Há 40 anos, Alceu Valença gravou disco que lançou o clássico 'Anunciação'
Cantor e compositor pernambucano produziu uma mistura única na música brasileira, com frevo, xote, xaxado, blues, rock e baião

Alceu Valença se define como “um repórter poético”. O músico pernambucano que conquistou todo o Brasil lançou uma de suas canções mais célebres há 40 anos, em 1983.
“Anunciação” nasceu primeiro da flauta que o compositor comprou de um hippie gaúcho e, depois, recebeu a letra com as observações que Alceu fazia na ocasião, olhando o mundo ao seu redor e levando-o para dentro de si.
Despretensiosamente, ele criou um dos maiores sucessos de seu repertório, e só não o descartou porque a namorada da época o convenceu de que era uma música linda, aberta ao novo e às esperanças.
“Anunciação” integrava “Anjo Avesso”, disco que vendeu mais de 2 milhões de cópias, e rendeu ao artista as certificações de platina e diamante duplo. Na capa do LP, Alceu aparecia com olhar compenetrado e vestes típicas das festividades populares de Pernambuco.
Para muitos, “Anunciação” tinha conotação sacra, religiosa ou política, e anunciava a abertura à democracia, após duas décadas de ditadura militar. Mas Alceu jamais desfez o mistério e deixou a cada um do público a sua própria interpretação.
No décimo disco de sua carreira fonográfica, Alceu ainda cantava com Clementina Jesus e produzia a habitual mistura entre os ritmos tradicionais de sua terra e as influências oriundas da música pop, como o rock, o blues e as baladas românticas.
Nascido em São Bento do Una, no limite entre o agreste e o sertão, Alceu interessou-se desde cedo pelas artes, graças a seu avô Orestes, que era poeta e violeiro.
Logo, ele tomou contato com as canções radiofônicas e se encantou pela obra de Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga e Marinês. No Recife, passou a ouvir Little Richard, Ray Charles, Dalva de Oliveira e Orlando Silva, tudo junto e misturado, como ele sempre fez questão de salientar.
Formado em Direito, Alceu chegou a atuar como jornalista, mas logo abandonou a profissão para se dedicar à música. Já morando no Rio de Janeiro, lançou, com o conterrâneo Geraldo Azevedo, o seu primeiro disco, em 1972.
Na sequência, estreou na carreira-solo com “A Noite do Espantalho”, após protagonizar o filme dirigido por Sérgio Ricardo, que representou o Brasil no Oscar de 1975, na categoria de melhor filme estrangeiro.
O sucesso nas rádios só viria em 1980, com “Coração Bobo”, um frevo de arrasar quarteirão que levou multidões às ruas de todo o Brasil.
Daí por diante, Alceu colecionou hits do porte de “La Belle de Jour”, “Morena Tropicana”, “Girassol”, “Flor de Tangerina”, “Como Dois Animais”, “Pelas Ruas Que Andei”, e muitas outras, participando de trilhas de novelas da Globo e representando a insurgente geração nordestina com quem ele gravaria, na década de 1990, os aclamados álbuns “O Grande Encontro”, ao lado de Elba Ramalho, Zé Ramalho e Geraldo Azevedo.
Com mais de 50 anos de carreira, Alceu Valença é um dos artistas mais queridos do Brasil, presença garantida nos carnavais de Olinda e Pernambuco, ele segue cantando as nossas ladeiras da alma e do coração.
