Ruy Rey criou orquestra de ritmos caribenhos e fez sucesso no Carnaval
Cantor e compositor paulista foi um dos primeiros a cantar 'La Bamba' e se envolveu em confusão com um famoso milionário

A manchete não economiza uma vírgula. “Ele tentou invadir o meu lar!”, destacava a Revista do Rádio no dia 20 de julho de 1963, em letras garrafais. Embora negativo, foi, provavelmente, o último momento em que Ruy Rey mereceu uma página inteira de uma prestigiada publicação midiática. O abandono da carreira pouco teve a ver com esse episódio.
Quando decidiu dar fim à orquestra com a qual rodara o mundo, Ruy Rey sentia, muito mais, os impactos da bossa nova. Ele se dividia entre a atividade artística e um cargo no governo do Estado, como contou à reportagem em que detalhava o incidente com o milionário Mariozinho de Oliveira, conhecido por seus bacanais cariocas.
Abatido, acendendo um cigarro, Ruy Rey relembrou os instantes em que, diante da iminente invasão a seu apartamento pelo milionário, aguardou-o com uma arma e desferiu dois tiros para assusta-lo. Um acertou a perna de Mariozinho.
Lutando para sobreviver da música, excursionando aos finais de semana e pegando no batente logo na segunda de manhã, com uma filha adolescente que acordava cedo para estudar e sofria de asma nervosa, Ruy deixa escapar preconceitos durante seu depoimento, bastante comuns na época.
“Ele inventa cada vez uma festa diferente, dependendo de seu estado de espírito. Uma vez foi uma festa de travestis, promovendo o casamento de um deles, acabando numa verdadeira orgia. Outra vez, trouxe um grupo de escurinhas de uma boate e mais uma escola-de-samba, por aí afora”, diz Ruy...
Iframe Embed
Mariozinho morreu aos 90 anos, em 2016, como derradeiro integrante do infame Clube dos Cafajestes, reunião de playboys da zona Sul carioca que exibiam as suas piores qualidades nas noitadas do Rio de Janeiro, assediando mulheres e agredindo uns aos outros com “brincadeiras” de eternos garotões.
Ruy Rey morreu em 1995, aos 80 anos, já completamente afastado do meio que o consagrara. Nascido Domingos Zeminian no dia 4 de janeiro de 1915, em São Paulo, ele adotou o nome artístico para combinar com a pinta de galã latino que encarnava. Ruy Rey ficou célebre por ter sido o primeiro artista brasileiro a se associar aos ritmos caribenhos, como a rumba, bolero e mambo.
No ápice do estrelato, foi digno de uma matéria de capa da Revista do Rádio, em 1950, vestido com roupas caribenhas, uma camisa amarela como um abacaxi maduro, cheia de flores alaranjadas, lenço no pescoço, bigodinho bem aparado, relógio de ouro e um bumbo com todas as cores possíveis, do azul ao rosa.
No interior, a revista se gabava, no título, de ter passado “24 horas na vida de um artista”, no caso, Ruy Rey, definido como “Um cartaz da Rádio Nacional”. “Nove horas da manhã: a filhinha de Ruy Rey vai acorda-lo e o cantor, sempre relutante, levanta-se da cama, quinze minutos depois. É o início de um novo dia”, descreve, com uma foto ensaiada, em que a filha toca o queixo do cantor boquiaberto. Na sequência, ele aparece na praia e curte o sol.
Iframe Embed
Ruy Rey estreou na Rádio Nacional, então a maior do país, em 1944, no horário de meio-dia e meia, logo após o de Francisco Alves, o Rei da Voz, um dos mais prestigiados. A carreira decolou quando ele formou sua orquestra.
Embora dedicado à latinidade, alcançou sucesso com uma marchinha carnavalesca de Braguinha e Antônio Almeida, “A Mulata É a Tal”, hoje problematizada na folia por seu conteúdo misógino e racista. Apenas duas estrofes, carregadas de duplo-sentido e muita malícia: “Branca é branca, preta é preta/ Mas a mulata é a tal!/ Quando ela passa todo mundo grita/ Estou aí nessa marmita?/ Quando ela bole com os seus quadris/ Eu bato palmas e peço bis/ Ai, mulata, cor de canela!/ Salve, salve, salve, salve ela!”, cantou Ruy Rey.
Outro momento apoteótico aconteceu com “Naná”, parceria com Rutinaldo Silva, esta seguindo à risca a estética caribenha-latina. E, dez anos antes do estouro da versão de Ritchie Valens, Ruy Rey já colocava o público para dançar e rebolar o quadril ao som de “La Bamba”, peça do folclore mexicano que se tornou conhecida no mundo todo, cujo primeiro registro data do século XVIII.
A participação em chanchadas da Atlântida, como “Carnaval no Fogo”, “Aviso aos Navegantes”, “O Petróleo É Nosso” e “É de Chuá!”, nos anos 1940, 1950 e 1960, consolidaram a imagem do tipo metido a galã mexicano, com voz melodiosa, e olhar de conquistador barato. O produto importado do nosso país.
Iframe Embed
