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Inconsistências em monitoramento via satélite criam barreiras para acesso ao crédito rural

Sistema de monitoramento do desmatamento pode apresentar falhas e atrasar a liberação de recursos financeiros ao agro

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Especialistas defendem que monitoramento só pode servir de base para liberação de crédito após confirmação da confiabilidade • Reprodução | Youtube Itatiaia

A questão ambiental tem tornado o acesso ao crédito rural no Brasil mais rigoroso. Desde abril deste ano, novas regras do Banco Central passaram a vincular a liberação de recursos à verificação de conformidade ambiental, com uso de dados de satélite para monitorar áreas de desmatamento. Com o novo regulamento, propriedades rurais são analisadas pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes) antes da concessão de financiamentos agropecuários, o que, segundo representantes do setor, pode dificultar ainda mais o acesso ao crédito, especialmente para pequenos e médios produtores.

De acordo com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a ferramenta pode apresentar erros e inconsistências. A gerente de Sustentabilidade do Sistema Faemg/Senar, Mariana Ramos, exemplifica situações em que o monitoramento por satélite pode gerar interpretações equivocadas.

“Esse satélite pode passar por uma área de florestas plantadas de eucalipto, por exemplo, e, em um segundo momento, registrar o solo sem vegetação durante o período de colheita. Nesse caso, não se trata de vegetação nativa, mas de uma cultura plantada. Ainda assim, isso pode gerar um alerta para o banco, exigindo do produtor uma contraprova para contestar a verificação”, relata.

Segundo Ramos, as inconsistências podem atrasar a contratação do crédito rural e gerar custos adicionais ao produtor.

“Pode haver atraso na contratação do crédito e, muitas vezes, a necessidade de contratar um laudo técnico para comprovar a situação da propriedade. Hoje, um dos grandes gargalos do crédito rural não é a disponibilidade de recursos, mas a dificuldade do produtor em cumprir todas as exigências previstas no Manual de Crédito Rural para acessar esses financiamentos”, explica.

Mariana Ramos, gerente de Sustentabilidade do Sistema Faemg/Senar • Anderson Porto | Itatiaia
Mariana Ramos, gerente de Sustentabilidade do Sistema Faemg/Senar • Anderson Porto | Itatiaia

Nesse contexto, representantes do setor afirmam que instituições financeiras estariam assumindo funções tradicionalmente atribuídas a órgãos ambientais. O secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Guilherme Campos, afirma que a pasta defende a utilização do Prodes apenas quando houver total segurança quanto à precisão dos dados.

“Enquanto não houver segurança total para esse tipo de restrição ao acesso ao crédito, a medida não deveria entrar em vigor. Isso só deve ocorrer quando houver certeza absoluta sobre a confiabilidade das informações utilizadas”, diz.

Secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Guilherme Campos • Anderson Porto | Itatiaia
Secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Guilherme Campos • Anderson Porto | Itatiaia

Para o professor Paulo Vicente, da Fundação Dom Cabral (FDC), o avanço da tecnologia e da precisão no monitoramento ambiental pode fortalecer a competitividade do Brasil no mercado internacional.

“Essa é uma pauta econômica e tecnológica. O Brasil ainda possui disponibilidade de terras e não precisa expandir sua ocupação territorial para aumentar a produção. Além disso, vem incorporando tecnologias no campo, desde pesquisas da Embrapa até a agricultura de precisão. Isso permite elevar a produtividade, reduzir custos e diminuir a pegada de carbono, tornando o país mais competitivo no cenário global”, avalia.

Paulo Vicente, professor da Fundação Dom Cabral (FDC) • Anderson Porto | Itatiaia
Paulo Vicente, professor da Fundação Dom Cabral (FDC) • Anderson Porto | Itatiaia

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Fabiano Frade é jornalista na Itatiaia e integra a equipe de Agro. Na emissora cobre também as pautas de cidades, economia, comportamento, mobilidade urbana, dentre outros temas. Já passou por várias rádios, TV's, além de agências de notícias e produtoras de conteúdo.