Isolda compôs sucessos românticos de Roberto Carlos e Maria Bethânia
Discreta e alheia aos holofotes, ela é dona de obra que contém clássicos como 'Outra Vez' e 'Um Jeito Estúpido de te Amar'

Isolda comemorava com amigos o sucesso profissional quando recebeu a notícia mais triste de sua vida. “Em outubro de 2006, completou-se 30 anos que meu único irmão e parceiro Milton Carlos saiu de casa de manhã, ficando de voltar à noite pra gente sair pra jantar, e nunca mais voltou. A última notícia que tivemos dele foi por um guarda rodoviário, avisando do acidente ocorrido, em que ele fatalmente nos deixou. No auge do sucesso, em vias de se casar com uma jovem por quem era irremediavelmente apaixonado”, escreveu Isolda.
Milton Carlos tinha apenas 21 anos, e, junto a ele, morreu também a noiva, Mariney Lima. Em 1976, Isolda e Milton viram ecoar através das vozes de Maria Bethânia e Roberto Carlos a irresistível balada “Um Jeito Estúpido de te Amar”, que compuseram em parceria, cheia de versos doloridos e embebida no romantismo da época. A música vinha na sequência de outros sucessos, como “Amigos, Amigos”, “Jogo de Damas”, “Elas por Elas”, “Pelo Avesso”, e outras. Com a perda do irmão e parceiro, Isolda sentiu-se desamparada. E muito triste.
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O grande sucesso de Milton Carlos, cantor de voz aguda e feminina que o diferenciava nas rádios, foi o “Samba Quadrado”, também composto pela dupla. Lançado em 1974, acenava ao samba-canção, reforçando uma das marcas dos dois irmãos: reapresentar ritmos antigos com uma roupagem nova, tudo aliado ao romantismo que sempre os acompanhava. Talvez nem mesmo Isolda acreditasse que sem o irmão ela compusesse o maior hit de sua história. E ainda há gente que acredite ser de Roberto e Erasmo a canção “Outra Vez”...
Não sem razão. Ela se grudou de tal forma ao imaginário popular que tais confusões não são raras. O fato é que os versos iniciais guardam uma intimidade tão grande com o estilo perpetrado por Roberto e Erasmo que o erro é perfeitamente justificável. “Outra Vez” pertence à linhagem de músicas como “Olha”, “Sua Estupidez”, “Detalhes”, “Do Fundo do meu Coração”, dentre outras da lavra da dupla. A letra nasceu despretensiosamente. Isolda estava em um bar com amigos comentando sobre antigos relacionamentos. Veio a inspiração.
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Imediatamente, ela anotou tudo num guardanapo, numa cena que era comum nas mesas dos bares, desde o tempo de Dolores Duran, passando por Vinicius de Moraes, Antônio Maria, Lupicínio Rodrigues, Maysa, e outros boêmios inveterados. Em casa, ela completou a melodia ao violão. Surgia um dos maiores clássicos da música romântica. “Você foi o maior dos meus casos/ De todos os abraços/ O que eu nunca esqueci”, ao gosto de traídos e traidores, gregos e baianos. E, lançada em 1977, essa canção não parou mais de tocar...
Recebeu inúmeras regravações, em que se destacaram as de Emílio Santiago, Simone, Cauby Peixoto, Roberta Miranda, Gal Costa e Maria Bethânia, com direito a parada no exterior e versões de Peppino di Capri, Ray Conniff e Armando Manzanero, comprovando o poder além-fronteiras de seu discurso açucarado, capaz de inebriar enamorados mundo afora. Discreta, alheia aos holofotes, Isolda seguiu colecionado sucessos atrás da ribalta, com seu talento para temperar canções na medida exata do romantismo, sem descambar para a entrega derramada. Em 2018, aos 61 anos, seu coração parou. Resta a obra.
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