A produtividade de Chico César tem sido alta nos últimos anos, beirando a compulsão. O artista se entregou a seu ofício de tal maneira que, quando não lança discos autorais, aparece como intérprete ou compositor em trabalhos alheios. A quantidade cobra seu preço, muitas vezes sacrificando a qualidade.
“Vestido de Amor”, mais novo álbum do paraibano que iniciou a carreira no mercado fonográfico com o projeto “Aos Vivos”, disparando petardos diante do público, primando mais pela atitude do que pela excelência que seria possível captar em estúdio, se inscreve como capítulo importante, que dá continuidade aos demais, porém sem se destacar, em si, como algo excepcional. É mais um.
O tema que norteia o álbum, como se poderia supor, são as relações de afeto. O amor pode ser suave, agressivo, potente e manso. Chico César transita entre essas sensações, em um movimento irregular e contínuo. “Flor de Figo”, que abre os trabalhos, opta pela mansidão. E se assume como balada de potencial folhetinesco, pronta a embalar casais de novelas matutinas. É um bom momento do disco.
“Vestido de Amor”, que dá título à empreitada, surge com versos menos inspirados, apostando na sonoridade heterogênea, dançante. “Reboliço” tem proposta mais ousada. O cantor cai no brega sem medo de ser feliz. Rindo das próprias aspirações humanas e de seus delírios...
Chico vai bem quando não se leva a sério. “Amorinha”, embora recoloque o lançamento em tons amenos, emula com sagacidade os boleros que dominavam as estações na era de ouro do rádio. É mais um ponto a favor do repertório, que sublinha o talento de intérprete do artista.
“SobreHumano” insere a presença dos instrumentos árabes na roda, um dos trunfos e novidades apresentados. Salif Keïta, músico de Mali, engrandece a faixa com sua participação. A letra, no entanto, soa menos envolvente, dado seu caráter de bula. “Bolsominions” não deixa dúvidas. Chico parte pra cima de seus detratores com a potência em alta voltagem, sem poupar a estupidez alheia.
“Xangô, Forró e Ai” convoca o congolês Ray Lema, e se volta à raiz nordestina. “Te Amo, Amor” conta com bela instrumentação e explicita a beleza do arranjo. Aqui, Chico César é novamente instigado a olhar para dentro, e encontra alguns de seus versos mais bem-acabados. A introspecção parece fazer bem ao poeta, que deixa a realidade pela metáfora, em imagens que soam comoventes.
“Corra Linda” não consegue dizer a que veio. Fica meio perdida entre as intenções diversas do álbum, segurada pelo fio frágil da afetividade. “Pausa”, ao contrário”, vai ao encontro de tudo o que precisa ser dito e escutado em tempos arcaicos como os de agora, em que as pessoas se sentiram autorizadas a expor o que há de mais primitivo em cada um de nós.
“Na Balaustrada” encerra colocando o álbum pra cima, em clima festivo, descontraído, numa boa sacada de Chico César, atento ao novo, e com humor.