Trombofilia: entenda o diagnóstico de Mariana Rios e os riscos na gravidez
Especialista explica o que a ciência realmente comprova sobre a relação entre a alteração e complicações na gravidez

O relato de Mariana Rios sobre uma nova experiência de perda chamou a atenção para a trombofilia, alteração que pode exigir acompanhamento médico antes e durante a gravidez.
Segundo ela, foi durante a investigação do episódio que recebeu o diagnóstico, associado a uma maior predisposição à formação de coágulos no sangue.
A trombofilia ganhou visibilidade nos últimos anos e passou a ser responsabilizada por diversos problemas durante a gestação, especialmente os abortamentos.
Em entrevista à Itatiaia, a ginecologista e obstetra Gisele Maciel explica que é fundamental separar o que tem associação bem estabelecida pela ciência do que ainda é controverso ou carece de evidências.
O que é trombofilia
Trombofilia é o nome dado a um conjunto de condições que aumentam a predisposição à formação de trombos, coágulos dentro dos vasos sanguíneos.
O tema é especialmente relevante na gravidez porque a gestação já representa, por si só, um estado de maior coagulação: o organismo materno se adapta para reduzir o risco de hemorragia no parto, mas essa adaptação também eleva o risco de trombose, principalmente no puerpério.
Ainda assim, ter uma trombofilia não significa automaticamente que a mulher terá trombose ou complicações na gravidez, o risco varia conforme o tipo da condição e fatores como histórico pessoal ou familiar, obesidade, imobilização, cesariana e idade materna.
Trombofilia causa aborto?
Segundo a especialista, essa relação precisa ser vista com cuidado. Embora alguns estudos observacionais tenham identificado associações entre determinadas trombofilias hereditárias e desfechos gestacionais desfavoráveis, associação estatística não significa causa e efeito.
As evidências atuais não sustentam a investigação rotineira de trombofilias hereditárias apenas porque uma mulher teve perdas gestacionais recorrentes, nem há evidência consistente de que o uso de heparina nesses casos aumente a chance de um bebê nascer saudável.
Já a SAF é uma causa reconhecida de morbidade obstétrica: quando presentes critérios clínicos e laboratoriais específicos, pode estar associada a perdas gestacionais recorrentes, morte fetal e complicações ligadas à placenta. Por isso, a médica reforça que SAF e trombofilias hereditárias não devem ser tratadas como a mesma coisa.
Nem toda mulher que teve aborto precisa investigar trombofilia
De acordo com Gisele, a realização indiscriminada de exames é um dos principais problemas envolvendo o tema. Encontrar uma alteração laboratorial não significa identificar a causa do abortamento, e um exame sem indicação adequada pode levar a diagnósticos equivocados e tratamentos desnecessários, incluindo anticoagulantes.
A investigação deve partir da história clínica de forma individualizada. Antecedente pessoal de tromboembolismo venoso e certos históricos familiares de trombose justificam a pesquisa de trombofilias hereditárias, enquanto a investigação de SAF pode estar indicada diante de perdas gestacionais recorrentes, conforme critérios clínicos estabelecidos.
Quem precisa de heparina na gestação
"Deu trombofilia, precisa de heparina" não é o raciocínio correto, explica a especialista.
A decisão sobre usar o medicamento tromboprofilaxia é individualizada e considera o tipo de trombofilia, histórico de trombose, antecedentes familiares e outros fatores de risco.
Trombofilias de maior risco, combinadas ou histórico pessoal de tromboembolismo podem mudar essa conduta. O puerpério exige atenção especial por ser um período de risco elevado para eventos tromboembólicos.
A principal mensagem
Para Gisele Maciel, as trombofilias existem e algumas podem ter impacto importante na gravidez, principalmente pelo risco de tromboembolismo venoso materno, mas é preciso cautela para não atribuir a elas todas as complicações possíveis de uma gestação.
Ter sofrido um abortamento não significa ter trombofilia; ter trombofilia não significa que ela causou o abortamento; e encontrar uma trombofilia em exame não significa, automaticamente, indicação para uso de heparina.
Lorena Vieira é estagiária do Portal Itatiaia e estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais. Com experiências diversas, já trabalhou como repórter, produtora e apresentadora de coluna semanal no programa Agenda, da Rede Minas. Além de outras experiências como social media e comunicação de projetos culturais.



