Cantor mineiro que surgiu com a Bossa Nova foi o pioneiro do rock no Brasil?
Gravações de Cauby Peixoto e Nora Ney contestam a ideia de que Carlos Gonzaga e a versão para o hit 'Diana' chegaram antes

A pele escura, o porte imponente, os cabelos esticados com chapa quente, a camisa vermelha sob um pesado casaco preto lembravam a figura de James Brown, mas tanto a voz quanto os movimentos no palco eram muito mais amenos e suaves. Carlos Gonzaga, que morreu na última sexta (25), aos 99 anos, era figurinha carimbada nos programas de auditório das décadas de 1970 e 1980, quando seu auge já tinha passado há muito tempo.
Ainda assim, havia uma aura popular em torno de seu nome que permanecia, o que o levava a ser recebido com gestos histéricos e gritos estridentes de plateias formadas, quase sempre, por mocinhas alegres e senhoras bem-comportadas. A televisão brasileira se refestelava com esses tipos suburbanos que alcançavam o estrelato, numa espécie de fábula da superação e da moralidade que os meios de comunicação de massa adoravam dramatizar.
A trilha sonora, inevitavelmente, falava de amor e solidão, sentimentos tão latentes quanto inefáveis, cuja força se amparava justamente nessa união. Nascido em Paraisópolis, interior de Minas Gerais, o futuro astro da música brasileira veio ao mundo com o típico e obviamente religioso nome de José, antes de ser rebatizado pela indústria fonográfica. Quando lançou seu primeiro disco, em 1958, já assinava como Carlos Gonzaga.
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Na juventude, trabalhou em uma empresa que fornecia cadeiras para salões de festas e barbearias. Foi quando chamou a atenção dos colegas para a afinação de sua voz. Morando em São Paulo, acabou contratado pela Rádio Tupi, e logo conseguiu um horário fixo.
Sua emissão vocal, e o próprio timbre, eram talhados para o romantismo em vigência na época, quando o samba-canção e o bolero importado do México viviam seu momento áureo, mas uma nova moda impôs diferentes padrões, e Carlos Gonzaga foi obrigado a se adaptar.
O mesmo ano da década de 1950 que é apontado como início oficial da bossa nova criada por João Gilberto, aquele em que Elizeth Cardoso colocou na praça o histórico disco “Canção do Amor Demais”, consagrou nas rádios a versão de Fred Jorge para o hit norte-americano “Diana”, que, aqui, em terras tupiniquins, obteve um sem número de regravações que contemplam Edith Veiga, Reginaldo Rossi, The Fevers, Chico César, Raça Negra, Wanderley Cardoso e até o dublê de celebridade Latino. A música voltou às paradas em 1976, na trilha da novela “Estúpido Cupido”, novamente na voz de Gonzaga.
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Mas o ano de lançamento de “Diana” no Brasil é exemplar não apenas da perenidade deste clássico, como da clara divisão social que nos aflige, um dado precioso para aferir a nossa tradicionalíssima desigualdade. Enquanto uma casta de ilustres se deleitava com a invenção da batida do violão de João Gilberto que revolucionou a canção popular, corroborada pelas harmonias de Tom Jobim, as letras de Vinicius de Moraes e a interpretação de Nara Leão, o povo, na acepção da palavra, só tinha ouvidos para os lamentos românticos de Carlos Gonzaga, primeiro negro a atingir um sucesso de proporções nacionais com o rock, outro feito relevante.
Ao longo de uma bem-sucedida e meteórica trajetória, o cantor seguiu emulando os sucessos da terra do Tio Sam, com versões aportuguesadas para hits de Paul Anka e outros ases do rock e das baladas, como “Oh! Carol” e “Você É Meu Destino” (cuja matriz serviu de tema para a personagem de Thiago Lacerda na série “Hilda Furacão”, protagonizada por Ana Paula Arósio).
Por conta disso, seria etiquetado, posteriormente, como “pioneiro do rock no Brasil”, título, como todos eles, contestável, e que sofreria a concorrência de nomes bem mais ecléticos e celebrizados, casos de Nora Ney e Cauby Peixoto, que gozariam de carreiras consideravelmente mais sólidas e longevas, após se aventurarem no ritmo do momento.
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Em 1957, Cauby lançou “Rock'n'roll em Copacabana”, de Miguel Gustavo. Data de 1955 a “Ronda das Horas”, adaptação para “Rock Around The Clock”, de Bill Halley, na dicção grave e precisa de Nora Ney, rainha da dor-de-cotovelo. Assim como é incontornável a presença de Celly Campello, em atividade desde 1958, intérprete das irresistíveis “Estúpido Cupido” e “Banho de Lua”.
Seja como for, ironicamente a crista na qual Carlos Gonzaga surfava seria solapada por uma onda de critérios praticamente idênticos. A fundamental diferença para a Jovem Guarda de Roberto, Erasmo e Wanderléa, não obstante suas versões para rocks consagrados e a aposta na mercantilização da música, era a juventude de seus integrantes, mais genuinamente identificados com o gênero.
Em 1965, Carlos Gonzaga já estava relegado ao rótulo de folclore ou lenda. O preço do sucesso efêmero e instantâneo foi o esquecimento na mesma velocidade que, do dia para a noite, o catapultou ao ponto de se tornar a voz mais ouvida do país. Num volume muito menor, quase sussurrando, João Gilberto não foi tão ouvido na ocasião.
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