Belo Horizonte
Itatiaia

Jards Macalé comemora 80 anos com lançamento e disco de inéditas

Músico coloca na praça a faixa 'Coração Bifurcado', com influência da umbanda, e anuncia novidades pela Biscoito Fino 

Por
Jards Macalé chega aos 80 anos preparando novo disco de inéditas depois de 'Besta Fera' e 'Síntese do Lance', com João Donato
Jards Macalé • Leo Aversa/Divulgação

Jards Macalé não perde a melancolia da voz, mas parece tê-la tornado mais madura. Agora, aos 80 anos, ele lança “Coração Bifurcado”, em clima de macumba. A faixa anuncia o disco de inéditas de mesmo nome, previsto para abril, pela gravadora Biscoito Fino – um achado da indústria fonográfica. Macalé passou por muita coisa para chegar até aqui, houveram momentos de depressão e tentativa de suicídio.

O desprezo e a indiferença a que foi relegado tinha como motivo a sua ousadia. Ele disse ter jogado fora todos os catálogos da música numa entrevista que me concedeu em 2010. “A carteira de identidade da música é ela própria. Som é som. Não som é não som. E não som também é som. Não entendo essa necessidade desesperada de complicar a compreensão. Quero, principalmente, o som do silêncio”, arrematava Macalé.

Aqui, se percebia claramente a influência do mestre João Gilberto, que ele, a seu modo, distorcia e remodelava. Macalé é um espécime único na história da canção popular, inclusive por suas intersecções com a música erudita.

Aluno do maestro Guerra-Peixe, o músico teve formação acadêmica, embora tenha sempre adotado uma postura radical e diametralmente oposta ao rigor das apostilas tanto em cima do palco quanto nos estúdios de gravação. “Não sou tropicalista! Toda a minha geração foi ouvinte da Rádio Nacional, que tocava música popular e erudita. Radamés Gnatalli foi um músico erudito que inovou as orquestrações da música popular. Para mim, não existem mais fronteiras...”.

A necessidade de se distanciar do movimento capitaneado, na música, por Caetano Veloso e Gilberto Gil, vinha justamente da proximidade com seus integrantes. Foi Macalé quem recebeu Bethânia na casa de sua mãe quando ela se mudou para o Rio de Janeiro.

Quando foram exilados em Londres pela ditadura militar, Caetano e Gil receberam a companhia de Macalé, que participou da direção musical, dos arranjos, em suma, da concepção do aclamado álbum “Transa”, cuja sonoridade tinha muito do disco de estreia de Macalé, lançado em 1972.

Da mesma forma, ele participou, como compositor e arranjador, dos discos de verve mais tropicalista de Gal, como o histórico “Fa-tal: Gal a Todo Vapor”, em que contribuía com “Vapor Barato” e “Mal Secreto”, parcerias com Wally Salomão, e também no LP “Legal”, onde consta “Hotel das Estrelas”, de Duda e Macalé. E Gal e Macalé eram habitués das Dunas da Gal.

Essa personalidade inventiva e gregária ainda se fez notar no espetáculo “Banquete dos Mendigos”, que Macalé inventou, segundo ele próprio, para patrocinar sua carreira, com o peculiar deboche, e reuniu nomes como Chico Buarque, Gonzaguinha e Paulinho da Viola para comemorar os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, no período mais brabo da ditadura militar.

Depois de três discos que incluíam o irreverente “Aprender a Nadar” e a obra-prima “Contrastes”, que ia de Ismael Silva a Walter Franco, passando pela autoral “Sem Essa”, outra parceria com Duda Machado de rara beleza, o músico caiu no ostracismo e acabou afastado dos estúdios musicais.

Antes, uma curiosidade. Quando entrevistei Macalé pessoalmente pela primeira e única vez, ele disse que apenas uma pergunta era proibida, mas não revelou qual e eu, claro, fiquei sem jeito de demonstrar a minha ignorância.

A capa original de “Contrastes” o trazia aos beijos com a namorada da época. Desfeito o romance, de forma nada amigável, a antiga companheira proibiu a exibição da imagem quando o LP foi relançado em CD. A solução criativa de Macalé foi se valer de um verso de “Sem Essa”: “fazer um álbum de fotografias/ pra depois queimar”. Na reedição, o fogo apagava a imagem do amor de então. A pergunta proibida era essa. Eu só fui descobrir do que se tratava bem depois.

Com o desdém do mercado pelo trabalho de um artista que jamais se curvou a concessões, como, aliás, Gil destaca no documentário “Um Morcego na Porta Principal”, de 2008, Macalé sumiu do catálogo. Passou a sobreviver de inciativas como o Projeto Pixinguinha, onde conheceu Moreira da Silva, com quem deu início a uma profícua amizade que, mais tarde, resultaria no disco “Macalé canta Moreira”, do ano 2000, e segurou a barra em sessões de choro-jazz com o percussionista Naná Vasconcelos, que também resultou em “Let’s Play That”, um álbum fora de série, de 1983.

Ainda prestou homenagem a Paulinho da Viola, Geraldo Pereira, Nelson Cavaquinho e Lupicínio Rodrigues, no disco “Quatro Ases e um Coringa”, de 1987, com canções, a maioria delas, embebidas em melancolia, que lembravam a “linha de morbeza romântica” proposta pelo inoxidável parceiro Wally Salomão, quando da feitura de “Aprender a Nadar”, donde emergiram “Dona de Castelo” e “Anjo Exterminado”.

Macalé retornou pela primeira vez com “O Que Faço É Música”, título do disco de 1998 que pegava emprestado o nome de uma criação do artista plástico Hélio Oiticica, dono da obra que inspirou o batismo da Tropicália.

O músico teve ainda muitas reencarnações, com excelentes trabalhos como “Amor, Ordem & Progresso”, de 2003, e “Macao”, de 2008, com a mais melancólica interpretação já vista para “Ne me Quitte Pas”, clássico do belga Jacques Brel eternizado pela brasileira Maysa, até ser reconhecido pelas novas gerações com o potente “Besta Fera”, quando foi adotado pela turma de São Paulo que revigorou a carreira de Elza Soares – outra artista versada em ressuscitar.

Cantou Ezra Pound e Gregório de Mattos, inventando coisas jamais vistas e olhando para o passado. Puro Macalé. Esse espécime raro e “incapturável” que chega aos 80 anos com o “coração bifurcado”, cheio de amor e caos, pronto pra próxima parada que topar, num beco da rua principal da metrópole musical.


Iframe Embed