Jovelina Pérola Negra alcançou sucesso com seus pagodes depois dos 40 anos

Cantora e compositora foi descoberta quando trabalhava como empregada doméstica e criou estilo único na música brasileira

Jovelina Pérola Negra pertence à tradição de mulheres brasileiras como Clementina de Jesus e Dona Ivone Lara

O sonho de Jovelina era o mesmo de muitas mulheres brasileiras. “Ganhar muito dinheiro e dar aos filhos tudo que eu não tive”. Nascida no Rio de Janeiro, a moça de pele negra e voz popular, rouca, foi criada na Baixada Fluminense e logo se apaixonou pela Império Serrano, frequentando o terreiro da agremiação e entoando sambas e partidos-altos, a sua especialidade.
Para sustentar a casa, trabalhou como empregada doméstica durante a maior parte da vida, mãe solteira com uma ninhada de crias que era. Retrato da sociedade brasileira desigual e ingrata, que abafava nossa influência africana, Jovelina só teve oportunidade de mostrar todo o seu talento musical com mais de 40 anos.

Descoberta em um pagode em Coelho Neto, no Vegas Sport Clube, ganhou o apelido de Pérola Negra do amigo Dejalmir, para ressaltar o brilho de sua pele que se coadunava com a força de sua voz. De tiete de Bezerra da Silva, ela passaria a estrela da música brasileira. Mas não se pode dizer que foi rapidamente. Jovelina cantava há tanto tempo que, quando chegou ao disco, estava pronta.

Tanto que despertou a atenção de gente como Zeca Pagodinho, Alcione, Martinho da Vila, Beth Carvalho e outros que referendaram o talento da cantora de pagodes como “Bagaço da Laranja”, “Luz do Repente”, “Feirinha da Pavuna”, “Sorriso Aberto” e “Água de Poço”, que seguem sendo regravados.

Mas a trajetória de Jovelina Pérola Negra, se não foi meteórica pela velocidade, durou pouco. Após menos de uma dezena de discos gravados e algumas participações especiais, ela faleceu aos 54 anos, vítima de um infarto, no bairro do Pechincha, deixando órfãos três filhos e milhares de fãs na música brasileira.

Talvez a emoção que ela transmitia tenha sido demais para Jovelina. Herdeira do estilo de Clementina de Jesus, outra representante direta da matriz africana em terras brasileiras, Jovelina inventou uma maneira característica e única de pronunciar os seus sambas, cheios de movimento e temas populares, sobre o dia a dia dos mais humildes – no ramerrão que é comum a todos nós...

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