Preço da gasolina e do diesel no Brasil vai subir com a Guerra no Oriente Médio?

Especialistas alertam para a possibilidade de uma alta na inflação com a disparada no preço do barril do petróleo

Litro da gasolina está R$ 0,88 mais barato do que no mercado internacional

O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã no Oriente Médio trouxe uma volatilidade intensa para o preço do petróleo, com o barril chegando a ultrapassar US$ 120 no início da semana e despencando logo na sequência com o sinal do presidente Donald Trump de que o conflito pode acabar rapidamente. O estresse no mercado causa preocupação para a economia global, e cresce o temor pela possibilidade de aumento dos preços dos combustíveis no Brasil.

Com o Irã bombardeando países produtores no golfo pérsico, alegando que EUA e Israel usam os territórios vizinhos para ataques, o barril WTI já acumula uma alta de 11,92% na última semana, a US$ 83,45. Na mesma toada, o barril do tipo Brent já sobe 12,22%, a US$ 91,35.

A volatilidade é causada tanto pelos ataques iranianos, quanto pelo controle da República Islâmica no estreito de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo comercializado no mundo. Apesar do aumento dos preços no mercado global, especialistas ainda não cravam que haverá um repasse para o mercado brasileiro em um horizonte próximo.

Segundo o economista André Braz, coordenador de índices de preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ibre), tudo depende de quanto tempo o preço do barril do petróleo vai se manter em torno de cem dólares. Apesar da cautela, o especialista alerta que os impactos podem ser grandes.

“Foi um aumento muito forte, em um curto espaço de tempo, em cima de um item que atua em muitas cadeias produtivas. O petróleo influencia o preço dos combustíveis, que é a porta de entrada da inflação. Mas o espalhamento das pressões inflacionárias vão muito além do que a gente percebe em um possível encarecimento do diesel e da gasolina”, explicou em entrevista à Itatiaia.

Braz ressalta que toda a cadeia produtiva pode ficar mais cara e comprometer até a política monetária do Banco Central, que já havia sinalizado a possibilidade de fazer o primeiro corte na taxa básica de juros na reunião da semana que vem. Atualmente, a Selic está fixada em 15% ao ano, mas o mercado espera que até o final do ano ela encerre em 12,13%. “É um desafio a mais para botar a inflação na meta, dada a importância que o petróleo tem”, disse.

De acordo com um relatório dos analistas André Valério e Gustavo Menezes, do Banco Inter, o aumento do preço do petróleo pode valorizar o real, uma vez que o país é um dos maiores produtores da commodity no mundo. Por outro lado, o aumento traz preocupações relacionadas ao custo de vida.

“A gasolina é o item com maior peso individual no IPCA, respondendo por cerca de 5% do índice. Portanto, para cada 1% de alta no preço da gasolina nas bombas dos postos de combustíveis, o IPCA aumenta em 0,05 pontos percentuais”, ressalta.

Petrobras pode absorver o choque

Apesar do cenário de incerteza, os especialistas destacam que a Petrobras pode absorver o choque, pelo menos inicialmente. Desde o fim de 2023, a empresa não pratica mais o Preço de Paridade de Importação (PPI), que reajusta o preço de distribuição de combustíveis automaticamente de acordo com o mercado internacional.

Segundo dados da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), a Petrobras está vendendo o diesel 60% mais barato que o mercado externo, uma média de R$ 1,94 a menos, enquanto no caso da gasolina o preço é 35% menor (R$ 0,88).

“A Petrobrás tem uma margem para absorver esse choque, pelo menos incialmente, uma vez que o preço de distribuição tem ficado acima do preço importado ao longo desse início de 2026, diferentemente do que vimos em 2022, quando o conflito na Ucrânia iniciou em um momento em que os preços domésticos já estavam defasados em cerca de 10% frente ao internacional”, escrevem os especialistas do Inter.

Para André Braz, é difícil a Petrobras segurar o preço dos combustíveis com a disparada do barril de petróleo. Segundo o economista, o fator determinante é o tempo em que o conflito pode durar.

“Quanto mais tempo o conflito dura, os preços ficam sofrendo essa volatilidade, eles se sustentam em patamar mais alto, dada a incerteza. Se esse cenário de incerteza não ceder e o barril se sustentar nesse patamar em torno de 100 dólares por muito tempo, por mais dias, pode ser que haja necessidade de reajuste”, completou.

Leia também

Jornalista formado pela UFMG, Bruno Nogueira é repórter de Política, Economia e Negócios na Itatiaia. Antes, teve passagem pelas editorias de Política e Cidades do Estado de Minas, com contribuições para o caderno de literatura.

Ouvindo...