a medida foi uma ótima alternativa para trazer ao estádio uma minoria que por vezes ainda é ignorada. Uma decisão que afastou do campo aqueles que ainda confundem futebol com violência - que em sua maioria são homens.

Mas fica o questionamento: contar apenas com mulheres nas arquibancadas pode ser considerada uma punição?

A decisão acatada pelo TJD do Paraná não soa, no mínimo, como machista? Afinal, a “força” das torcedoras é menos poderosa que a dos homens? Entende-se que as mulheres não sabem torcer e por isso o time mandate seria prejudicado? Assunto, no mínimo, controverso.

Espero que a cena das arquibancadas lotadas de mulheres se repita por muitas vezes, em todos os estádios brasileiros. Mas que isso não seja visto como punição, e sim como direito.

E que o episódio seja um ensinamento aos clubes, para que promovam, cada vez mais, a presença segura e confortável de suas torcedoras nos jogos de futebol.

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Nathália Fiuza é comentarista da Rádio Itatiaia e escreve diariamente aqui.