'O Bosque Selvagem': animação favorita ao Oscar tem mineiro na equipe
Thiago Calçado é animador de stop-motion e já sentiu o gosto do que é receber a estatueta dourada após vitória de 'Pinóquio' (2022), de Guillermo del Toro, na categoria de 'Melhor Filme de Animação', em 2023

"O Bosque Selvagem", animação dirigida por Travis Knight, estreia em 29 de outubro nos cinemas brasileiros. Entre os artistas, artesãos e técnicos que passaram 231 semanas realizando, com suas próprias mãos, os 2.804 planos que deram vida ao filme, está o animador de stop-motion mineiro Thiago Calçado, que integrou a equipe de "Pinóquio" (2022), de Guillermo del Toro, ganhador do Oscar de "Melhor Filme de Animação", em 2023.
O longa é, inclusive, uma das grandes apostas ao Oscar. O filme mostra a jornada de Prue McKeel (Giulia Benite), uma jovem sagaz e confiante, e Curtis Mehlberg (Pedro Burgarelli), um menino honesto, curioso e que busca superar seus medos. Quando o caçula de Prue, Mac, é levado por corvos, os dois amigos não pensam duas vezes antes de se aventurar pelos perigos do Bosque Selvagem para resgatá-lo.
Trabalho minucioso
Natural de Uberaba, em Minas Gerais, e formado em cinema pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), Thiago Calçado acompanhou a produção do filme desde o início. "Comecei nos testes de O Bosque Selvagem. Estava lá quando começaram a testar os esqueletos e os bonecos. Ver um filme nascendo do zero é muito emocionante. Na LAIKA [estúdio de animação americano], você começa no que a gente chama de test unit, um mini set onde testamos os bonecos, e de repente, quando você vê, são sets imensos de uma cidade completa, com vários personagens", disse.
"Você pede um parafuso e o cara te dá cinco opções: qual é o melhor, para que você quer. Se eu peço uma cola, ele pergunta: 'Mas você vai colar o quê? Madeira com papel, papel com papel, metal com madeira?'. Eles são muito minuciosos em cada detalhe da construção, dos bonecos aos cenários", acrescentou.
Thiago já trabalhou com Travis Knight em "Kubo e as Cordas Mágicas" (2016). A obra venceu o BAFTA de Melhor Animação, três Annies e o prêmio de melhor animação do National Board of Review. Além disso, concorreu ao Oscar de Melhor Animação, sendo a segunda animação da história indicada na categoria de "Melhores Efeitos Visuais", algo que não acontecia desde "O Estranho Mundo de Jack", em 1994.
Trajetória
Ainda no Brasil, Thiago trabalhou na equipe de animação de "Minhocas" (2013), dirigido por Paolo Conti e Arthur Nunes, marco por ser o primeiro longa-metragem brasileiro em stop-motion. Em 2016, mesmo ano em que atuou em Kubo, participou da produção do longa norueguês "Dyrene i Hakkebakkeskogen", baseado na obra clássica de Thorbjørn Egner. Dois anos mais tarde, colaborou no aclamado "Ilha dos Cachorros" (2018), de Wes Anderson, obra que disputou o Oscar de Melhor Animação e Melhor Trilha Sonora Original e levou o Urso de Prata de Melhor Direção no Festival de Berlim.
Não demorou muito para Thiago ver um filme em que trabalhou ser anunciado como vencedor do Oscar de Melhor Animação. Ele foi animador sênior de "Pinóquio" (2022) de Guillermo del Toro, e o responsável por animar a Morte, dublada por Tilda Swinton na versão original e uma das figuras mais marcantes do filme vencedor de outros 71 prêmios ao redor do mundo.
Para Thiago, a vitória tem um peso particular para os amantes e artistas da técnica. "No stop-motion, que é uma arte extremamente artesanal e com produções bem mais raras disputando espaço com grandes estúdios que já acumulam vários prêmios, vencer tem um sabor ainda mais especial. Principalmente ao lado do Guillermo del Toro, que é uma grande referência", afirma. "Criamos filmes para transmitir histórias que comovam e façam o público refletir. O Oscar acaba sendo a cereja do bolo."
Além de "A Fuga das Galinhas: A Ameaça dos Nuggets" (2023), da Aardman, o currículo de Thiago inclui trabalhos como diretor. Ele comandou "Ana Bolinha" (2021), série em animação 2D com 13 episódios, e criou e dirigiu "Sol em Dó Ré M'i" (2024), exibida na TV Brasil, cujos 15 episódios misturam animação 2D e stop-motion.
Thiago também se dedica a ensinar. Já ministrou workshops e palestras na Espanha, na Polônia, em Portugal e na Noruega, abordando desde os detalhes mais precisos da atuação dos bonecos até a narrativa e impacto emocional das cenas. É também presença frequente em festivais, onde conversa com animadores em início de carreira.
Patrícia Marques é jornalista e especialista em publicidade e marketing. Já atuou com cobertura de reality shows no ‶NaTelinha” e na agência de notícias da Associação Mineira de Rádio e Televisão (Amirt). Atualmente, cobre a editoria de entretenimento na Itatiaia.



