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Em “Judoca”, Thierry Frémaux constrói memórias de um garoto dedicado ao esporte

Cineasta, que é faixa preta de judô, escreve um relato potente sobre a arte marcial

O cineasta, diretor de Cannes e faixa preta Thierry Frémaux esconde, em “Judoca” (Editora Fósforo, 272 páginas, R$ 44,30), alguns segredos. O livro, lançado no fim de outubro no Brasil, é um tributo à arte marcial: traz uma bonita história do judô, a descoberta particular de Frémaux na infância e adolescência e como isso influenciou decisivamente sua formação. Até quem não vê nada de judô além das Olimpíadas se sentirá cativado.

O judô foi criado nos anos 1890 pelo jovem Jigoro Kano, um japonês que se inspirou em elementos do jujutsu, uma arte marcial obsoleta. Algo que pareceria anacrônico em um momento de transformações, quando o Japão se abria para o mundo, mas que acabou dando origem a uma das modalidades mais conhecidas do planeta.

O testemunho de Frémaux dá a medida de como o tatame é um espaço sagrado e ajuda a construir a personalidade de quem dele participa. O texto é elegante, condizente com movimentos de plasticidade, mistérios e a disciplina encontrados em um dojo. O garoto que sai triste porque a aula termina e se anima porque tudo recomeça na semana seguinte.

“Senti sua potência, seu espírito, seu espaço, seu barulho e não poupei minhas forças”, admite, a certa altura. O judô o faz aceitar a própria insuficiência com dignidade. Assim como permite derrubar alguém mais forte - não é somente a brutalidade que está em questão.

De saída, o judô exprime inadequação e poesia. Como alerta o autor, “antes de tudo, o que se ensina não é como ganhar, mas como cair”. O caminho da maleabilidade define sua filosofia. São dois caracteres chineses: ‘ju’ significa maleabilidade, ‘do’ é o caminho.

Ao rememorar a juventude como judoca na periferia de Lyon, Frémaux demonstra como a criação japonesa extrapola as definições de hobby, esporte, luta, competição. É uma beleza singular que transforma sua noção de pertencimento na sociedade e, em consequência, a ideia do próprio ser e sentir. É um bem estar físico e emocional contraditório, atingido na queda e no cansaço. “Eu senti a deliciosa sensação de existir. São coisas tão passageiras”, alerta Frémaux.

Avesso à militarização da sociedade, Kano enxerga o judô como esporte e não como luta, “como superação de si, não confronto com o grande Inimigo invisível”. Frémaux explica: “Nada de passado mitológico, nenhum velho mestre de barbicha caminhando sozinho na montanha. O judô será urbano e moderno, imaginado por um homem pouco mais velho que seus alunos. Uma forma está surgindo. Oriunda do jujutsu, ela vem do mesmo princípio: fingir ceder para melhor derrubar”.

É o judô que cria as faixas marrom e preta, algo que não existia em artes marciais. A gradação com outras faixas coloridas e o quimono azul das competições, por exemplo, serão concessões ocidentais. E é lembrando suas viagens pela França da juventude, enquanto avança de faixa, que Frémaux constrói um testemunho dedicado do esporte que lhe deu as bases para enxergar as cores e luzes do mundo.

Judoca

  • Título original: Judoka

  • Autor: Thierry Frémaux

  • Tradução: Eloisa Araújo Ribeiro

  • Capa: Ana Heloisa Santiago

  • 272 páginas

  • Editora: Fósforo

Enzo Menezes é chefe de reportagem do portal da Itatiaia. Formado em jornalismo pela Fumec, tem pós-graduação em Poder Legislativo e Políticas Públicas pela Escola do Legislativo da ALMG. Foi produtor e coordenador de produção da Record e repórter do R7 e de O Tempo
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