PEB 10 anos: o que mudou nos eSports na década? CEO da Player1 faz balanço
Leandro Valentim avaliou evolução da indústria, crescimento dos criadores de conteúdo, desafios financeiros do setor e os planos do Prêmio eSports Brasil para ampliar presença fora do eixo Rio-São Paulo

O mercado brasileiro de esportes eletrônicos mudou profundamente na última década. Para Leandro Valentim, CEO da Player1, empresa responsável pelo Prêmio eSports Brasil (PEB), a principal transformação do setor entre 2016 e 2026 foi a profissionalização da indústria.
À frente da premiação que completa dez anos em 2026, o executivo avalia que os eSports deixaram de ser um ecossistema movido quase exclusivamente pela paixão de comunidades e pioneiros para se tornar um segmento estruturado, com profissionais especializados em diversas áreas.
Em entrevista à Itatiaia, Valentim também falou sobre o crescimento dos criadores de conteúdo, a busca por sustentabilidade financeira, o preconceito ainda enfrentado pelos games e os planos de expansão do PEB para além do eixo Rio-São Paulo.
Profissionalização mudou cenário dos eSports
Segundo Valentim, a evolução mais significativa dos últimos dez anos foi a consolidação de uma estrutura profissional em torno dos esportes eletrônicos.
Quando o PEB foi criado, em 2016, grande parte da indústria era formada por entusiastas que ajudavam a desenvolver a cultura gamer competitiva no país. Com o passar dos anos, o cenário passou a incorporar especialistas de áreas que antes não tinham relação direta com os jogos.
"Hoje encontramos técnicos, scouts, psicólogos, advogados, gestores, especialistas em marketing e diversas outras carreiras que contribuem para o desenvolvimento do setor", afirmou. Para ele, essa evolução ajudou a transformar os eSports em uma indústria com relevância cultural, econômica e de entretenimento no Brasil.

Crescimento dos creators acompanhou mudanças do mercado
Ao longo da década, o PEB ampliou seu escopo e passou a reconhecer não apenas atletas e equipes, mas também criadores de conteúdo e personalidades do universo gamer. De acordo com Valentim, essa mudança aconteceu de forma natural, acompanhando transformações já presentes no mercado.
Ele cita que a premiação já havia criado categorias voltadas para circuitos femininos e inclusivos quando esses movimentos ganharam força dentro dos jogos competitivos. O mesmo ocorreu com os criadores de conteúdo. Para o CEO da Player1, os creators exercem papel fundamental na expansão da cultura gamer, ajudando a conectar comunidades, ampliar o alcance dos jogos e aproximar novos públicos dos campeonatos.
"Os eSports continuam sendo o coração da premiação, mas hoje entendemos que a cultura gamer é muito mais ampla e diversa", explicou.
Creators têm peso semelhante ao dos atletas?
O crescimento dos influenciadores digitais dentro do universo dos games fez surgir comparações com atletas profissionais. Na visão de Valentim, muitos criadores já possuem alcance, audiência e impacto comercial comparáveis aos principais nomes dos esportes eletrônicos. No entanto, ele não vê uma disputa por protagonismo.
Segundo o executivo, atletas e criadores desempenham funções diferentes dentro do ecossistema. Enquanto os jogadores profissionais constroem as histórias competitivas, disputam títulos e representam o país em torneios internacionais, os criadores ajudam a amplificar essas narrativas e expandir a relevância cultural dos jogos.
"Não vejo uma disputa por protagonismo, mas uma complementaridade que fortalece toda a indústria", afirmou.
Expansão para outras regiões do Brasil
Outro tema abordado foi a concentração histórica do mercado de eSports no eixo Rio-São Paulo.Valentim reconhece que organizações, publishers, criadores e plataformas ainda estão majoritariamente instalados nessas regiões. Mesmo assim, acredita que a paixão pelos jogos competitivos está espalhada por todo o país.
Como parte das comemorações dos dez anos do PEB, foi criado o PEB Experience Tour, iniciativa que leva experiências presenciais para diferentes cidades brasileiras.
A primeira parada ocorreu durante a Comic Nerd, em Rio Branco, no Acre. O evento contou com a presença do influenciador Gordox e serviu como teste para aproximar a premiação de comunidades fora dos principais centros do país. Segundo Valentim, o desafio agora é fazer com que essa diversidade regional também seja refletida dentro do próprio prêmio.
É verdade que boa parte dos principais atores do mercado (atletas, organizações, criadores, publishers e plataformas) ainda está concentrada no eixo Rio-São Paulo. Mas, após uma década acompanhando o crescimento dos esports no Brasil, temos convicção de que a paixão pelos jogos competitivos não tem fronteiras (...) O crescimento dos esports acontece em todos os cantos do Brasil e queremos aproximar a premiação das comunidades espalhadas por todo o país.
Sustentabilidade financeira ainda é desafio
Apesar da força da audiência brasileira nos games, transformar essa popularidade em um mercado financeiramente sustentável ainda é um desafio. Na avaliação do CEO da Player1, parte das dificuldades surgiu após o período de crescimento acelerado registrado durante a pandemia de Covid-19, fase que ficou conhecida no mercado como a "primavera dos eSports".
Após aquele momento, o setor passou por ajustes. Algumas marcas reduziram investimentos, projetos foram construídos com foco em resultados imediatos e parte da cobertura especializada perdeu espaço em veículos tradicionais. Mesmo assim, Valentim vê sinais positivos de recuperação.
"O principal desafio hoje é continuar construindo relações sustentáveis entre comunidade, marcas e produto", destacou. Como exemplo desse movimento, ele revelou que o Prêmio eSports Brasil registrou em 2025 o maior número de patrocinadores de sua história.
Games ainda enfrentam resistência cultural
Para Valentim, um dos obstáculos que permanecem para os games no Brasil é o reconhecimento cultural. Embora os videogames estejam entre as maiores formas de entretenimento do mundo, ele acredita que ainda existe resistência em parte da mídia tradicional e de alguns setores da sociedade.
Segundo o executivo, os esportes eletrônicos frequentemente ficam em uma espécie de "limbo editorial", sem espaço definido entre as editorias de esporte e cultura. Ele aponta que muitos ainda têm dificuldade em enxergar os games como uma manifestação cultural legítima, apesar da capacidade dos jogos de mobilizar milhões de pessoas diariamente.
"Ninguém questiona o impacto cultural do cinema, da música ou do futebol, mas os games ainda precisam justificar sua relevância em alguns ambientes", disse.
O que mudou entre o primeiro PEB e a edição de 2026
Ao comparar a edição inaugural do prêmio com a atual, Valentim afirma que a principal diferença está na maturidade do setor. Em 2016, o foco era provar a relevância dos eSports e dar visibilidade a uma cena ainda em busca de reconhecimento.
Dez anos depois, o PEB reúne atletas, organizações, publishers, criadores de conteúdo, patrocinadores, profissionais especializados e milhões de fãs. Para ele, a premiação deixou de ser apenas uma celebração dos campeões para se tornar um espaço de encontro e valorização de toda a cultura gamer brasileira.
"Se há uma década falávamos sobre o potencial dos eSports, hoje temos a oportunidade de discutir seu legado e ajudar a construir os próximos dez anos dessa história", concluiu.
Jornalista formado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte - UniBH. Já atuou em diversas áreas do jornalismo, como assessoria de imprensa, redação e comunicação interna. Apaixonado por esportes em geral e grande entusiasta de games.






