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Quais as causas dos acidentes com famosos? Especialista, artistas e produtores opinam  

Pessoas conhecidas e celebridades entram para estatísticas que já são alarmantes no Brasil envolvendo acidentes traumáticos  

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Regis Danese, Kayky Brito, Tierry e Marília Mendonça sofreram acidentes que comoveram o Brasil
Montagem/Reprodução

Um acidente de avião matou, no auge do sucesso e no esplendor da beleza, a atriz Leila Diniz, que, no dia 14 de junho de 1972, perdeu a vida aos 27 anos. Leila voltava da Índia para o Brasil, após divulgar o seu novo filme na Austrália. Antes de viajar, Leila deixara com o ex-marido, o cineasta Ruy Guerra, a filha do casal, Janaína, com menos de dois anos de idade. 

A tragédia comoveu o Brasil, não apenas por seus contornos explícitos, mas pelo que Leila representava. Desbocada, irreverente e, acima de tudo, libertária, ela foi a primeira a posar de biquíni e com seu barrigão de grávida nas praias cariocas.

Não era a primeira vez que o Brasil perdia uma estrela dramaticamente. Em 1966, um acidente de carro matou a cantora Sylvinha Telles, aos 32 anos, musa da bossa nova, artífice da modernidade e sofisticação que o movimento propunha.

A filha, Cláudia Telles, futura intérprete, ainda não tinha dez anos de idade. De alguma maneira, a morte da cantora Marília Mendonça, em um acidente aéreo, no dia 5 de novembro de 2021, jogou luz sobre essas tragédias. Há diferenças e similaridades, como em qualquer história – que é única.

Jovem, mãe, morta num acidente no auge do sucesso e no esplendor da beleza, Marília também confrontou, a seu modo, pensamentos vigentes e valores extremamente arraigados, sob a perspectiva de uma mulher dona de suas vontades. 

Estatísticas. Outro dado incontornável e que aproxima ainda mais as histórias é o signo da fatalidade, o acidente que interrompe o curso da vida de maneira dramática e inesperada. Seja pela atenção dada ou pela mera constatação, o fato é que 2023 também tem sido pródigo em acidentes envolvendo pessoas famosas. 

O cantor gospel Regis Danese e o ator Kayky Brito são apenas os mais recentes a entrarem para essa triste estatística, mas há ainda o caso fatal envolvendo a cantora Vivi Araújo, o desastre de ônibus que feriu a também cantora Brisa Star, o acidente com o cantor Tierry, e, por fim, o da dupla sertaneja João Lucas & Marcelo, numa lista que seria interminável se a gente se detivesse sobre ela com lupa. 

“Diariamente, mais de 100 pessoas morrem vítimas de acidentes de trânsito. Em média, uma pessoa perde a vida a cada 15 minutos. E ainda há uma dezena de outras pessoas que se tornam tetraplégicas, paralíticas, e não entram para essa estatística, embora sejam feridos de trânsito. É um número muito alto para o país e que afeta todos nós. O que acontece é que quando envolve uma celebridade a repercussão é maior”, analisa a especialista em segurança e educação no trânsito, Roberta Torres, que também aponta a falta de estrutura, serviço público de qualidade e educação no trânsito para esses números alarmantes. 

Deslocamentos. Produtor e pesquisador musical, Marcelo Fróes refletia sobre esse assunto outro dia, quando viu uma postagem de Ivete Sangalo, em um final de semana recheado de shows, no litoral da Bahia. O que chamou a atenção de Fróes foi o avião particular no qual a estrela viajava.

“Na mesma hora, lembrei do acidente (de avião) com o Luciano Huck e a Angélica (em 2015). Esses aviõezinhos me preocupam tanto, detesto esses jatinhos”, desabafa Fróes, que lamenta as perdas de Gonzaguinha, João Paulo, Chico Science e Evaldo Braga, todos, no entanto, mortos em acidentes terrestres. 

“Esses artistas têm tantas horas de voo quanto qualquer piloto, qualquer comissário de bordo e qualquer aeromoça. Eles viajam o ano inteiro de terça a domingo, só passam em casa na segunda, é punk”, opina Fróes, que atribui ao fato de eles se exporem mais quantitativamente ao risco, em razão de shows que exigem deslocamentos constantes, o alto número de acidentes envolvendo, principalmente, músicos. “Os artistas de televisão, geralmente, gravam na cidade onde moram”, completa.

A cantora Aline Calixto, que, há seis anos, realiza uma turnê internacional, admite o risco dessa exposição, que ela remedia tomando todas as precauções possíveis, que, se não podem eliminar totalmente, minimizam, ao menos em teoria, a chance de o pior acontecer.

“A nossa profissão exige muitas viagens, e você corre mais risco a partir do momento que viaja mais, seja de avião ou por terra. Acho que, quando a gente fala de acidente terrestre, muita coisa tem que ser levada em consideração. Às vezes, você está com uma equipe já cansada, há muito tempo na estrada, então é preciso tomar consciência de que esses profissionais que nos conduzem precisam ter uma boa qualidade de sono, você tem de buscar referências sobre a empresa, que tem a obrigação de remunerar bem e dar o tratamento adequado aos funcionários, para que eles possam exercer o trabalho deles com dignidade e segurança”, pondera.

Seja por superstição ou intuição, Aline prefere evitar as aeronaves de pequeno porte, que, não raro, aparecem nos noticiários protagonizando acidentes traumáticos. “Fiz isso uma vez na minha vida para nunca mais, tenho um certo pânico desses jatinhos, a minha impressão é que são mais instáveis”, especula. Aline também já vivenciou outras situações incômodas, como a necessidade de arremeter ou de permanecer várias horas no ar esperando uma melhor condição climática para pousar. 

Mercado. Outro fator que se impõe é justamente a necessidade de realizar tantos shows. No auge do sucesso, duplas sertanejas como Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano e Chitãozinho & Xororó, assim como os astros da Axé Music, Ivete Sangalo, Chiclete com Banana e Asa de Águia, chegavam a realizar vários espetáculos na mesma noite, em até três cidades diferentes. 

A própria Aline, que acaba de lançar um álbum em homenagem a Clara Nunes, “Clara Viva”, já disponível em todas as plataformas digitais, passou por essa experiência. “Foi tudo com minha ciência e uma equipe preparada para atender as demandas”, conta Aline.

Recentemente, a dupla Henrique & Juliano informou, por meio de sua assessoria, que não realizaria mais de um show na mesma noite para preservar a saúde e o bem-estar dos artistas e de sua equipe. “Alguns artistas se dão ao luxo de se apresentarem somente em suas cidades, outros não têm essa opção”, afirma Fróes. 

Ainda que perceba a pressão de uma lógica mercantilista que transforma as pessoas em produto de entretenimento, além de contratos leoninos com empresários que se aproveitam de uma fragilidade do artista, o crítico de cinema Inácio Araújo considera ser complicado apontar uma única via para esse problema.

“Ao mesmo tempo que existe essa máquina que tritura, tem a compleição de cada pessoa, a maneira como ela reage. Por exemplo, a Brigitte Bardot não teve menos pressão que a Marilyn Monroe e a Natalie Wood, atrizes que tiveram mortes trágicas, e está aí com quase 90 anos, bela e formosa como sempre foi”, vaticina. 

No caso do Brasil, ele se lembra das atrizes Cacilda Becker, Glauce Rocha e Isabel Ribeiro, que morreram ainda muito novas. “Eram atrizes que colocavam muita intensidade no que faziam, não sei se isso leva as pessoas, realmente não sei, existem mil outras pessoas que colocam a mesma intensidade, passam pelos mesmos problemas e não sofrem da mesma maneira”, diz, relembrando ainda a trágica vida da atriz Rita Hayworth, que morreu aos 68 anos, e, antes de enlouquecer, conviveu durante décadas com a lembrança de ter sido estuprada pelo pai. 

“Hoje em dia, o que me assusta mais nem são os atores e atrizes, mas, sobretudo, as influenciadoras, que você vê com muita frequência serem assassinadas ou morrerem muito jovens, com menos de 30 anos”, sublinha Inácio. Na visão da especialista em segurança no trânsito, Roberta Torres, algo do que acontece pode estar relacionado com os valores difundidos pela sociedade contemporânea. 

“Hoje está muito presente na sociedade a necessidade de mostrar absolutamente tudo da vida, e, infelizmente, a gente acompanha um número crescente nas redes sociais de publicações de vídeos, com o objetivo viralizar e ter engajamento, mostrando infrações. A tentativa de mostrar o quanto aquela pessoa extrapola limites, associado à utilização do celular enquanto conduz o veículo, pode estar ligada, de alguma maneira, a esse alto número de acidentes”, salienta Roberta, que deixa um conselho: “Existem outras formas de você ganhar a atenção do público, que não cometendo infrações”, finaliza.