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Lançada há 70 anos, ‘Me Deixa em Paz’ alçou o nome de Monsueto ao estrelato

Cantor, compositor e instrumentista também ficou conhecido por sua participação em ‘A Tonga da Mironga do Kabuletê'

Monsueto foi um artista multimídia, que atuou como músico, cantor, compositor, ator e comediante

Embora tenha tocado bateria em diversas escolas de samba, Monsueto nunca se filiou a nenhuma delas, ou melhor, jamais se comprometeu em definitivo com uma escola em especial, sendo, ao mesmo tempo, muito bem-recebido por todas elas.

Esse espírito livre aparece em suas canções, mas, não necessariamente, a partir de um ponto de vista rítmico, como poderia supor a sua atuação como baterista de escolas de samba e gafieiras. Contrariando as expectativas, os grandes êxitos como compositor de Monsueto são preponderantemente melódicos, caso das melancólicas “Me Deixa em Paz” e “Mora na Filosofia”.

Mas há composições em que o ritmo ganha destaque, como o samba “A Fonte Secou”, regravado pela cantora Cláudia e por Maria Bethânia. “Couro do Falecido” é um exemplo ainda mais claro. Esta inspirada canção foi lançada pela cantora Marlene, no ano de 1954. Já “Ziriguidum”, rítmica até no nome, foi lançada por Elza Soares, no ano de 1961, com participação do próprio Monsueto.

“Me Deixa em Paz” é realmente uma pérola da canção popular brasileira, realçada na histórica gravação de Alaíde Costa em dueto com Milton Nascimento para o disco “Clube da Esquina”, de 1972. Vinte anos antes, em 1952, ela havia sido lançada por Linda Batista, em uma das melhores gravações da cantora.

Linda, com seu canto dramatizado e seu timbre metálico, era especialista em canções de desforra, rancorosas, baseadas em traições e desventuras amorosas como, por exemplo, “Vingança”, de Lupicínio Rodrigues. “Me Deixa em Paz” segue essa mesma toada. A música resume, em dez frases, o sentimento de desilusão e ranço do compositor.

Já “Mora na Filosofia” foi lançada pela cantora Marlene em 1955. Mas se tornou, realmente, um clássico, após o amplo sucesso popular de sua estreia, quando Caetano Veloso a regravou, em seu ímpeto tropicalista de resgatar e modificar os cânones da canção popular brasileira. A versão de Caetano presente em “Transa”, disco icônico de 1972, catapultou a canção ao status que ela possui hoje.

O arranjo produzido por Caetano em parceria com Jards Macalé ressalta todas as qualidades da canção, exacerba o seu poder de síntese e o sentimento de melancolia e angústia que ela contém. É uma canção que trata o amor a partir de um ponto de vista existencialista, filosófico. Uma sacada única.

Caetano Veloso, depois de “Mora na Filosofia”, regravou, também de Monsueto, “Eu Quero Essa Mulher Assim Mesmo”, no disco “Araçá Azul”, o mais experimental e ousado de sua carreira. A sinuosidade da composição está atestada em seu conjunto rítmico e na ousadia da letra, logo captada por Caetano.

Em “Eu Quero Essa Mulher Assim Mesmo”, Monsueto muda a trajetória natural dos fatos, da direção, e converge para uma filosofia mais alegre, bem resolvida, em que exalta a liberdade feminina e dá um chega pra lá nos preconceitos morais daquele e de vários tempos.

Cláudia, Maria Bethânia, Alaíde Costa, Milton Nascimento, participaram desse movimento de redescoberta da obra de Monsueto, assim como Elza Soares e Nara Leão que, em 1966, gravou “Faz Escuro Mas Eu Canto”, parceria de Monsueto com o poeta Thiago de Mello.

Em 1968, foi a vez de Martinho da Vila dar voz a “Casa Um da Vila”, parceria de Monsueto com Flora Mattos. Outro ponto importante na trajetória do artista foi o convite para participar, com grunhidos cômicos, da gravação de “A Tonga da Mironga do Kabuletê”, de Vinicius de Moraes e Toquinho, em 1971. Por essas e outras, Monsueto é um personagem único da música brasileira.