Ex-técnico do
“Foi uma experiência extraordinária. Cruzeiro, Ronaldo, todo aquele contexto… numa palavra: grandioso”, escreveu.
Elogios a Ronaldo
Durante o texto, Pepa destacou a grandeza de Ronaldo para o mundo do futebol. Segundo o treinador, conhecer o principal responsável pelo pentacampeonato do Brasil na Copa do Mundo foi fantástico.
“Para mim, teve um significado ainda mais especial. Quando era pequeno, jogava de ponta de lança e, como acontece com todos nós, tinha os meus ídolos. Naquela altura eram dois: Marco Van Basten e Ronaldo, o Fenómeno. Lembro-me perfeitamente do final de carreira do Van Basten, um finalizador absolutamente extraordinário, e do aparecimento do Ronaldo, que começou a ganhar enorme projeção por volta de 1994, no Mundial dos Estados Unidos, mesmo sem ter jogado muito”, declarou.
O português lembrou também de um momento difícil que o Cruzeiro viveu sob seu comando. À época, a equipe tinha dificuldades para marcar gols.
“Na altura, o Cruzeiro jogava muito bem. Jogávamos mesmo bem. Éramos competitivos, discutíamos os jogos olhos nos olhos com Flamengo, Palmeiras, Botafogo, com qualquer equipe. Em casa ou fora era igual para nós. O problema era outro: falhávamos muitos gols. A equipa criava muito, jogava bem, mas essa produção não tinha correspondência em gols, e isso começava a pesar”, escreveu o treinador.
“Numa ocasião, durante uma conversa privada, e lembrando que, para o Ronaldo o golo era algo natural, quase como respirar, ele disse-me: ‘Professor Pepa, sabes qual é a minha opinião? O problema dos avançados não é técnico. Muitas vezes é a pressa. Não têm problema nenhum em demorar mais meio segundo ou um segundo a executar. A pressa faz tomar decisões erradas e executar mal. O que eles não podem é ficar afobados’. Na altura, até perguntei o significado da palavra. ‘Afobado’. Afobado é ficar nervoso, ansioso, precipitado. E o Ronaldo continuou: ‘Se tiveres de demorar um bocadinho mais, demora. Porque, muitas vezes, nesse meio segundo a mais, a baliza vai parecer maior’, acrescentou.
“Aquilo fez-me todo o sentido. Há momentos do jogo em que o avançado precisa de ser explosivo, rápido, improvisar com o corpo, com o joelho, com o ombro, com o que for necessário. Mas há outros momentos — quando se isola, quando ganha espaço, quando já tirou a bola do defesa — em que o essencial é manter a calma, não ficar nervoso, não tremer. Às vezes, esse pequeno instante de serenidade torna a decisão muito mais clara”, completou.
Passagem de Pepa pelo Cruzeiro
- 25 jogos
- 7 vitórias
- 8 empates
- 10 derrotas
Leia o texto completo publicado por Pepa
“Conhecer o Ronaldo foi fantástico por várias razões. Na verdade, conhecer o Ronaldo já é algo extraordinário para praticamente todos os amantes do desporto, não apenas do futebol. Falo de conhecer um verdadeiro fenómeno, alguém que marcou gerações.
Para mim teve um significado ainda mais especial. Quando era miúdo jogava a ponta de lança e, como acontece com todos nós, tinha os meus ídolos. Naquela altura eram dois: Marco Van Basten e Ronaldo, o Fenómeno. Lembro-me perfeitamente do final de carreira do Van Basten, um finalizador absolutamente extraordinário, e do aparecimento do Ronaldo, que começou a ganhar enorme projeção por volta de 1994, no Mundial dos Estados Unidos, mesmo sem ter jogado muito.
Recordo também o Europeu de 1988, quando a Holanda venceu a União Soviética, naquela final inesquecível em que o Van Basten marcou um dos golos mais bonitos da história do futebol e terminou como melhor marcador da competição. Depois, no Milan, continuou a conquistar títulos e a demonstrar um nível impressionante. Quando vieram as lesões do Van Basten, começou a surgir o Ronaldo, e sendo eu também ponta de lança, a identificação foi imediata. Gostava de jogar com o número 9, marcava muitos golos e resolvia vários jogos, e naturalmente, olhava para ele como uma grande referência. O Van Basten foi o ídolo da minha infância; o Ronaldo, o da minha juventude.
Por isso, chegar a um clube onde o dono era precisamente o meu ídolo de juventude foi algo muito especial. Quando finalmente o conheci, e pelos momentos que, juntamente com a equipa técnica, tive o prazer de partilhar com ele, fiquei impressionado com várias coisas: o enorme conhecimento do jogo, a tranquilidade com que falava de tudo, a confiança que transmitia, a alegria constante e as inúmeras histórias que tinha para contar. Fazia perguntas muito pertinentes sobre a equipa, sobre os jogadores e sobre o momento competitivo. Percebia-se claramente a dimensão da sua experiência.
No Cruzeiro encontrei também um clube extraordinário em termos estruturais, diretivos e de massa adepta. Talvez na altura não tivesse ainda a capacidade financeira que tem hoje,mas a grandeza do clube sentia-se todos os dias. Foi uma experiência gigantesca, pela exigência, pela dimensão e pela responsabilidade que nos obrigava a dar sempre o melhor. Houve ainda um sentimento muito forte dentro da equipa técnica: a certeza de que estávamos preparados para desafios enormes, preparados para trabalhar em clubes grandes e responder a contextos de enorme exigência. Já tínhamos sentido isso noutras experiências, e voltou a confirmar-se ali. No fim de tudo, porém, os melhores avaliadores do nosso trabalho são sempre os jogadores. É no olhar deles, na forma como recebem a informação, no prazer com que treinam e trabalham diariamente, que percebemos se estamos no caminho certo. Depois vêm os resultados, a classificação, a direção, a torcida, e tudo isso é importante. Mas, para mim, a avaliação que realmente pesa é a dos jogadores.
Agora deixem-me contar uma história do Ronaldo e uma frase que levo para a vida.
Na altura, o Cruzeiro jogava muito bem. Jogávamos mesmo bem. Éramos competitivos, discutíamos os jogos olhos nos olhos com Flamengo, Palmeiras, Botafogo, com qualquer equipa. Em casa ou fora era igual para nós. O problema era outro: falhávamos muitos golos. A equipa criava muito, jogava bem, mas essa produção não tinha correspondência em golos, e isso começava a pesar.
Numa ocasião, durante uma conversa privada, e lembrando que, para o Ronaldo o golo era algo natural, quase como respirar, ele disse-me: “Professor Pepa, sabes qual é a minha opinião? O problema dos avançados não é técnico. Muitas vezes é a pressa. Não têm problema nenhum em demorar mais meio segundo ou um segundo a executar. A pressa faz tomar decisões erradas e executar mal. O que eles não podem é ficar afobados. Na altura, até perguntei o significado da palavra. “Afobado”. Afobado é ficar nervoso, ansioso, precipitado. E o Ronaldo continuou: “Se tiveres de demorar um bocadinho mais, demora. Porque, muitas vezes, nesse meio segundo a mais, a baliza vai parecer maior”.
Aquilo fez-me todo o sentido. Há momentos do jogo em que o avançado precisa de ser explosivo, rápido, improvisar com o corpo, com o joelho, com o ombro, com o que for necessário. Mas há outros momentos — quando se isola, quando ganha espaço, quando já tirou a bola do defesa — em que o essencial é manter a calma, não ficar nervoso, não tremer. Às vezes, esse pequeno instante de serenidade torna a decisão muito mais clara.
O Ronaldo dizia também outra coisa muito interessante: muitos remates vão à figura porque o olhar do jogador é naturalmente atraído para o guarda-redes. O guarda-redes mexe-se, chama a atenção, enquanto os postes e a barra estão parados. Se o avançado conseguir focar-se mais nos cantos da baliza, ignorando o movimento do guarda-redes, a probabilidade de sucesso aumenta.
São pequenos detalhes, mas fazem toda a diferença. E, curiosamente, era algo de que eu já falava muitas vezes com os meus avançados. Talvez também por ter sido ponta de lança, sempre senti uma ligação especial a essa posição e tive a felicidade de ajudar vários jogadores que passaram pelas minhas equipas a realizarem grandes épocas. Ouvir aquelas ideias pelo voz de alguém como o Ronaldo, um dos melhores pontas de lança que o futebol já viu, foi, mais do que uma confirmação, uma aprendizagem.
Era impressionante ouvi-lo afirmar tantas vezes:
“Professor, a equipa joga bem, constrói bem, defende bem… agora tem de fazer golo.”
E eu pensava: quem me dera que fosse sempre assim tão simples.
Foi uma experiência extraordinária. Cruzeiro, Ronaldo, todo aquele contexto… numa palavra: grandioso.
E houve ainda outra dimensão que me marcou muito: a mediatização.
Em Portugal já existe atenção mediática, claro, mas o Brasil é outra escala. É gigantesco. Não tinha averdadeira noção do que era até viver aquilo. Havia dias em que praticamente não se conseguia andar na rua com tranquilidade. É uma exposição enorme, permanente. Até a brincadeira do “Vin Diesel”, que em Portugal ficava limitada a um grupo mais restrito de pessoas, lá tornou-se viral. Toda a gente conhecia, toda a gente comentava. Foi mais uma prova da dimensão daquele contexto e da intensidade com que o futebol é vivido no Brasil. Nunca desistas dos teus sonhos, sabendo que, com coragem, trabalho e compromisso, chegamos lá. Mesmo que, por vezes, seja preciso ir à volta. Siga!”.