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Como um supermercado do interior reparte lucros com funcionários e fatura bilhões

Conheça o modelo de gestão que transformou um mercado de 300m² em império de R$ 7,9 bilhões e distribui 25% do resultado entre 14 mil colaboradores

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Imagem meramente ilustrativa • Freepik/Reprodução

Em Sertãozinho, interior de São Paulo, uma rede de supermercados construiu um império bilionário contrariando práticas convencionais do setor. Em vez de apostar em marcas próprias para proteger margens, o Savegnago investe em marcas líderes locais. E distribui um quarto do lucro líquido entre todos os funcionários, de açougueiros a gerentes.

De acordo com reportagem da Exame, a estratégia rendeu faturamento de 7,9 bilhões de reais e transformou a empresa no maior grupo supermercadista do interior paulista, com 64 lojas Savegnago, 11 unidades Paulistão Atacadista e mais de 14 mil funcionários. A filosofia que sustenta esse crescimento se resume numa frase do diretor-presidente Chalim Savegnago: "A nossa empresa tem dois olhos: um para olhar para os funcionários, outro para olhar para os clientes".

Por que dividir lucros com funcionários em um setor de margens apertadas

A distribuição de resultados existe desde 1978, apenas dois anos depois da fundação do primeiro mercado. Todo ano, a empresa divide 25% do lucro líquido em dois pagamentos: um em julho, referente ao primeiro semestre, e outro em janeiro, cobrindo o segundo.

A prática vale para todas as funções, sem distinção hierárquica. A iniciativa faz parte de uma estratégia de retenção em um setor conhecido pela alta rotatividade de pessoal.

Segundo Chalim Savegnago, a política pesa diretamente no caixa mas sustenta a operação. O executivo reconhece que o setor trabalha com menos de 3% de lucro líquido na última linha, o que torna qualquer decisão sobre custos sensível.

Como funciona a escala de trabalho que antecipou debates nacionais

O Savegnago implementou a escala 5x2 em todas as lojas no início de 2026, após teste-piloto no fim de 2025. A jornada semanal segue em 44 horas, mas o funcionário passou a folgar dois dias após cinco de trabalho.

Segundo o diretor-presidente, a mudança foi absorvida sem repasse a preços. A empresa precisou repor alguns funcionários em determinados setores, mas o ajuste não pressionou a estrutura de custos.

Chalim afirma que a escala elevou a satisfação da equipe. Sobre eventual redução da jornada legal, ele defende aplicação gradual para o setor se acomodar sem pressão de custo, considerando as margens apertadas do varejo alimentar.

A estratégia de sortimento que vai contra a onda de marcas próprias

Enquanto redes nacionais apostam em rótulos próprios para proteger margem, o Savegnago faz o caminho inverso. Ao entrar numa cidade nova, a empresa mapeia as marcas líderes daquela região e as coloca na prateleira.

A recusa da marca própria vem acompanhada de investimento em dados. Segundo a empresa, 85% das vendas são identificadas por CRM, sistema que registra o histórico de compras de cada cliente e orienta o sortimento de cada loja.

Esse acompanhamento permite adaptar o mix região por região. Segundo Chalim, "o cliente chega na loja e vai encontrar a mesma farinha de mandioca que ele costuma comprar". O café líder em Ribeirão Preto não é o mesmo de Campinas, e a rede evita levar a marca de uma praça para outra onde ela não é conhecida.

Da origem ao império: cinco décadas de expansão por ondas geográficas

A história começou em 1976, quando Aparecido Savegnago, pai de Chalim, aos 46 anos, deixou o ramo de beneficiamento de arroz e comprou um mercado de bairro de 300 metros quadrados em Sertãozinho, com dois caixas e seis funcionários.

A família não tinha experiência no varejo. Comprou a loja já abastecida e foi aprendendo o que vendia mais para repor o estoque. Em 1978, a rede dobrou o tamanho da primeira loja. No fim de 1979, já eram cinco unidades em Sertãozinho.

O crescimento acelerou com a estabilização da economia a partir do Plano Real, em 1994. A expansão seguiu lógica de ondas: primeiro a região de Ribeirão Preto, com foco em cidades acima de 45 mil habitantes. Depois São Carlos, mirando municípios acima de 80 mil. A partir de 2017, entrou na região de Campinas.

No fim de 2022, o grupo estreou no atacarejo com o Paulistão, em Rio Claro, e hoje soma 11 unidades do formato. Meio século depois, aquele mercado único de 300 metros quadrados virou o rei do interior paulista, segundo o Ranking ABRAS 2026, que coloca o Savegnago como sexta maior rede do país.

Onde o Savegnago se posiciona entre as maiores redes do Brasil

O faturamento de 7,9 bilhões de reais coloca o Savegnago entre as 20 maiores redes supermercadistas do país e na liderança absoluta do interior paulista, conforme o Ranking ABRAS 2026.

A rede está atrás de gigantes nacionais: Carrefour Brasil/Atacadão lidera com 123,5 bilhões, seguido por GPA (20,6 bilhões), Cencosud Brasil (10 bilhões), Plurix (9,6 bilhões) e Tenda Atacado (8 bilhões).

Logo abaixo do Savegnago vêm Sonda Supermercados (6,1 bilhões), Pague Menos (4,3 bilhões), Comercial Zaragoza (4,3 bilhões) e Roldão (4 bilhões). A posição consolida a força de redes regionais bem geridas em mercados específicos.

Os planos de expansão mantendo o modelo de gestão

Para os próximos anos, o grupo mantém o plano de expansão nas duas bandeiras. Novas lojas do Paulistão estão previstas para 2026, e uma unidade do Savegnago chegará ao Shopping Dom Pedro, em Campinas.

A empresa promete preservar o modelo de gestão que sustentou o crescimento até aqui: a distribuição de lucros, a escala 5x2, a estratégia de sortimento por CRM e a recusa de marcas próprias.

A filosofia dual de olhar simultaneamente para funcionários e clientes permanece como norte estratégico, mesmo com a pressão de margens apertadas e concorrência crescente no setor.

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