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Santo de casa: Do cinema ao teatro, grandes marcas culturais das Minas Gerais 

Grupos como Galpão, Giramundo e Corpo levaram o nome do Estado para o Brasil e o mundo com espetáculos memoráveis 

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Criado em Belo Horizonte, o Giramundo é um dos mais expressivos do mundo no segmento de teatro de bonecos
Criado em Belo Horizonte, o Giramundo é um dos mais expressivos do mundo no segmento de teatro de bonecos  • Lucas Braga/Divulgação

Minas Gerais é uma terra que pode se orgulhar de sua produção cultural, desde aqueles que partiram para outras plagas, sobretudo na música, casos de Ary Barroso e Clara Nunes, quanto os que fincaram o pé e realizaram suas façanhas por aqui mesmo. Exemplos não faltam, do cinema ao teatro, passando pela dança, como constatamos com as conquistas do Grupo Corpo, da trupe teatral do Galpão e do teatro de bonecos do Giramundo, entre muitos outros. Sempre é tempo de relembrar as artes das Minas Gerais, que se renovam com uma nova geração de músicos e de cineastas.

Grupo Galpão 

O Grupo Galpão é um dos mais famosos e importantes do Brasil e já montou mais de 20 espetáculos, que passaram por Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo e outras capitais importantes. O Grupo Galpão foi fundado em Belo Horizonte, em 1982.

Os integrantes se conheceram em Diamantina. É certamente, o mais famoso grupo de teatro de rua do Brasil, embora tenha se adaptado também aos palcos fechados nos últimos anos, sem perder a perspectiva de uma expressão popular, em constante diálogo com o público, o que está longe de significar didatismo.

Ao todo, a companhia já montou 26 espetáculos. A primeira peça do grupo foi encenada na Praça Sete, com a montagem de um texto de Bertolt Brecht. O Grupo Galpão já foi laureado com uma centena de prêmios e se apresentou em 19 países diferentes.

Grupo Corpo

Diretor, iluminador e cenógrafo, Paulo Pederneiras fundou em Belo Horizonte, em 1975, ao lado de seus irmãos Rodrigo Pederneiras, Marisa e Izabel, o Grupo Corpo, uma companhia de dança que conversava com a contemporaneidade, e, já no ano seguinte, estreou a sua primeira montagem.

Foi o espetáculo do Grupo Corpo que inspirou Milton Nascimento a compor "Maria, Maria", que batizava a empreitada e se tornou um dos maiores sucessos do compositor. Sucesso imediato, o espetáculo conquistou espectadores ao redor do mundo, percorreu 14 países e permaneceu em cartaz durante seis anos, até 1982.

A sede da companhia fica no bairro Mangabeiras, região Centro-Sul de Belo Horizonte. Absorvendo várias influências, da origem barroca mineira à contemporaneidade global que abarca o universo pop, o Grupo Corpo criou uma linguagem única, que fascina as pessoas pelos movimentos dos dançarinos e através dos sentidos cênicos que cria no palco. 

Grupo Giramundo

O Grupo Giramundo surgiu a partir de iniciativa do artista plástico Álvaro Apocalypse, quando era professor da Escola de Belas Artes da UFMG e após experiências no ramo publicitário. Desejoso de desenvolver a linguagem do cinema, direcionou seu processo criativo para a produção de bonecos que sairiam mais baratos do que adquirir equipamentos cinematográficos. 

Em outubro de 1970, foram fabricados os primeiros bonecos. Apesar de percorrer o mundo em suas criações, a imaginação da obra de Álvaro o carrega constantemente de volta para sua terra: camponeses, santos, sertanejos, cães, touros, cavalos, sereias e palhaços recriam os grandes mitos da humanidade sob as vestes que trazem a cor e o gingado do folclore nacional; sim, pois, embora aparentemente estáticos, a técnica do artista de assumir o erro e pintar camadas umas sobre as outras, sempre variando os tons, confere aos desenhos de Apocalypse a ilusão do movimento, como se ali estivessem em alto relevo, o que leva, de imediato, à coqueluche da mostra: onde plasticidade e mecânica se instalam com brilho único.

Milton Nascimento e o Clube da Esquina

Milton Nascimento nasceu no Rio de Janeiro no dia 26 de outubro de 1942. No entanto, Milton foi criado na cidade de Três Pontas, interior de Minas, de onde vem a sua grande identificação com a música barroca praticada no Estado.

Conhecido entre os mais íntimos como Bituca, ele logo se tornou um dos artífices do Clube da Esquina, movimento surgido em Minas que congregava artistas como Lô Borges, Wagner Tiso, Toninho Horta, Beto Guedes, Ronaldo Bastos, Márcio Borges, Fernando Brant, Tavinho Moura, e ainda muitos outros. 

Em 1967, Milton apareceu para todo o Brasil com “Travessia”, parceria com Fernando Brant que tirou o segundo lugar no Festival Internacional da Canção.

Apontado por muitos como uma das vozes mais bonitas e sagradas da música mundial, Milton teve suas composições gravadas por Elis Regina, Agostinho dos Santos, Nana Caymmi, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Wilson Simonal, Fafá de Belém, Maria Bethânia, Simone, Zélia Duncan e Telma Costa. Segundo Elis Regina teria dito na década de 1970, “se Deus cantasse, teria a voz de Milton”. 

O pop rock do Skank

Eles já pediram esmola e nos ensinaram o que é uma partida de futebol. Também procuraram uma resposta para os sentimentos mais misteriosos e exaltaram as belezas e artimanhas da garota nacional.

Juntando baladas românticas a canções cheias de suingue, influenciadas pelo reggae e pelo ska da Jamaica, o Skank criou uma mistura azeitada que elevou o pop rock mineiro a nível nacional, arrebatando milhões de fãs em todo o Brasil e excursionando através do mundo.

Formada por Samuel Rosa, Henrique Portugal, Lelo Zaneti e Haroldo Ferretti, a banda jamais perdeu o sotaque mineiro e o contato com suas raízes, embora em uma rotação contemporânea que permitia a intersecção com diversas linguagens.

Prova disso são as parcerias de Samuel com o paulistano Nando Reis em sucessos atemporais como “Resposta”, “É Uma Partida de Futebol” e “Dois Rios”, que ainda traz a assinatura do mineiríssimo Lô Borges.

Também não se pode esquecer da importância de Chico Amaral na trajetória do Skank, outro mineiro de fé que assina com Samuel hits como “Esmola”, “Garota Nacional”, “Jackie Tequila”, “Pacato Cidadão”, e tantas outras.

O samba de Clara Nunes

O manto azul e branco da Portela ilumina os passos da mineira guerreira, filha de Oxum com Iansã. Clara Nunes foi cantada em verso e prosa por João Nogueira, Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, com quem viveu um matrimônio cheio de amor e música. Mas, principalmente, cantou o Brasil e suas raízes africanas, com samba no pé e, eventualmente, dores no coração.

Mineira de Caetanópolis, no interior do Estado, Clara Nunes encantou todo o Brasil com o brilho de sua voz e a exuberância de sua personalidade, que ela adornava com amuletos e patuás. Sempre vestida de branco, Clara foi a expressão de um Brasil profundo, orgulhoso de suas origens.

Nascida em uma família de pessoas humildes, ela começou a vida trabalhando numa fábrica de tecidos, até se mudar para Belo Horizonte, onde cantou, pela primeira vez, na rádio Inconfidência. A estreia em disco não demorou a acontecer. Em 1966, lançou “A Voz Adorável de Clara Nunes”, dando voz a valsas e boleros.

A nacionalização de Ary Barroso

Era só o gongo começar a soar que você saberia que ele estava em cena, com seus óculos circulares, seu bigodinho aparado e sua voz polêmica. Mas o gongo nunca soou para ele, um dos poucos que passaria impune a seu rigor seletivo. Ary Barroso do Brasil nasceu no interior de Minas Gerais, cresceu na capital do Rio de Janeiro e se apaixonou pelo cartão postal do Nordeste: a Bahia.

Para ela, compôs as mais passionais confissões, para o Rio de Janeiro as mais otimistas e se lhe perguntassem se ele nunca compôs para a terra onde nascera diria com humor ácido: “Afogue a saudade nos copos de Ubá”.

Muitas lendas e folclores se perpetuaram sobre sua figura mítica, um dos símbolos de um Brasil musical que ele defendia com unhas, dentes e microfones. Fosse narrando os jogos do Flamengo ou acompanhando Carmen Miranda ao piano, Ary Barroso sempre esteve ao lado das bandeiras mais populares do seu país. E talvez seja ele a maior de todas elas.

Filmes de Plástico e a indicação de ‘Marte Um’

O longa-metragem “Marte Um” começa com um dos traumas nacionais: a ascensão ao poder de um discurso de ódio baseado na demagogia e no ataque às instituições, preconizando um ambiente de violências de toda ordem.

Mas essa violência, claro, tem seus alvos preferenciais, aqueles que devem ser varridos, fuzilados e metralhados. A família de Deivinho, vivido por Cícero Lucas, passa, em tese, ao largo dessa circunstância. Mas só em tese.

Afinal de contas, eles representam o extrato social que historicamente foi abandonado à própria sorte numa sociedade de classes que se estrutura a partir duma brutal desigualdade.

Um dos principais méritos do filme dirigido e roteirizado por Gabriel Martins, da Filmes de Plástico, produtora de Contagem (MG) que já possui trajetória de singular qualidade no cinema nacional, é extrapolar essa condição a que a população preta e periférica muitas vezes é relegada nas abordagens cinematográficas.

A charge de Renato Aroeira

Mineiro de Belo Horizonte, o chargista Renato Aroeira reside no Rio de Janeiro há vários anos e é conhecido pelo traço elegante e o humor afiado, cujos alvos preferidos são os políticos nacionais. Em 2020, graças a uma charge que mostrava o presidente Jair Bolsonaro transformando o símbolo da Cruz Vermelha em uma suástica nazista, ele foi processado pelo Ministério da Justiça e enquadrado na Lei de Segurança Nacional, resquício da ditadura militar que perdurou no Brasil de 1964 a 1985. Renato Aroeira conta que já foi censurado “dezenas de vezes”.

Ao longo de sua trajetória, o belo-horizontino radicado no Rio há mais de três décadas cultuou diferentes mestres. “Como desenhista, os autores de histórias infantis foram as minhas primeiras inspirações”, afirma ele, que cita Carl Barks (1901-2000), ilustrador da Disney; Marge (1904-1993), criadora da “Turma da Luluzinha”; Charles M. Schulz (1922-2000), o inventor do Charlie Brown; Bill Watterson, de “Calvin & Hobbes”; e o argentino Quino com sua inconformada Mafalda.

A nova MPB 

Quando a luz do sol entra em contato com as gotas de chuva, surge o arco-íris. Ou, no caso de Ed Nasque e Luisa Doné, esse encontro capaz de emitir ao mesmo tempo cores como vermelho, azul, violeta, começou pelos corredores da Universidade Federal de Ouro Preto, em 2018, onde ambos cursaram Música.

Luisa costuma se apresentar ao piano. Enquanto Ed jamais dispensa o violão, companheiro de dia e noite. Nessa noite aguardada, deverão estar todos juntos. E os planos continuam.

Para 2023, o objetivo é seguir circulando com o show por outras cidades do Brasil, e colocar na praça uma safra novinha em folha de composições. Para os mais curiosos, a dica é segui-los nas redes sociais. Ed Nasque e Luisa Doné estão só começando. E prometem bastante...

O chorinho de Waldir Silva

Waldir Silva nasceu em Bom Despacho, no dia 28 de maio de 1931, e morreu no dia 1º de setembro de 2013, aos 82 anos. Compositor e mestre do cavaquinho, ele conheceu o primeiro sucesso na década de 1950, quando o então Presidente da República Juscelino Kubitschek elogiou publicamente o choro “Telegrama Musical”, escrito em forma de código Morse, o que o levou a compor a trilha da primeira versão da novela “Pecado Capital”, da Rede Globo.

Waldir até chegou a ensaiar uma carreira no Rio de Janeiro, onde conheceu e se tornou parceiro de Zé Ramalho, mas optou por se fixar em Belo Horizonte. Waldir Silva também ficou conhecido por participar e compor a música-tema do projeto “Minas ao Luar”, que percorria as cidades do interior com um repertório de choro e seresta.

Depois de gravar discos instrumentais de choro e bolero, Waldir Silva foi homenageado em 2016, com o disco “Waldir Silva em Letra & Música”, quando suas melodias ganharam letra. “Uma Saudade: Ao Meu Xará” é uma homenagem de Waldir Silva a Waldir Azevedo, outro craque do cavaquinho, que ganhou a interpretação da cantora Natália Sandim. Já Acir Antão deu voz a “Quatro Cordas Que Choram”, com a cantora Lucinha Bosco. 

A poesia de Bruna Kalil Othero

Para uma artista com o ímpeto do novo e a ousadia de derrubar estigmas como Bruna Kalil Othero, mineira de Belo Horizonte, os clichês servem como papéis de origami, e não os papéis definidos que se pareciam com pedras de outrora. Portanto, a máxima de ser “produto do meio” é verdade até a página quinze. A escritora avalia com ressalvas e certo entusiasmo o cenário artístico e literário do estado de Drummond, Sabino, Rubião, Ary Barroso e tantos outros. 

“Minas Gerais sempre foi um espaço muito acolhedor à arte. Belo Horizonte também. Nos últimos anos, quando passei a frequentar os eventos da cidade, sarau, lançamento de livro, mesa redonda, percebi que uma sociedade secreta da cultura se escondia pelas esquinas. Aqui é assim: você conhece uma pessoa, e, de repente, já fez amizade com todos os artistas da cidade”, detecta. 

O problema não parece ser a falta de oferta. “Em BH tem evento cultural quase todo dia, eu mesma vou nuns dois, três, por semana. O problema que eu acho é a pouca divulgação. Acaba que, por ser uma sociedade secreta, vemos sempre as mesmas pessoas”, lamenta. E a formação de público é um entrave. Agora, ela se prepara para lançar o seu primeiro romance, “O Presidente Pornô”, pela Companhia das Letras.