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Projeto possibilita jovens de periferia a gravarem músicas em estúdio de BH

Projeto gratuito em Belo Horizonte reuniu dez músicos de diferentes regionais para gravações em estúdio profissionais

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Equipe do Conecsons é responsável por realizar o sonho de dez jovens em diferentes Regionais de BH
Equipe do Conecsons é responsável por realizar o sonho de dez jovens em diferentes Regionais de BH • Gustavo Monteiro / Itatiaia

Entre picapes e batidas nascem músicas e sonhos que conduzem a vida de artistas dos mais variados gêneros. O estúdio traz uma mística e torna-se um templo criativo carregado de superstições, áurea e elementos técnicos que surpreendem a quem não compreende a alquimia da produção musical.

Com o intuito de desmistificar o processo criativo e possibilitar que jovens tenham acesso ao antro poético que é, muitas vezes, inviabilizado para quem está distante dos grandes palcos, surge o “Conecsons”, que leva jovens de diferentes regiões de Belo Horizonte para o lançamento de sua primeira música em estúdio profissional.

O projeto, promovido pelo Grupo de Desenvolvimento Comunitário (GDECOM) em parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte, utiliza o estúdio do Centro de Referência da Juventude (CRJ) como estrutura para o desenvolvimento artístico e pessoal dos jovens envolvidos no processo.

“A gente sugeriu o nome de Conecsons, de conectar os sons. A proposta é trazer também esses jovens da periferia e trazer esses adolescentes”, explica Soraya Veiga, coordenadora de projetos no GDECOM.

Para Clebin Quirino, produtor audiovisual e musical do projeto, o “Conecsons está entregando uma amostra muito potente do que a cidade pode oferecer do ponto de vista da juventude para a cidade em relação à produção de música. A gente recebe uma amostra muito significativa, plural e ao mesmo tempo singular. Cada artista vindo da sua regional, com suas experiências, traz aqui um pedacinho deles e a gente, com essa equipe, tenta transformar isso numa música e num presente para a cidade e para o próprio CRJ”.

Quando essas músicas ganharem a cidade e o mundo, a gente vai perceber isso: a diversidade desses lugares de chegada, vozes potentes, jovens, cheias de vontade e desejo

Clebin Quirino

O processo de seleção para ingresso no projeto ocorreu por meio de um edital que convidou um artista de cada regional da capital mineira para gravação. Ao todo, são dez jovens participantes que tiveram suas canções gravadas e mixadas pela equipe de produção do Conecsons.

“Essa é uma oportunidade muito bonita que a música, inclusive através das redes sociais, vem estourando e fazendo muitas vezes jovens de baixa renda e de periferia terem uma possibilidade de profissionalização que seja interessante”, destaca Laura Costa, diretora de políticas para juventudes da secretaria de Direitos Humanos.

“O nosso lema na política das juventudes é a gente conseguir construir um processo que a gente chama de ‘por, para e pelas juventudes’ e é isso que o estudo do CRJ vem fazendo todos os dias”, completa.

A música enquanto expressão individual e coletiva

As sessões de estúdio coletivas ao longo das gravações uniram os projetos dos diferentes artistas envolvidos, com múltiplos gêneros e referências, como forma de promover intercâmbio cultural entre os artistas, com trocas de experiências, mas de forma a preservar a individualidade nas produções e a expressão pessoal por meio da arte.

“Além de ter proporcionado uma experiência individual para cada artista, também teve uma experiência de coletivo. Eles vêm, vêem o trabalho um do outro, conversam, às vezes participam do trabalho do outro. Então, por ter essa diferença de gêneros musicais, eu acredito que isso traz muito para eles também, impulsiona muito o movimento musical da cidade”, afirma Rodrigo Oliveira, coordenador do estúdio do CRJ.

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Com a multiplicidade de inspirações, cada artista carrega para as sessões as potências e particularidades de seus ritmos acompanhados da bagagem técnica adquirida no decorrer dos encontros. Contudo, a prioridade segue a expressão das individualidades e respeito à forma original da canção, adaptada de acordo com as mudanças feitas no decorrer das reuniões.

“Eu acho que a música representa o mundo. Nas peculiaridades de cada um você vai enxergar um traquejo, um jeito de cantar que diz muito sobre BH. Por exemplo, um dos artistas que a gente vai ver traz esse funk ‘pique BH’ que é muito potente, tem uma referência do Passinho, mas tem outros que é uma música mais regional, tem um flerte mais com a nova MPB, outros mais com sertanejo”, explica Clebin.

Oportunidade de profissionalizar o sonho

A artista e diretora criativa do projeto, Maimbe, descreve a necessidade de saber lidar com os sonhos dos músicos que chegam entusiasmados para o desenvolvimento do projeto, mas precisam de lapidações técnicas para aprendizado em áreas diversas da produção musical.

Estudante da licenciatura em Música na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mesclou seu conhecimento didático adquirido na academia com a vivência próxima aos participantes do Conecsons para integrar a equipe em um processo de amadurecimento. O método se aproxima, em fases, da proposta de Paulo Freire que busca aproximar o aluno e o educador em vivências para criar um ponto comum no processo de ensino.

Se eu parar para pensar, dentro desse processo do Conecsons, eu fui a que mais saiu ganhando. Porque no final, se eu parar para pensar em todo o esquema que fiz com os jovens, de gravação de voz, composição, impostação de voz, tem uma metodologia,

Maimbe

“A gente conseguiu acompanhar o processo do menino que chegou aqui e não sabia escrever uma música, mas que tinha uma fome absurda de compor, uma vontade absurda de colocar para fora aquilo que ele sente. Eu ia com um jeito muito técnico e muito popular ao mesmo tempo, se a gente for colocar em nomes, para conseguir fazer esse jovem escrever, conseguir fazer conseguir com que esse jovem cante”, conta Maimbe

“Foi um processo muito árduo, ‘de formiguinha’, bem delicado de lidar com os sonhos desses jovens”, finaliza, em celebração.

Um dos jovens que foi impulsionado pelo programa é Lieezou, um dos artistas que foi selecionado no edital para lançar sua música. 

“Esse trabalho está me deixando muito orgulhoso, tem me dado muitas oportunidades de me transformar como artista e conhecer artistas incríveis”, diz Lieezou, autor de um funk com refrão marcante e carregado de características típicas das produções belo-horizontinas". 

A favela produz todo tipo de linguagem, conquista todo mundo

Lieezou

"Eu queria uma música dançante que fosse do Passinho de BH e que falasse com a criança, que falasse com o mais velho e ao mesmo tempo trouxesse a essência de cria”, finaliza o músico da Vila Apolônia, na regional de Venda Nova.

Em ritmo contrastante, mas que colide com o funk, como brincam os autores, a estudante de Música na UFMG Naluz apresenta com seu amigo, Guilherme, uma vertente da MPB com letra romântica que surgiu em dois dias de forma inusitada.

“Surgiu uma melodia na minha cabeça e aí eu mandei mensagem pro Gui: ‘Olha, eu tenho essa melodia, o que a gente pode fazer com ela?’ Aí ele escreveu uma frase, escreveu outra, em dois dias a música estava pronta”, conta. 

“Ele gravou a melodia e a parte dele também. Uma amiga nossa falou: ‘Olha, vocês vão vir aqui para casa e terminar de gravar a música’. A gente entrou no guarda-roupa dela e terminamos de gravar a música. Depois, a gente se inscreveu no Conecsons e está gravando com o estúdio, com banda, está sendo a coisa mais linda do mundo”, completa, emocionada.

Com pegada agressiva e letras que carregam críticas sociais com referências nos raps brasileiros das décadas de 1990 e 2000, Larita apresenta um boombap, vertente clássica do hip-hop como produzida por Racionais MC’s e Facção Central, que conta com poema de Fernando Pessoa interpretado por Antônio Abujamra no interlúdio.

“É muito satisfatório para todos os artistas pegar um projeto que você acha que não vai sair do papel e trabalhar tão bem, com estúdio, equipamento, pessoas que já estão no ramo. Foi uma experiência muito importante para mim, não só porque eu tirei a música do papel, mas porque era um sonho meu produzir essa música”, comemora. 

As criações dos três músicos, somadas a outras sete composições, foram produzidas processualmente pela equipe do CRJ. À Itatiaia, de forma antecipada, pôde acompanhar o processo de entrega da primeira versão das canções, que devem ainda passar por refinos até o resultado final.

Democratização do acesso à produção musical

Com valores que podem chegar a R$ 20 mil, conforme levantamento da revista Valor Econômico de 2025, produzir uma música em estúdio se torna uma atividade inacessível para uma gama de artistas iniciantes. 

“Você percebe que o estúdio tem características de primeiro mundo. Os produtores culturais que estão aqui são de ponta e entregam um trabalho que, se a gente fosse comparar com o mercado, uma hora estúdio do CRJ equipara-se a uma hora dos melhores estúdios de Belo Horizonte”, destaca Leonardo Rodrigues, coordenador do Conecsons, sobre a oportunidade aberta para os artistas da capital mineira.

Em sala isolada acusticamente, o espaço conta com estrutura gratuita para gravação de músicas e podcasts que pode ser usado pela comunidade mediante agendamento. O cadastro para uso é realizado por meio de preenchimento de formulário disponível no site da prefeitura e no instagram do CRJ.

Para os produtores, a utilização de uma estrutura especializada para a produção auxilia na compreensão dos integrantes enquanto artistas e democratiza para diversas camadas sociais um espaço exclusivo.

“Além da música, [fala] muito sobre o mercado musical, para eles se entenderem enquanto artistas de verdade, porque o que mais acontece é a gente ter essa ‘síndrome do impostor’ enquanto a gente faz arte. Então, trabalhamos muito o mental também com os meninos, dessa autoestima de falar: ‘você é cantor sim, você é compositor, você é dono da sua obra". Isso vai ser registrado como uma obra”, explica Maimbe, sobre o processo de convencimento com os demais artistas envolvidos sobre a relevância do material criado.

Como complemento, Larita destaca: “às vezes a gente não tem estrutura, não tem direcionamento como artista underground e arquiva muitos projetos que teriam potencial”. Com a criação de conexões e repertório no decorrer do processo, os artistas projetam fazer novas gravações musicais.

Lançamento das músicas ocorre em evento especial

Em fase final, o Conecsons deve realizar o lançamento oficial da versão definitiva das músicas em um show no CRJ para celebrar os 10 anos do espaço que surgiu em meio a ocupação estudantil que reivindicou o prédio para ações voltadas à juventude.

O evento, parte da programação planejada para as celebrações, deve contar com apresentações dos artistas envolvidos no projeto, assim como outros cantores envolvidos com o centro.

O Conecsons é um projeto piloto realizado pelo GDECOM e depende de financiamento público e privado para execução de edições futuras. O calendário de shows e lançamento das músicas será divulgado pela Prefeitura de Belo Horizonte pelas redes sociais do CRJ.

(Sob supervisão de Lucas Borges)

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Gustavo Monteiro é estagiário do Portal Itatiaia e estudante de jornalismo na UFMG. Natural de Santos-SP, possui passagens pela Revista B&R e Secretaria do Estado de Minas de Comunicação Social.