A maternidade é um tema tão universal e atemporal que não deixaria de ser abordado pelos grandes cineastas da história da sétima arte, o que acrescenta uma camada fundamental ao caso: pelo talento de que dispõe, eles passam longe do senso-comum. Cada um a seu modo, mantendo intacto o estilo que os consagrou, Ingmar Bergman, Pedro Almodóvar, Roman Polanski, Jean-Luc Godard e Lars von Trier souberam explorar as matizes desta experiência tão reveladora e transformadora da essência humana. Aproveitamos a ocasião do Dia das Mães para relembrar alguns clássicos.
“No Limiar da Vida” (1958), de Ingmar Bergman
Dor, angústia, desespero, exasperação. Esse é, em poucas palavras, o retrato que Ingmar Bergman (1918-2007) pinta sobre a maternidade no filme “No Limiar da Vida”, de 1958. Além de dessacralizar a concepção, o diretor sueco vai além e nos oferece uma perspectiva que chega às raias do realismo. Exatamente por isso, ela não é nada consagradora acerca da vivência física, psicológica e emocional de dar à luz. O sublime, próprio da sublimação, fica mesmo de fora. O longa-metragem é baseado em um conto da autora Ulla Isaksson (1916-2000), conterrânea de Bergman, e o fato de ter sido escrita por uma mulher é fundamental para a história. Estamos no quarto de um hospital dividido por três gestantes que lidam com a gravidez de maneiras distintas.
“Mães Paralelas” (2021), de Pedro Almodóvar
As histórias de duas mães se cruzam neste filme lançado por Pedro Almodóvar em 2021, que chegou ao Brasil no ano passado e, atualmente, encontra-se disponível no catálogo da Netflix. Não por acaso, o título: “Mães Paralelas”. Mas, para além das desventuras pessoais enfrentadas pelas personagens de Penélope Cruz e Milena Smit, há o paralelismo histórico dos tempos que conduzem a narrativa. Almodóvar é hábil ao demonstrar o quanto o passado influi no presente que, por sua vez, terá grande responsabilidade sobre o futuro. O tom adotado pelo cineasta é o de sempre, aquele no qual ele se consagrou, ou seja, o melodrama que formou a sua adolescência com uma enxurrada de novelas latinas. O ponto de partida o leva a debater a ditadura espanhola.
“O Bebê de Rosemary” (1968), de Roman Polanski
Inspirado no romance homônimo de Ira Levin, publicado um ano antes, “O Bebê de Rosemary”, lançado em 1968, tornou-se um clássico do cinema de terror e um dos maiores sucessos do diretor Roman Polanski. O filme também consagrou as atuações de Mia Farrow e toda a perturbação da personagem (que eternizou o seu corte de cabelinho curto) e de John Cassavetes no papel do marido. O enredo flagra o casal em busca de um apartamento no centro de Nova York que, mal sabem eles, está coalhado de maus presságios. A abordagem pouco comum da maternidade sob o ponto de vista do terror é outro dos achados do longa-metragem e a experiência, nesse caso, claro, será atroz e assustadora. Em 1976, o filme ganhou versão para a TV, sem sucesso.
“Eu Vos Saúdo, Maria” (1985), de Jean-Luc Godard
Em 1983, com o filme “Carmen de Godard”, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, o diretor franco-suíço Jean-Luc Godard jogou na tela essa sentença: “Faça milagres se quiser desvendá-los. Só assim chegará lá”. Ao longo da carreira, o cineasta se habituou a conviver com o epíteto de incompreensível, desde que estreou com o clássico “O Acossado”, em 1960. De lá pra cá, recebeu adjetivos bem menos edificantes, inclusive dos colegas. Numa carreira recheada de polêmicas, talvez a maior delas tenha sido o filme “Je vous salue, Marie”, de 1985, traduzido para o Brasil como “Eu Vos Saúdo, Maria”, embora, no país, o longa-metragem tenha sido proibido pelo governo Sarney, supostamente por transgredir a santidade de Maria, mãe de Deus.
“Dançando no Escuro” (2000), de Lars von Trier
Esse drama musical do dinamarquês Lars von Trier rendeu prêmios ao diretor e também a Björk, em uma atuação que se tornou folclórica e lendária. Após a experiência, a cantora não quis mais saber de cinema, supostamente por ter sofrido verdadeiras torturas psicológicas do diretor, cujos métodos controversos são há muito tempo discutidos no universo da sétima arte. O gosto pelo grotesco e pela perversidade é uma das marcas do cinema de von Trier. Neste longa-metragem, ele aborda a obstinação de uma mãe que tenta, a todo custo, curar a cegueira do filho, de onde advém o título “Dançando no Escuro”. No elenco ainda estão Catherine Deneuve e David Morse. Parte do catálogo da MUBI, o filme pode ser acessado pelo Prime Video.