Dia Nacional do Milho: Gil, Luiz Gonzaga, Gal e Djavan cantaram o cereal na MPB
Data é oportunidade para lembrar como a cultura abordou o tema por meio de xote, xaxado, valsa, baião e da moda de viola

O milho é um cereal que revela tanto a geografia quanto a cultura do povo brasileiro. Presente nessas terras desde os indígenas, em especial a etnia guarani, que o tinha como principal ingrediente da sua dieta, o milho tornou-se símbolo de celebrações como os festejos de junho, e se incorporou, definitivamente, à rotina dos brasileiros.
Comemorado no dia 24 de maio, o Dia Nacional do Milho nos lembra que o alimento, como não poderia deixar de ser, também foi cantado em verso e prosa por nossos compositores, revelando sua importância social e descrevendo costumes, passando, principalmente, por ritmos nordestinos e sertanejos, como o baião, o xote, o xaxado, a toda e a moda caipira. Dos anos 1960 até os dias atuais, o milho segue presente nos lares. Sivuca, Luiz Gonzaga, Gilberto Gil e Raul Seixas estão aqui para comprovar.
Ouça a playlist completa:
“A Festa do Milho” (baião, 1963) - Rosil Cavalcanti
Rosil Cavalcanti foi um habilidoso compositor de xaxado, xote, baião, coco e outros ritmos nordestinos, gravado por artistas da tarimba de Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Marinês, Ademilde Fonseca, Gilberto e Gal Costa. Pernambucano de Macaparana, em 1963 ele teve sua canção “A Festa do Milho” gravada pelo já consagrado Rei do Baião, Luiz Gonzaga. A música, cujo título original era “Pisa no Pilão”, uma expressão muito conhecida no Nordeste, batizou o LP lançado pela RCA Victor, cuja capa trazia, justamente, a imagem de várias espigas de milho. Em 2003, o baião recebeu uma nova versão do sanfoneiro Targino Gondim, nascido em Salgueiro.
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“Milho Verde” (folclore, 1973) - adaptação de Gilberto Gil
O LP “Índia”, lançado por Gal Costa em 1973, foi um marco na carreira da artista baiana. Em plena ditadura militar, ela se rebelava, através de um comportamento libertário, contra a violência política. A capa do álbum focava a parte de baixo do biquíni de Gal, num close pra lá de provocativo. A censura não gostou da ousadia e mandou proibir a distribuição. A solução encontrada pelo produtor Roberto Menescal foi envelopar o disco com um plástico opaco, o que só aumentou a curiosidade do público e catapultou as vendas de “Índia”. No repertório, seguindo a linha de resgate caipira, estava o folclore português “Milho Verde”, recolhido e adaptado por Gilberto Gil.
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“Cabelo de Milho” (xote, 1980) - Sivuca e Paulinho Tapajós
No palco, Sivuca parecia dois – principalmente quando dividia a cena com Hermeto Pascoal, também albino e dono de uma longa barba branca, ao estilo de Papai Noel –, dada a sua tremenda capacidade de transitar com versatilidade tanto pelo repertório erudito quanto no popular, indo de Johann Sebastian Bach (1685-1750) a cantigas de domínio público. Tendo o talento devidamente reconhecido por público e crítica, Sivuca colocou na praça o álbum “Cabelo de Milho”, em 1980, cujo título se referia ao xote composto em parceria com Paulinho Tapajós, músico dedicado às nossas origens musicais. A canção foi gravada pelos dois autores e conquistou o público Brasil afora.
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“Feira de Mangaio” (xaxado, 1980) - Sivuca e Glorinha Gadelha
Em sua terra natal, no interior da Paraíba, Sivuca passou a travar parcerias com gente da cancha de Paulinho Tapajós, Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc e Luiz Bandeira, até que, em um encontro literalmente único, foi responsável, ao lado de Chico Buarque, por um dos maiores clássicos da canção brasileira: “João e Maria”. Porém, a parceria mais profícua seria com Glorinha Gadelha, sua esposa. É de autoria do casal “Comigo Só”, “Guararema”, e, principalmente, “Feira de Mangaio”, xaxado lançado por Clara Nunes em 1980, que diz assim: “Fumo de rolo, arreio de cangalha/ Eu tenho pra vender, quem quer comprar/ Bolo de milho, broa e cocada/ Eu tenho pra vender, quem quer comprar”.
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“Grão de Milho” (valsa, 1980) - Cacaso e Francis Hime
Anárquico. Acadêmico. Artista. Intelectual. Boêmio. Disciplinado. Irônico. Todos esses adjetivos são utilizados por amigos, parceiros e parentes para se referir a Antônio Carlos de Brito, popularmente conhecido como Cacaso. Poeta, letrista, roteirista, desenhista e professor universitário, o mineiro de Uberaba criado no Rio foi um dos mais inspirados compositores da música brasileira, como comprova a linda valsa “Grão de Milho”, parceria com Francis Hime, lançada em 1980. Posteriormente, a música recebeu uma gravação de Renato Braz. “Sou pequeno feito conta/ Bem menor que grão de milho/ Minha terra é minha infância/ Onde estou é meu exílio”, diz a poesia.
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“Lambada de Serpente” (toada, 1980) - Cacaso e Djavan
Djavan não tem jeito. Não tem outro e não tem igual. Nascido em Maceió, o músico alagoano cravou a sua assinatura na música brasileira com um estilo facilmente reconhecível, que despertou a curiosidade de gerações desde o seu surgimento até os dias atuais. Com uma levada única calcada no samba e uma poesia de alto teor simbolista, ele conseguiu o difícil feito de unir sofisticação à popularidade, alcançando sucessos nas rádios com músicas como “Fato Consumado”, “Flor de Lis”, “Meu Bem Querer” e “Açaí”. Em 1980, ao lado do também refinado poeta Cacaso, lançou “Lambada de Serpente”, toada que fala sobre o “pé de milho que demora na semente”.
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“Milho aos Pombos” (canção, 1981) - Zé Geraldo
Zé Geraldo nasceu em Rodeiro, no interior de Minas Gerais, no dia 9 de dezembro de 1944. Cantor e compositor, ele tinha o sonho de se tornar jogador de futebol, o que acabou não acontecendo devido a um grave acidente que sofreu, quando voltava das férias familiares em Governador Valadares para São Paulo, cidade onde escolheu tentar a vida de artista. Foi lá que, na década de 1970, lançou o seu primeiro LP, após dois compactos. O sucesso, no entanto, só veio em 1979, após conhecer o compositor Lúcio Barbosa em um festival de música em São Paulo, que o apresentou “Cidadão”. Já em 1981, lançou, de sua autoria, “Milho aos Pombos”, uma reflexão sempre atual.
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“Quebra de Milho” (caipira, 1982) - Tom Andrade e Manoelito
José Ramiro Sobrinho, conhecido como Pena Branca, nasceu em Igarapava, no interior de São Paulo, no dia 4 de setembro de 1939, e morreu no dia 8 de fevereiro de 2010, aos 70 anos. Em 1961, ele formou com seu irmão mais velho, Ranulfo Ramiro da Silva, o Xavantinho, mineiro de Uberlândia, a histórica dupla caipira conhecida como Pena Branca & Xavantinho. Ciceroneados por Renato Teixeira, os dois gravaram a moda caipira “Quebra de Milho”, de Tom Andrade e Manoelito, originalmente lançada pelo Grupo Agreste, em 1982, no LP “Chegança”. Antes do encontro com Renato Teixeira, Pena Branca & Xavantinho também já haviam gravado a música, no ano de 1990.
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“Capim Guiné” (toada, 1983) - Raul Seixas e Wilson Aragão
Embora tenha nascido em Piritiba, sertão baiano, não foi Wilson Aragão quem incluiu o nome da cidade na toada “Capim Guiné”, lançada em 1983 por Raul Seixas. A iniciativa partiu do parceiro, que, nesse lance, trocou o rock pela toada. O encontro aparentemente inusitado gerou uma das canções mais interessantes da música brasileira, com foco na vivência do homem do campo, caso de Aragão. Cumpre dizer que, ao longo da carreira, embora influenciado pelos ritmos estrangeiros, Raul sempre fez questão de se referenciar à sua terra, promovendo misturas entre rock e baião, por exemplo. Na letra de “Capim Guiné”, o milho aparece na colheita ao lado de abacate e bananeira.
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“Colheita de Milho” (sertaneja, 1994) - Hamilton Carneiro e Andrade
Há mais de meio século, a dupla sertaneja Chitãozinho & Xororó colhe sucesso ininterrupto na música brasileira. O começo dessa trajetória, ainda no interior do Paraná, esteve invariavelmente ligado às origens da música sertaneja. Pertence a essa seara a canção “Colheita de Milho”, também conhecida como “Chiquinha”. Do primeiro compacto editado pela dupla em 1969, com “Moreninha Linda”, até o álbum “Coração do Brasil”, que faturou disco de platina pelas milhões de cópias vendidas, muita água passou por debaixo da ponte. Foi nesse disco que Chitãozinho & Xororó revelaram ao mundo “Colheita de Milho”, de Hamilton Carneiro e Andrade, posteriormente gravada pela dupla Zezé Di Camargo & Luciano, repetindo o sucesso da gravação original.
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